L.E.R., estas 3 letras significam Lesões por Esforços Repetitivos, um termo usado quando pessoas que executam tarefas nas quais, movimentos continuados ou repetitivos são realizados constantemente, apresentam queixas de dor, que podem estar localizadas em uma única região ( mais comum ao redor dos ombros) ou ser percebidas como generalizadas, atingindo os braços, as mãos e o pescoço.

A legislação Brasileira que normatiza as condições de trabalho e as ações relacionadas à prevenção e ao tratamento de pessoas que desenvolvem doenças ocupacionais, vem sendo mudada nos últimos anos e o termo L.E.R. está sendo substituido por D.O.R.T., que significa Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho.

A diferença que existe entre ambos os termos é a seguinte: enquanto L.E.R. supõe que a pessoa tenha um "machucado", esteja lesionada, o termo D.O.R.T. admite que os sintomas ( dor, formigamento ) podem aparecer nos braços, ombros, cotovelos e mãos, sem que a pessoa esteja "lesionada" ou "machucada".

A " cortina" do conceito de lesão por esforços repetitivos esconde o fato de que a dor que os pacientes portadores de L.E.R. apresentam, pode ser provocada também, por fatores como o estresse, a fadiga, a depressão.


Outra Diferença entre Lesão e Distúrbio Funcional

Como já mencionamos, lesão significa machucado, em um local qualquer do corpo. O "conserto" da lesão se dá por cicatrização, que corresponde ao processo usado pela natureza para "remendar" a região machucada. O conserto, tem que ser feito pelo próprio organismo que, sozinho ou com a ajuda do clínico e do cirurgião, cicatriza a lesão.

Distúrbio, significa que algo não está funcionando bem no nosso corpo e/ou na nossa mente ( não dá para separar os dois aspectos, porque um influencia o outro). O distúrbio pode estar presente, mesmo que o corpo não esteja "machucado".

Algumas dos distúrbios humanos podem ser comparadas com o mau funcionamento de uma máquina. No dizer do Dr. Paulo Gaudêncio, o ser humano, seja ele empresário ou funcionário, não vem acompanhado de manual de instruções, nem sempre oferece garantia, é uma máquina misteriosa" Gaudencio,P. men at work como o ser humano se torna e se mantém produtivo. Ed. Memnon. São Paulo.1995.

Quando esta "máquina" é posta para realizar trabalho para o qual não tem resistência, não foi programada, ou está descalibrada, surge o distúrbio, que pode provocar "desgastes" com mais rapidez e "quebras" constantes.

A falta de resistência que o ser humano pode apresentar para um determinado trabalho, pode ser causada por uma característica do próprio trabalho, cujas demandas excedem a capacidade pessoal de quem o executa, ou ser decorrente de fatores pessoais, que impedem a adaptação da pessoa às exigências impostas pelo trabalho a ser realizado.

A "programação" para o trabalho requer a presença de habilidades pessoais, inatas, que permitem o aprendizado. A "calibração" para o trabalho necessita que a pessoa, além de ter habilidades pessoais, tenha sido treinada para executar as tarefas necessárias para realizar o trabalho.


L.E.R. ou D.O.R.T.? Qual a diferença?

A mudança para o termo D.O.R.T. significa, portanto, que pode existir dor crônica, sem que exista, obrigatóriamente, um machucado e sem que a pessoa tenha sido "lesionada". O reconhecimento de que pode existir L.E.R. sem lesão, não torna menos importante as doenças que compõem o espectro das L.E.R. e nem exime as empresas da responsabilidade pela saúde de seus funcionários; ele apenas facilita a compreensão dos mecanismos que produzem o sofrimento e permite que se orientem ações mais eficazes que as atualmente em vigor, para o tratamento e a prevenção do problema de saúde pública que elas representam.


L.E.R. e contexto social

Existem vários distúrbios que podem estar associados ao trabalho, todos eles dependentes da ação combinada de um grupo de situações que denominamos "fatores de risco", sem os quais a pessoa não fica doente.

Saúde e doença são estados que dependem da integridade física e mental do indivíduo, bem como das características físicas e "emocionais" da sociedade na qual ele vive, mora, trabalha, se diverte... e sofre.

Nem doença e nem saúde, portanto, podem existir isoladamente, fora do contexto social e da percepção da realidade individual.


As L.E.R. segundo a visão dos agentes sociais

Diferentes grupos sociais têm diferentes respostas para conceituar as L.E.R..

As L.E.R. sob a óptica das ciências médicas

Para a maioria dos médicos especialistas em doenças musculoesquelética ou em Medicina do Trabalho, as L.E.R. correspondem a um processo inflamatório, que acomete os tendões, músculos e nervos que se atritam uns contra os outros, em determinados locais, como nos punhos e nos ombros, durante a realização de tarefas como a operação de terminais de computador, montagem de peças, deslocamento de pesos, etc..

Alguns grupos de médicos preferem explicar as L.E.R. como sendo o resultado da falta ou do excesso de substâncias naturalmente fabricadas pelo nosso organismo. Essas substâncias, conhecidas como hormônios e neurotransmissores, precisam ser produzidas em quantidades suficientes para regular as inúmeras funções que mantêm a nossa saúde.

Mudanças anormais na qualidade e/ou na quantidade dessas substâncias, tornariam as pessoas mais susceptíveis ao aparecimento de várias doenças, muitas das quais são acompanhadas por dor.


As L.E.R. sob a visão das ciências humanas

Muitos sociólogos e psicólogos tendem a acreditar que as L.E.R. sejam, principalmente, a manifestação somática das angustias vividas nesta nossa era conturbada, marcada pelo medo do desemprego, da violência e da falta de perspectiva de realização pessoal.


As L.E.R no contexto Capital versus Trabalho

Empresários e sindicalistas muitas vezes entendem as L.E.R. à partir de pontos de vista sociais diametralmente opostos: para uns, as L.E.R. não existem, são apenas " manha do trabalhador " ou "bandeira dos sindicatos", enquanto que, para outros, elas representam "apenas a ganância do patrão", o "resultado da exploração do trabalho pelo capital".


A visão do Centro Brasileiro de Ortopedia Ocupacional sobre as L.E.R.

Acredita que todas as explicações acima mencionadas representam uma espécie de "meia verdade" que, examinada isoladamente, à luz dos interesses dos diferentes grupos sociais envolvidos, podem adquirir " status" de verdade.

No entanto, se pudéssemos nos livrar dos diversos interesses políticos, ideológicos, econômicos e pessoais que norteiam nossas percepções e comportamentos, poderíamos encontrar dois fatores de risco, comuns a todos os ambientes de trabalho : o ser humano e sua fragilidade pessoal, em meio a um modo de organização social ineficaz, no que diz respeito à criação de condições adequadas para um viver sadio.

O sofrimento, portanto, faz parte da vida de uma imensa parcela da humanidade, constituida não apenas de pessoas inseridas nos sistemas formais de trabalho, mas também por todos aqueles que, apesar de exercerem atividades de vida diária não reguladas pelas tradicionais formas de organização capital-trabalho, sentem na própria pele, as consequências de uma maneira de viver na qual o respeito pelo próximo, a fraternidade, a segurança e a equidade social são apenas abstrações acadêmicas.

Assim, donas de casa, empresários, executivos, atletas, músicos, bailarinos, médicos, enfermeiros, dentistas ( a lista é infindável!!!)... têm procurado os consultórios médicos, apresentando sintomas exatamente iguais aos dos digitadores e trabalhadores das linhas de montagem.

Cabe a nós, médicos, a tarefa de identificar, no indivíduo que adoece, onde o fator de desequilíbrio atua mais fortemente: na dimensão biológica, na emocional ou na social.

Hans Selye, no prefácio do seu livro " The Stress of Life-1978, resumiu admiravelmente bem os mecanismos pelos quais tantas pessoas podem adoecer: -"a vida é, principalmente, um processo de adaptação às circunstâncias em meio às quais nós todos existimos. O segredo da saúde e da felicidade está no sucesso com que nós conseguimos nos adaptar às infindáveis mudanças que ocorrem no nosso mundo. Quando não conseguimos nos adaptar, ficamos doentes e sofremos".

Eis aí a explicação biológica para uma situação que o Dr. Roberto Shinyashiki, em seu livro O sucesso é ser feliz. Ed. Gente.São Paulo, 1997 descreve tão bem: -"a luta pela sobrevivência está brutalizando o ser humano. As pessoas vivem extremamente pressionadas. A competição tem servido como justificativa para todos os tipos de absurdos. Milhões de anos depois dos homens das cavernas, a vida continua a ser um campo de batalha. As pessoas destroem a si mesmas e às outras, para atingir suas metas. O preço de tudo isso tem sido muito alto. Há empresas cujos gerentes com mais de dez anos de casa, sofrem enfarto. Em muitas delas, as pessoas são consumidas como laranjas: espreme-se o suco e joga-se fora o que sobrou, o bagaço. A sociedade se transformou em triturador de sonhos"

