|
O que você acha que é um texto literário?
Clique aqui
para dar a sua opinião. Antes você pode ler o que João
Silvério Trevisan escreveu sobre o assunto:
|
Por que um texto é literário?
Ainda que não goste de feijão-com-arroz, você entenderá que
todos temos necessidade da poesia tanto quanto o feijão-com-arroz
de cada dia. Poesia aqui é tomada como sinônimo do elemento
poético presente em todas as coisas que achamos belas e por
isso nos comovem. A poesia é tão necessária porque faz parte
do território dos sonhos, da imaginação e da fantasia. Sem fantasia,
a gente seca. Sem sonhos, enlouquece. A imaginação nos leva
à superação.
A poesia é, por um lado, alimento sutil, que não pode ser comprado
no supermercado nem ingerido como um comprimido de vitamina.
Por outro, ela está em toda parte. A gente busca poesia em casa,
nas ruas, no cinema, na música, no amor, no restaurante -em
geral sem se dar conta. De fato, a vida quotidiana está cheia
de poesia que não notamos. Bebemos, ouvimos, observamos e lemos
poesia. Basta abrir os sentidos e descobrir a poesia da vida
-seja na felicidade, seja na dor.
Preste atenção à mocinha limpando o nariz,
disfarçadamente, no ponto de ônibus. Seu gesto inseguro, torto
e desamparado é poesia pura.
Ou na velhinha que olha ansiosa para todos
os lados, antes de atravessar a rua. Ela já viveu tanto tempo,
tão humana, mas ali parece um inquieto e assustado passarinho.
Note o cachorro circunspecto movimentando
as orelhas, como se processasse seus pensamentos, enquanto examina
o mundo imenso mas simplicíssimo -pois cachorro sequer sabe
que um dia vai morrer.
Note como é poeticamente desestruturador
o tropeção que uma perua de salto altíssimo dá, ao subir uma
escada, desvelando diante do mundo sua beleza forjada com tanto
esmero.
Não feche os olhos ante o medonho vôo
de uma bicicleta colidindo com um carro, ao virar a esquina:
o desenho absurdo do menino no ar é pura poesia do horror, poesia
que revela a tragédia.
E acompanhe os perigosos movimentos
coreográficos de um motoqueiro em pleno trânsito, quase se matando
para levar uma pizza que irá matar a fome de alguém.
Fatos quotidianos poéticos. Pergunte-se: por que há poesia neles?
Assim também: por que um texto é literário? Ora, um texto é
literário quando implica poesia: a expressão literária é basicamente
uma manifestação poética. O que não impede que essa seja uma
pergunta polêmica. Mais ainda, uma pergunta quase impossível
de se responder: pode haver tantas respostas quantas cabeças.
As variadas respostas têm a ver justamente com as possíveis
definições de poesia, que partem sempre de pontos de vista subjetivos,
instituídos por diferentes estilos e escolas.
Tem quem julgue James
Joyce um renovador do romance moderno, contra outros que
o abominam como mero aprendiz de feiticeiro.
Assim também, existem aqueles que julgam
Oswald de Andrade um mero piadista, ao contrário de
outros que o consideram o grande inventor do modernismo brasileiro.
Muita gente acha Pablo
Picasso a maior maravilha do século, mas também há quem
o considere uma fraude.
Tem quem ache entediante a música romântica de
Ludwig van Beethoven, preferindo
o dodecafonismo de Arnold
Schönberg. Ou vice-versa.
Deve-se admitir que tanto os partidários dos clássicos quanto
os que preferem os modernos têm suas boas razões. Por um motivo
simples: são muitos e diversos os meios de exprimir legitimamente
a poesia, que não se excluem, a não ser em função de gostos
divergentes das escolas estéticas.
Ainda assim, continua muito difícil dizer o que é legitimamente
poético. O melhor mesmo é aproximar-se da poesia pelas tangentes.
Ezra Pound, um escritor de vanguarda
que cultivava os clássicos, deu uma definição cuidadosa e abrangente:
"literatura é a linguagem carregada de significado até
o máximo grau possível." Tal conceituação poderia ser aplicada
a toda poesia.
Que sentido poético/literário haveria num texto
bíblico do Cântico dos Cânticos?
Haveria significado poético no mito
de origem dos índios Guarani?
Que poesia nas lendas do panteão dos orixás
do candomblé?
Numa letra de Caetano Veloso?
Num vaso grego clássico?
Qual o grau poético de um desenho
dos códices maias?
Ou da arte étnica dos índios Kadiwéu?
É claro que vão variar os enfoques e os motivos: seria inútil
procurar num texto maroto de pára-choque de caminhão a sofisticação
lingüística de João Guimarães Rosa.
Em cada caso poderá haver poesia, à sua maneira.
Retomando o conceito de Ezra Pound, é preciso lembrar que a
alquimia literária é deflagrada por parcos elementos: não mais
do que as palavras e um espaço em branco (uma página, o vídeo
do computador, etc.). Carregar a linguagem com o máximo grau
possível de significado poético significa utilizar todos os
instrumentos nesse universo ao mesmo tempo vago e infinito (espaço
branco + palavras), que está à disposição do(a) escritor(a).
Quanto mais possibilidades de expressão poética forem criadas,
mais disponibilidade literária haverá num texto. Exemplos:
utilizar os significados e significantes
das palavras, com sua força expressiva e suas variantes musicais;
criar inventividade metafórica na combinação
de palavras;
trabalhar o ritmo dentro de frases ou
versos, assim como o ritmo entre frases ou versos;
utilizar criativamente o próprio
espaço físico onde se escreve, buscando os múltiplos recursos
visuais na disposição gráfica;
utilizar os muitos elementos rítmicos
possíveis na estrutura narrativa da ficção: polifonia ou rigor
monódico, movimentos, cortes, paradas, mudanças;
trabalhar a criação de personagens, com
sua importância no contexto, para densificar a ficção literária;
atentar para o estilo como uma
forma de expressão funcional, de acordo com o contexto.
Ainda assim, no final irá pairar sempre alguma forma de polêmica:
isto é literatura ou não? A pergunta torna-se inevitável, porque
não existe resposta objetiva num terreno que se fundamenta sobre
a subjetividade. O melhor que se pode fazer é deixar que a polêmica
continue. Que se manifeste não apenas o crítico especializado,
mas o internauta, ups, literauta.
Aprenda. Divirta-se.
Troque experiências. Polemize. São as finalidades
literárias deste site.
|