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"Este espetáculo só quer mostrar que a gente precisa sair deste cotidiano todo louco, turbinado, e ir para um plano mais interno, mais calmo, de uma cultura interna, da calma e do sossego", descobre Douglas [bailarino do Projeto Dança Comunidade]
Encantamento e ansiedade.
Talvez estas sejam boas palavras para descrever o estado do corpo e da
alma dos meninos do Projeto Dança Comunidade no ensaio que antecedeu
a apresentação especial de Milágrimas para
seus familiares, no SESC Pinheiros. Os olhares destes rapazes e moças
- 41 no total com idade entre 14 e 29 anos - se preparam junto com as
roupas, ainda nas costuras finais no camarim, com o palco, sendo finalizado
pelas luzes de Pedro Pederneiras, e nos acertos dos últimos passos,
para mostrar o primeiro trabalho depois do sucesso de Samwaad (2004).
Tudo começou com o mergulho do coreógrafo Ivaldo Bertazzo, com apoio do SESC São Paulo, na meticulosa pesquisa que o levou ao encontro de uma das mais originais manifestações culturais da África do Sul - a Isicathamiya. Em seguida, as confluências e conexões com os sambas de Dorival Caymmi, de D. Ivone Lara e com a música urbana contemporânea de Itamar Assumpção tornaram-se evidentes. A idéia era criar uma ponte, que servisse para estabelecer um diálogo entre as duas culturas "A minha impressão com este espetáculo é que a gente parece muito mais africano do que parecia antes.
Dá para perceber que a gente tem muita semelhança mesmo",
diz Sidney Silva, 21, bailarino do Projeto Dança Comunidade, com
o grupo desde a formação do projeto, em 2003. Veja
aqui vídeo exclusivo de Milágrimas
Isicathamiya
é um tipo único e popular de canto sul-africano tradicional
de coro a
capela. Seu título vem do Zulu e define o movimento dançado
silencioso e gentil feito pelos cantores. Para Douglas Clemente de Souza,
20, também dançarino em Milágrimas, a descoberta
deste tipo de canto ajudou a entender um pouco mais das histórias
da África. "Na verdade eu não conhecia muito a África,
tinha apenas uma idéia vaga. Tanto que eu pensava que o canto a
capela, por exemplo, era uma coisa dos Estados Unidos e não é.
É do sul da África. Mas o que mais me chamou a atenção
foi a história do aparthaide (sistema oficial de segregação
racial que era praticado na África do Sul privilegiando a minoria
branca), o que aconteceu e o que acontece. E que de uma certa forma
a gente vive isso aqui (no Brasil), de uma forma bem mais mascarada",
diz. Conheça
aqui o Projeto Dança Comunidade
Já para José
Edson de Lima, o Edinho, 20, a África era puro mato. "Todo
mundo me falava que tinha uma cultura de negros, que tinha sua tribo.
Como no começo do nosso espetáculo aqui. No meu ponto de
vista a África era um mato. Depois eu percebi que tem cidades desenvolvidas
e que é completamente diferente do que eu pensava".
Bertazzo buscou em Milágrimas um novo desafio: criar trânsito
musical original entre África e Brasil, que suplantasse as semelhanças
já conhecidas entre a batucada e a percussão dos dois locais.
"São duas culturas maravilhosas, ricas e diversas, onde a
dança e a música se completam de forma harmoniosa e delicada",
destaca. E conseguiu: "Mas olha, este espetáculo é
uma loucura, viu? Uma hora você está num lugar, outra hora
em outro. Ai você se pergunta: o que eu estou vendo? Eu estava vendo
uma tribo, agora estou na cidade, um monte de gente com um figurino todo
louco. O que eles estão tentando dizer?", diz Douglas.
E para o coreógrafo,
a surpresa deste espetáculo, o que eles estão tentando dizer,
está no que é mínimo. O excesso não faz parte
da construção das coreografias. "E de repente você
via estes jovens completamente perplexos porque nós no ocidente
sempre pecamos pelo excesso de linguagem. Eles perceberam que com menos
poderiam conseguir mais resultados do que nós, nessa cultura popular
urbana", diz Bertazzo em entrevista ao Portal SESC SP. Leia
aqui na íntegra. E Douglas Clemente completa. "Este
espetáculo só quer mostrar que a gente precisa sair deste
cotidiano todo louco, turbinado, e ir para um plano mais interno, mais
calmo, de uma cultura interna, da calma e do sossego", diz.
Na quinta (24), na estréia para convidados, também serão
lançados o livro Tenso Equilíbrio na Dança da
Sociedade, coletânea com textos editada pelo SESC SP, e o CD
com a trilha sonora do espetáculo, dirigida por Arthur Nestrovski
e Benjamim Taubkin, e que reúne cantores sul-africanos e brasileiros.
O que: Milágrimas
Quando: Temporada até 05 de março | quinta a sábado,
às 21h; domingo às 18h
Onde:
SESC Pinheiros | R. Paes Leme, 195. Pinheiros | 11 3095-9400
Ingressos: R$ 20,00; R$ 10,00 (usuário matriculado, idosos
e estudantes com carteirinha). R$ 7,50 (trabalhador no comércio
e serviços matriculado e dependentes).
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