Diamante negro

O que pode o chocolate?
Pode lembranças, um pote cheio delas. Doces, amargas, inteiras ou recortadas. Pode viajar, se teletransportar na embalagem do tempo. Ser eski-bon, chicabom, choquito, batom ou um sonho desmanchando a valsa do pêndulo.
Pode colorir confetes, dançar cantigas de roda na boca, estalar bombas de amendoim, descansar no sunday como estopim, desejo fundo em castanhas de cristal.
Pode também lembrar o garoto. Mas, deste, eu não quero falar.
Quero me lambuzar só por cima, na cobertura de endorfina. Lambuzar gostoso na paquera, no "quer um pedacinho?", no sorriso maroto, nas mãos do dou-não-dou correndo solto, os gestos se enrolando, rocambole de suor com chocolate prometido.
E suor me lembra exercício que me lembra dieta que me lembra balança que me lembra o escondido. Crime fichado no preto-e-branco proibido . Escorrendo a culpa nos centímetros.
Números..."compra, moça, compra...quanto? um por R$2,00, três por R$4,00, mas se quiser este aqui eu faço um por R$5,00 e três por R$7,00."
Confesso, nunca entendi a matemática que me engordava, mesmo porque essa matéria não era a minha preferida. E, assim, eu não discutia.
Mas eu já disse. Não é disto que eu quero falar.
Do chocolate de amor do meu avô, sim. Traz junto o seu sorriso moleque, o cabelo cheio prateado sempre penteado, o porte vigoroso, as mãos enormes que me estendiam o doce abençoado na Ave-Maria das seis da tarde que minha avó, sentada e recolhida, sempre ouvia. Traz os meus passos do trabalho e o prazer com que me olhavam quando na casa deles eu ia.
Uma casa de postal, impregnada de aromas, que artimanhas de crianças escondia. No último quarto, na salinha de costura, um crucifixo e...
"Pelo amor de Deus, moça, compra." E eu comprava. Sem discutir a matemática. Embevecida pelos seus olhos-recheios-de-diamante negro que eu adorava.
Não sabia que, um dia, no lugar da caixa haveria uma arma apontada.
Outros olhos. Outra história. Desta vez, em embalagem amarga.

de Rosane Villela