Caçada Noturna
Quando a noite põe em fuga
o dia;
quando a luz do sol se contorce
em agonia;
quando o último
vestígio da claridade telúrica
se esvai;
Quando o tempo corrido
deixa fluir
o tempo natural;
quando o som do alarido
dá lugar
ao assovio genial;
Quando a imaginação
desata
o nó das amarras;
quando o vôo do querubim
viaja
na altura de todas as casas;
Quando se ouve bem ao longe
toques de um singular
clarim;
quando a cidade enfim silencia
seu labor
e fica à mercê da fantasia
que habita em mim;
Surge então
por detrás
da última cordilheira,
uma virtual poeira
levantada por anjos noturnos
que guardam
suas asas,
escondem os alçapões e caminham
no meio da multidão
impunes.
Flávio Villa-Lobos
