Literatura e Crítica: a arte de ler

Decerto não cabe aos humanos dizer se as flores existem para serem admiradas por nós, ou se a tranqüilidade que emana de uma paisagem campestre em um belo final de tarde foi criada para curar o stress do homem da cidade: mas uma coisa é certa, a literatura existe para ser lida. E isso não tem nada a ver com o desejo do escritor. O ato de escrever já contém em si de modo potencial o seu ato correlato de leitura.

É claro também que existem muitas modalidades de leitura: começando pela leitura que fazemos dos nossos próprios textos, passando pela leitura que parentes e amigos podem vir a fazer deles e indo até à leitura de um público maior, que pode ser atingido via uma publicação em forma de livro ou revista ou ainda - como é o caso deste texto - via Internet.

Cada leitor aproxima-se do texto determinado por uma série de elementos que direcionam aquilo que denominamos de "horizonte de expectativas" do leitor. Por exemplo, se o texto que vai ser lido tem um formato de revista em quadrinhos, imediatamente mobilizamos tudo o que conhecemos desse gênero de produção: sabemos como a revista deve ser lida, conhecemos seus personagens etc. Se compramos ou retiramos da biblioteca um livro de filosofia também temos em mente o que devemos esperar dessa obra. No caso específico da literatura - que tratamos aqui - a expectativa varia conforme o autor (trata-se de um autor brasileiro, francês, alemão etc.; de um clássico ou alguém desconhecido; de alguém que já conheço da leitura de outros livros? etc.), conforme o tipo de edição do livro (luxuosa ou popular), a editora (voltada para best sellers, para livros acadêmicos, para poesia etc.). Também a capa determina não apenas a compra do livro mas também a sua leitura, sem contar o fator preço... Se o tradutor for um poeta nacional conhecido a leitura vem duplamente determinada pela expectativa quanto ao autor e quanto ao tradutor. Na verdade, a série dessas determinações é praticamente sem fim.

É apenas na leitura que o ciclo da produção da obra se fecha - se fecha para logo se abrir. Pois as leituras também são infinitas. Nenhum texto permite uma leitura única e acabada justamente porque cada leitura é determinada pelo contexto do leitor. Portanto, um mesmo leitor lerá sempre de modo diferente um mesmo texto: conforme ele esteja mais ou menos triste, melancólico, eufórico, apressado, variando com o fato dele estar viajando, deitado, andando, com dor de dente... a cada vez ele lerá de um modo diverso. E mais: ler é sempre reler. Não existe uma primeira leitura absolutamente inocente: porque lemos palavras e idéias que sempre ligamos a outras palavras e idéias - e nunca associamos essas palavras e idéias do mesmo modo.

A Sala de Leitura é um espaço aberto para se pensar e praticar de modo crítico a leitura de literatura. Consequentemente ela se divide em duas seções principais: uma voltada para a reflexão do ato de leitura (o Livro vivo) e outra, interativa, voltada para a prática da leitura crítica de obras literárias (a Oficina de leitura).

No Livro vivo são apresentados alguns conceitos que podem ajudar a pensar a leitura como uma atividade lúdica, prazerosa - mas também complexa e que possui uma longa e bela história. Ele parte do princípio de que quanto mais nos aproximamos das várias camadas que compõe o texto literário e quanto melhor as compreendemos, mais a leitura fica rica, inteligente e interessante.

Na Oficina de leitura o internauta encontra duas "salas" abertas onde ele poderá ler e escrever resenhas de livros.

O objetivo da Sala de Leitura não é o de criar ou formar críticos literários, mas sim o de despertar o interesse do público pela atividade de leitura crítica: se ler é gostoso, pensar sobre a obra lida e procurar expressar as suas idéias sobre ela só aumenta esse prazer.
Esperamos que o leitor crítico que existe dentro de todos nós possa ser de algum modo despertado e se sinta encorajado por este site.

Boa leitura - e boa escritura!
Márcio Seligmann

BIBLIOGRAFIA INTRODUTÓRIA