meusesc
nome
senha
na programação das unidades no conteúdo editorial   
Ajuda  enviar para um amigo    |    Ajuda    |    Ajuda sugestão de pauta

Indice de artigos
artigo anterior    |  próximo artigo   
África e Brasil se encontram em Milágrimas
Portal SESC SP | REVISTA DIGITAL 2 fev 2006

"Este espetáculo só quer mostrar que a gente precisa sair deste cotidiano todo louco, turbinado, e ir para um plano mais interno, mais calmo, de uma cultura interna, da calma e do sossego", descobre Douglas [bailarino do Projeto Dança Comunidade]

Encantamento e ansiedade. Talvez estas sejam boas palavras para descrever o estado do corpo e da alma dos meninos do Projeto Dança Comunidade no ensaio que antecedeu a apresentação especial de Milágrimas para seus familiares, no SESC Pinheiros. Os olhares destes rapazes e moças - 41 no total com idade entre 14 e 29 anos - se preparam junto com as roupas, ainda nas costuras finais no camarim, com o palco, sendo finalizado pelas luzes de Pedro Pederneiras, e nos acertos dos últimos passos, para mostrar o primeiro trabalho depois do sucesso de Samwaad (2004).

Tudo começou com o mergulho do coreógrafo Ivaldo Bertazzo, com apoio do SESC São Paulo, na meticulosa pesquisa que o levou ao encontro de uma das mais originais manifestações culturais da África do Sul - a Isicathamiya. Em seguida, as confluências e conexões com os sambas de Dorival Caymmi, de D. Ivone Lara e com a música urbana contemporânea de Itamar Assumpção tornaram-se evidentes. A idéia era criar uma ponte, que servisse para estabelecer um diálogo entre as duas culturas "A minha impressão com este espetáculo é que a gente parece muito mais africano do que parecia antes. Dá para perceber que a gente tem muita semelhança mesmo", diz Sidney Silva, 21, bailarino do Projeto Dança Comunidade, com o grupo desde a formação do projeto, em 2003. Veja aqui vídeo exclusivo de Milágrimas

Isicathamiya é um tipo único e popular de canto sul-africano tradicional de coro a capela. Seu título vem do Zulu e define o movimento dançado silencioso e gentil feito pelos cantores. Para Douglas Clemente de Souza, 20, também dançarino em Milágrimas, a descoberta deste tipo de canto ajudou a entender um pouco mais das histórias da África. "Na verdade eu não conhecia muito a África, tinha apenas uma idéia vaga. Tanto que eu pensava que o canto a capela, por exemplo, era uma coisa dos Estados Unidos e não é. É do sul da África. Mas o que mais me chamou a atenção foi a história do aparthaide (sistema oficial de segregação racial que era praticado na África do Sul privilegiando a minoria branca), o que aconteceu e o que acontece. E que de uma certa forma a gente vive isso aqui (no Brasil), de uma forma bem mais mascarada", diz. Conheça aqui o Projeto Dança Comunidade

Já para José Edson de Lima, o Edinho, 20, a África era puro mato. "Todo mundo me falava que tinha uma cultura de negros, que tinha sua tribo. Como no começo do nosso espetáculo aqui. No meu ponto de vista a África era um mato. Depois eu percebi que tem cidades desenvolvidas e que é completamente diferente do que eu pensava".

Bertazzo buscou em Milágrimas um novo desafio: criar trânsito musical original entre África e Brasil, que suplantasse as semelhanças já conhecidas entre a batucada e a percussão dos dois locais. "São duas culturas maravilhosas, ricas e diversas, onde a dança e a música se completam de forma harmoniosa e delicada", destaca. E conseguiu: "Mas olha, este espetáculo é uma loucura, viu? Uma hora você está num lugar, outra hora em outro. Ai você se pergunta: o que eu estou vendo? Eu estava vendo uma tribo, agora estou na cidade, um monte de gente com um figurino todo louco. O que eles estão tentando dizer?", diz Douglas.

E para o coreógrafo, a surpresa deste espetáculo, o que eles estão tentando dizer, está no que é mínimo. O excesso não faz parte da construção das coreografias. "E de repente você via estes jovens completamente perplexos porque nós no ocidente sempre pecamos pelo excesso de linguagem. Eles perceberam que com menos poderiam conseguir mais resultados do que nós, nessa cultura popular urbana", diz Bertazzo em entrevista ao Portal SESC SP. Leia aqui na íntegra. E Douglas Clemente completa. "Este espetáculo só quer mostrar que a gente precisa sair deste cotidiano todo louco, turbinado, e ir para um plano mais interno, mais calmo, de uma cultura interna, da calma e do sossego", diz.

Na quinta (24), na estréia para convidados, também serão lançados o livro Tenso Equilíbrio na Dança da Sociedade, coletânea com textos editada pelo SESC SP, e o CD com a trilha sonora do espetáculo, dirigida por Arthur Nestrovski e Benjamim Taubkin, e que reúne cantores sul-africanos e brasileiros.

O que: Milágrimas
Quando: Temporada até 05 de março | quinta a sábado, às 21h; domingo às 18h
Onde: SESC Pinheiros | R. Paes Leme, 195. Pinheiros | 11 3095-9400
Ingressos: R$ 20,00; R$ 10,00 (usuário matriculado, idosos e estudantes com carteirinha). R$ 7,50 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes).