O que você acha que é um texto literário?
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Por que um texto é literário?

Ainda que não goste de feijão-com-arroz, você entenderá que todos temos necessidade da poesia tanto quanto o feijão-com-arroz de cada dia. Poesia aqui é tomada como sinônimo do elemento poético presente em todas as coisas que achamos belas e por isso nos comovem. A poesia é tão necessária porque faz parte do território dos sonhos, da imaginação e da fantasia. Sem fantasia, a gente seca. Sem sonhos, enlouquece. A imaginação nos leva à superação.

A poesia é, por um lado, alimento sutil, que não pode ser comprado no supermercado nem ingerido como um comprimido de vitamina. Por outro, ela está em toda parte. A gente busca poesia em casa, nas ruas, no cinema, na música, no amor, no restaurante -em geral sem se dar conta. De fato, a vida quotidiana está cheia de poesia que não notamos. Bebemos, ouvimos, observamos e lemos poesia. Basta abrir os sentidos e descobrir a poesia da vida -seja na felicidade, seja na dor.

Preste atenção à mocinha limpando o nariz, disfarçadamente, no ponto de ônibus. Seu gesto inseguro, torto e desamparado é poesia pura.

Ou na velhinha que olha ansiosa para todos os lados, antes de atravessar a rua. Ela já viveu tanto tempo, tão humana, mas ali parece um inquieto e assustado passarinho.

Note o cachorro circunspecto movimentando as orelhas, como se processasse seus pensamentos, enquanto examina o mundo imenso mas simplicíssimo -pois cachorro sequer sabe que um dia vai morrer.

Note como é poeticamente desestruturador o tropeção que uma perua de salto altíssimo dá, ao subir uma escada, desvelando diante do mundo sua beleza forjada com tanto esmero.

Não feche os olhos ante o medonho vôo de uma bicicleta colidindo com um carro, ao virar a esquina: o desenho absurdo do menino no ar é pura poesia do horror, poesia que revela a tragédia.

E acompanhe os perigosos movimentos coreográficos de um motoqueiro em pleno trânsito, quase se matando para levar uma pizza que irá matar a fome de alguém.

Fatos quotidianos poéticos. Pergunte-se: por que há poesia neles?

Assim também: por que um texto é literário? Ora, um texto é literário quando implica poesia: a expressão literária é basicamente uma manifestação poética. O que não impede que essa seja uma pergunta polêmica. Mais ainda, uma pergunta quase impossível de se responder: pode haver tantas respostas quantas cabeças. As variadas respostas têm a ver justamente com as possíveis definições de poesia, que partem sempre de pontos de vista subjetivos, instituídos por diferentes estilos e escolas.

Tem quem julgue James Joyce um renovador do romance moderno, contra outros que o abominam como mero aprendiz de feiticeiro.

Assim também, existem aqueles que julgam Oswald de Andrade um mero piadista, ao contrário de outros que o consideram o grande inventor do modernismo brasileiro.

Muita gente acha Pablo Picasso a maior maravilha do século, mas também há quem o considere uma fraude.

Tem quem ache entediante a música romântica de Ludwig van Beethoven, preferindo o dodecafonismo de Arnold Schönberg. Ou vice-versa.

Deve-se admitir que tanto os partidários dos clássicos quanto os que preferem os modernos têm suas boas razões. Por um motivo simples: são muitos e diversos os meios de exprimir legitimamente a poesia, que não se excluem, a não ser em função de gostos divergentes das escolas estéticas.

Ainda assim, continua muito difícil dizer o que é legitimamente poético. O melhor mesmo é aproximar-se da poesia pelas tangentes. Ezra Pound, um escritor de vanguarda que cultivava os clássicos, deu uma definição cuidadosa e abrangente: "literatura é a linguagem carregada de significado até o máximo grau possível." Tal conceituação poderia ser aplicada a toda poesia.

Que sentido poético/literário haveria num texto bíblico do Cântico dos Cânticos?

Haveria significado poético no mito de origem dos índios Guarani?

Que poesia nas lendas do panteão dos orixás do candomblé?

Numa letra de Caetano Veloso?

Num vaso grego clássico?

Qual o grau poético de um desenho dos códices maias?

Ou da arte étnica dos índios Kadiwéu?

É claro que vão variar os enfoques e os motivos: seria inútil procurar num texto maroto de pára-choque de caminhão a sofisticação lingüística de João Guimarães Rosa.
Em cada caso poderá haver poesia, à sua maneira.

Retomando o conceito de Ezra Pound, é preciso lembrar que a alquimia literária é deflagrada por parcos elementos: não mais do que as palavras e um espaço em branco (uma página, o vídeo do computador, etc.). Carregar a linguagem com o máximo grau possível de significado poético significa utilizar todos os instrumentos nesse universo ao mesmo tempo vago e infinito (espaço branco + palavras), que está à disposição do(a) escritor(a). Quanto mais possibilidades de expressão poética forem criadas, mais disponibilidade literária haverá num texto. Exemplos:
utilizar os significados e significantes das palavras, com sua força expressiva e suas variantes musicais;
criar inventividade metafórica na combinação de palavras;
trabalhar o ritmo dentro de frases ou versos, assim como o ritmo entre frases ou versos;
utilizar criativamente o próprio espaço físico onde se escreve, buscando os múltiplos recursos visuais na disposição gráfica;
utilizar os muitos elementos rítmicos possíveis na estrutura narrativa da ficção: polifonia ou rigor monódico, movimentos, cortes, paradas, mudanças;
trabalhar a criação de personagens, com sua importância no contexto, para densificar a ficção literária;
atentar para o estilo como uma forma de expressão funcional, de acordo com o contexto.

Ainda assim, no final irá pairar sempre alguma forma de polêmica: isto é literatura ou não? A pergunta torna-se inevitável, porque não existe resposta objetiva num terreno que se fundamenta sobre a subjetividade. O melhor que se pode fazer é deixar que a polêmica continue. Que se manifeste não apenas o crítico especializado, mas o internauta, ups, literauta.

Aprenda. Divirta-se. Troque experiências. Polemize. São as finalidades literárias deste site.