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CONTORNO
É uma porta cincada - não fecha,
noite anciã que nunca termina:
vento assaltando a fresta
do tempo que te lancina.
É uma sombra palpável - nunca arrefece,
uma promessa apenas - não se realiza:
luz sonâmbula que despe
a mórbida silhueta de tuas linhas.
É um soluço tardio se abrindo,
choro de lágrimas escusas:
pranto contínuo que reverte
ao fogo brando de tuas agruras,
ao horizonte plúmbeo em que pairas
inerte, sem astrolábio nem bússola:
navio à deriva, fadado ao encalhe
inexorável de negras tessituras.
É uma falsa perspectiva do que seria,
traço lancinante de tua pálida figura:
quadro inacabado de uma antes
nítida, quase perfeita criatura.
de Flavio Villa-Lobos

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