Portanto, não é apenas a mesa ou a cadeira de trabalho, fora dos padrões considerados adequados, que contribuem para o aparecimento de sintomas dolorosos nos digitadores e em profissionais de diversas outras áreas. A tensão, produzida pelo estabelecimento de prazos, muitas vezes irrealistas, quanto à possibilidade de finalização das tarefas, a presença de ambiente hostil e restritivo, no que diz respeito às possibilidades de crescimento individual e de satisfação de necessidades pessoais, o distresse resultante das mudanças econômicas profundas e ameaçadoras, que colocam em risco o patrimônio e a segurança pessoal e familiar, a expectativa de um enfrentamento esportivo ou artístico, onde perder significa muito mais do que encontrar um adversário melhor... tudo isso exerce influência no aparecimento do sofrimento, tantas vezes percebido como dor.


As L.E.R. e a sociedade atual

Nós todos, temos pela frente um desafio: intensificar as ações ergonômicas centradas no " fator humano" das organizações e encontrar uma forma de viver na qual a percepção das necessidades econômicas, tão enfatizadas no nosso modo atual de viver, se equilibre com a convicção de que os avanços tecnológicos e o trabalho, só têm sentido se forem colocados a serviço do bem estar da humanidade.

Enquanto médico, sinto-me frustrado por perceber que a sociedade onde vivo parece considerar uma abstração "filosófica" e "acadêmica", as palavras sábias que abaixo transcrevo;

"A extrema desigualdade na maneira de viver, o excesso de ociosidade por parte de uns, o excesso de trabalho de outros, as fadigas e o esgotamento do espírito, os desgostos, as penas inumeráveis, experimentadas em todos os estados: eis, pois, as garantias de que a maioria dos males é fruto da nossa própria obra". Jean-Jacques Rousseau. O Contrato Social e outros escritos. Tradução de Rolando Roque da Silva Ed. Cultrix. São Paulo. 1995.


Compreendendo as L.E.R.- a necessidade da visão do todo

Conhecer todos esses aspectos que determinam o aparecimento da doença relacionada ao trabalho é fundamental para os profissionais de saúde, bem como para os empregados de todos os níveis hierárquicos de uma organização porque, só a partir dessa compreensão será possível entender porque uma pessoa pode sofrer dor e não apresentar lesões.

Não há dúvida a respeito do papel que os esforços físicos monótonos e repetitivos podem desempenhar no estabelecimento das inflamações dos tendões e dos nervos de determinadas pessoas. No entanto, por si só, os movimentos repetitivos não são suficientes para determinar o grau de incapacidade que frequentemente encontramos em pacientes com L.E.R.

Também não se questiona o papel importante que a ergonomia, voltada para a adequação dos postos de trabalho vem exercendo na obtenção de saltos de qualidade na vida das pessoas que trabalham em um bom número de empresas.

Mas é imprescindível que se compreenda que apenas adequar os postos e promover pausas não será suficiente para erradicar as L.E.R. das empresas.

Somente a abordagem sistêmica dos problemas de saúde no trabalho, pode nos capacitar a minimizar eficaz e duradouramente o fenômeno L.E.R. e obter economia significativa em recursos financeiros, atualmente gastos com tratamentos ineficazes e perdas de produção.

Voltar o olhar para o ser humano nas empresas está deixando de ser um bordão do "pessoal de humanas e RH" para se transformar em estratégia empresarial moderna, voltada para a sobrevivência da instituição. Em A Organização do Futuro, editado por Francis Hesselbein, Marshall Goldsmith e Richard Becker e pela Organização Peter F. Drucker: tradução Nota Assessoria. São Paulo, 1997, Drucker assim se expressa, sobre o papel das organizações em relação às pessoas que nelas trabalham: " A organização é mais do que uma máquina, como na estrutura de Fayol. Ela é mais do que econômica, definida pelos resultados alcançados no mercado. A organização é, acima de tudo, social. São pessoas. Seu propósito deve ser o de tornar eficazes os pontos fortes das pessoas e irrelevantes os seus pontos fracos. Na verdade, essa é a única coisa que a organização pode fazer- a única razão pela qual existe e precisamos dela.

Estamos na busca de aliar conhecimentos médicos com o desenvolvimento de processos administrativos e técnicas de produção que permitam implementar ações voltadas para a qualidade de vida do ser humano no trabalho, de maneira a permitir que o maior número possível de pessoas perceba o trabalhar como instrumento de realização pessoal.