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ciclo de debates MUTAÇÕES - A INVENÇÃO DAS CRENÇAS 5 de agosto a 1º de outubro /2010 quartas, quintas e sextas, às 19h30 22 encontros no SESC Vila Mariana - Sala Corpo & Artes
As três últimas edições do ciclo Mutações buscaram circunscrever alguns dos graves momentos por que passa a cultura e o pensamento ocidentais a partir do advento do que se convencionou chamar revolução tecnocientífica. Este último ciclo tratará dos efeitos dessa revolução na mudança e prática das crenças, entendendo por crença não só o que se concentra no âmbito das religiões, mas também tudo quanto concerne aos ideais políticos, aos valores morais e éticos, às novas visões de mundo e às construções imaginárias no campo das artes.
Sabemos que a racionalidade técnica tem imperado de tal modo no mundo contemporâneo, que já se assiste com terrível clareza o direcionamento do pensamento humano para os caminhos da mais profunda descrença em todos os valores. É dentro dessa perspectiva que Adauto Novaes nos convida a refletir sobre as possíveis saídas para o homem em meio a tanta tempestade: se hoje a tecnociência traz uma infinidade de fatos novos, é necessário ir a eles para que se faça possível sair deles com outra visão do mundo.
A invenção das crenças é parte do projeto Cultura e Pensamento do Ministério da Cultura. Reafirma-se, desse modo, a importância que o ministério sempre conferiu ao estímulo e à manutenção de espaços qualificados de pensamento, onde há de se articular a crítica cultural, a inteligência especializada, a pesquisa universitária e tantos outros agentes que fazem parte do amplo espectro do espaço de cultura do Brasil contemporâneo.
A partir da ideia proposta pelo atual ciclo de que o espírito humano possuirá sempre a dupla propriedade de conservação e transformação, de ordem e desordem, de racionalidade e delírio criativo, estamos também certos de que será pelos caminhos da emoção, do sentimento, da arte, ou seja, da mais profunda sensibilidade que a experiência humana haverá de alcançar um diálogo proveitoso com o gelado — mas absolutamente necessário — campo científico. Aqui talvez se insira, quem sabe, uma poderosa crença ativa no sentido de se construir, por meio de esclarecidas pontes, um destino cada vez melhor para todos em meio a esta complexa atualidade.
Juca Ferreira Ministro da Cultura
A INVENÇÃO DAS CRENÇAS
... toda estrutura social é fundada sobre a crença ou sobre a confiança. Todo poder se estabelece sobre estas propriedades psicológicas. Paul Valéry, A política do Espírito
Um dos efeitos da revolução tecnocientífica está na mudança das ideias e práticas da crença, entendendo por crençanão apenas as religiões, mas também, e principalmente, os ideais políticos, os valores morais e éticos, as novas visões de mundo e as construções imaginárias das artes. As muitas interrogações a que nos conduz o tema da crença talvez devesse se resumir à indagação acerca do que leva as pessoas a acreditarem em coisas inacreditáveis, até mesmo quando dispõem de meios para adquirir todos os tipos de conhecimento.
Aqui temos, portanto, a fixação do permanente embate entre crença e saber. A partir dessas constatações, buscar-se-á circunscrever o campo das crenças. Para muitos pensadores elas seriam fenômenos afetivos — sentimentos, paixões — anteriores aos fenômenos intelectuais — reflexão, pensamento, razão. A crença não será, assim, justificada pela razão, sendo muito mais da ordem de um sentimento do espírito, de uma ficção da imaginação.
Mesmo com o risco da simplificação, podemos falar em duas modalidades de crença, a ativa e a passiva. A primeira conterá uma forte positividade, ou seja, uma potente crença no pensamento, na ideia de que a razão deve encontrar o sentido de tudo o que é vivido, real ou imaginariamente. Já a crença passiva se desenvolve mais no campo do costume, do hábito, vale dizer, em torno de tudo quanto de certo modo nos dispensa de pensar, nos conduzindo na direção da mais bem acabada expressão da servidão voluntária, que se apresenta sob a forma de uma completa ausência de inquietação espiritual. A crença passiva irá procurar, em última análise, desfazer a contradição entre a particularidade do sujeito e a universalidade absoluta. Essa é uma das origens das diversas formas de superstição e intolerância: o particular a se mostrar sob a espécie de um universal abstrato. Poder-se-ia dar por exemplo a constatação de que em um mundo sem Deus e sem a crença nos ideais do humanismo, a ciência e a técnica buscarão ocupar esse vazio, encarnando elas próprias os princípios divinos da onipresença, onipotência e onisciência. Por último, o ciclo irá discutir as noções de indeterminação, incerteza e dúvida — bem como as de ateísmo, niilismo e ceticismo — em busca de um entendimento amplo sobre a ideia de crença na era da tecnociência.
Adauto Novaes
INSCRIÇÕES ESGOTADAS
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