
Médico, diplomata e escritor mineiro. Viveu entre 1908 e 1967. Escreveu sobretudo contos,
numa abordagem regionalista única. Através de um enraizamento profundo no mundo e
linguagem do sertão brasileiro, o escritor atingiu uma temática universal e introduziu
fascinantes inovações lingüísticas. O romance Grande Sertão: Veredas é
considerado o ápice de sua obra literária, que adquiriu projeção internacional.
Aquela Mulher não era má, de todo. Pelas lágrimas fortes que esquentavam meu rosto
e salgavam minha boca, mas que já frias já rolavam. Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus
buritizais levados de verdes
Buriti, do ouro da flor
E subiram as escadas com
ele, em cima de mesa foi posto. Diadorim, Diadorim - será que amereci só por metade? Com
meus molhados olhos não olhei bem - como que garças voavam
E que fossem campear
velas ou tocha de cera, e acender altas fogueiras de boa lenha, em volta do escuro do
arraial...
Sufoquei, numa estrangulação de dó. Constante o que a Mulher disse: carecia de se lavar
e vestir o corpo. Piedade, como que ela mesma, embebendo toalha, limpou as faces de
Diadorim, casca de tão grosso sangue, repisado. E a beleza dele permanecia, só
permanecia, mais impossivelmente. Mesmo como jazendo assim, nesse pó de palidez, feito a
coisa e máscara, sem gota nenhuma. Os olhos dele ficados para a gente ver. A cara
economizada, a boca secada. Os cabelos com marca de duráveis
Não escrevo, não
falo! - para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo! Diadorim
Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o
mundo sair. Eu fiquei. E a mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro
simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse
Diadorim - nu de tudo. E ela disse:
- "A Deus dada. Pobrezinha
"
E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor - e mercê peço:
-- mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo
somente no átimo em que eu também só soube
Que Diadorim era o corpo de uma
mulher, moça perfeita
Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice
d'arma, de coronha
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para
me benzer - mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei.
Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do
ri Urucúia, como eu solucei meu desespero.
O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.
(Grande Sertão: Veredas, pp. 453/454)

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