João Guimarães Rosa


Médico, diplomata e escritor mineiro. Viveu entre 1908 e 1967. Escreveu sobretudo contos, numa abordagem regionalista única. Através de um enraizamento profundo no mundo e linguagem do sertão brasileiro, o escritor atingiu uma temática universal e introduziu fascinantes inovações lingüísticas. O romance Grande Sertão: Veredas é considerado o ápice de sua obra literária, que adquiriu projeção internacional.


Aquela Mulher não era má, de todo. Pelas lágrimas fortes que esquentavam meu rosto e salgavam minha boca, mas que já frias já rolavam. Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus buritizais levados de verdes… Buriti, do ouro da flor… E subiram as escadas com ele, em cima de mesa foi posto. Diadorim, Diadorim - será que amereci só por metade? Com meus molhados olhos não olhei bem - como que garças voavam… E que fossem campear velas ou tocha de cera, e acender altas fogueiras de boa lenha, em volta do escuro do arraial...

Sufoquei, numa estrangulação de dó. Constante o que a Mulher disse: carecia de se lavar e vestir o corpo. Piedade, como que ela mesma, embebendo toalha, limpou as faces de Diadorim, casca de tão grosso sangue, repisado. E a beleza dele permanecia, só permanecia, mais impossivelmente. Mesmo como jazendo assim, nesse pó de palidez, feito a coisa e máscara, sem gota nenhuma. Os olhos dele ficados para a gente ver. A cara economizada, a boca secada. Os cabelos com marca de duráveis… Não escrevo, não falo! - para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo! Diadorim…

Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair. Eu fiquei. E a mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse…

Diadorim - nu de tudo. E ela disse:

- "A Deus dada. Pobrezinha…"
E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor - e mercê peço: -- mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube… Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita… Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d'arma, de coronha…
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer - mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do ri Urucúia, como eu solucei meu desespero.
O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.


(Grande Sertão: Veredas, pp. 453/454)