A Mulher Inflável


Quando acordou, sentiu sob a camisola uma pequena protuberância no seio esquerdo. Não tinha lógica, mas era verdade. Vestiu a blusa, arrumou o penteado, pronta para mais um dia de trabalho. Ainda se olhou no espelho: nada visível, ainda se prestava a não usar decotes, não daria na vista. Disse até logo ao marido e foi para o escritório.

As tarefas na empresa exigiam extrema velocidade.
Infinitos corredores possibilitavam a circulação de
gerentes, chefes de seção, funcionários (e algumas
máquinas). Nas margens dessa via ápia, vários setores, e dentro de cada um, muitos compartimentos, que por sua vez se subdividiam em células funcionais. Aí ficavam, em estado de expediente. Sem pausa para conversas, felicitações, incidente no trânsito, briga na família. Apenas a boa aparência e um silêncio de bronze.

Diversas pessoas iam à sua mesa, diziam ter hora
marcada com o chefe. Sempre com fleuma, mandava aguardar. Papéis avulsos, memorandos, anotações de reunião com estrangeiros, a vida repartida em horários. Não bastassem estas ordens, agora aquele ponto no seio esquerdo. Começou a coçar. A colega ao lado notou o movimento furtivo:
- Algum problema?
- Não é nada.

Veio a vontade de se auto-examinar. Isso era impossível ali na sala branca. Minicâmeras estavam espalhadas em todas as seções. Com frieza, falou em corrigir o penteado. Foi ao banheiro. Se despiu. O caroço não era mais caroço. Parecia um pequeno
cilindro rígido e de plástico. Ao redor a pele estava
ficando translúcida. Como se fosse um câncer comendo os escuros do corpo. O que estaria acontecendo comigo?

Tentava uma resposta, e nada. Seu regime alimentar era o mesmo durante anos. Ia à praia todo o verão. Não tinha filhos, cachorro, aquário.

Sentiu uma comichão. Aquilo ia incomodar o resto do expediente. Causaria suspeita, era capaz de vazar até o todo-poderoso.

Deu uma coçadinha. Mais. Mais um pouco.
E então... ploft!, saltou um pino, o seio esquerdo
foi se esvaziando, o ar saindo com um levíssimo
assovio. Quando pôs o dedo para conter o ar já se
sentia mais flácida, cheia de dobras. Igual a um
lençol amanhecido. Não podia encher a si própria. Por uma lei perversamente lógica, o ar que a inflaria
tinha que ser o alheio. Não era o sopro divino que lhe daria a vida, mas o humano.

Foi até a porta do banheiro. Pisava com dificuldade,
a pele do pé grudando ao chão. As pessoas aqui não são confiáveis, mas precisava tentar. Chamou por uma colega através da fresta.
- O que foi que houve com sua pele?
- Deixa pra lá. Você pode me soprar?
- Como é que é?!

Mostrou o orifício no seio. Houve um certo
constrangimento entre as duas. Mas o fato era
extraordinário, e nessas horas pouco se dava às
ciências da percepção.
- Onde fica mesmo?
- Bem aqui.

Uma colou a boca ao seio da outra e soprou. Ainda
prestativa, tirou da bolsa um esparadrapo e fez o
curativo. Estava um pouco inflada. Demorou a se
acostumar com a estranha sensação de plenitude
forçada. Quase não pisava o chão.
- Acho melhor avisar a empresa.

Não, o que diria o patrão? Provavelmente ela seria
despedida por invalidez. A notícia vazaria para os
amigos, a sociedade. Implorou à colega que lhe
arrumasse uma pequena licença para descobrir a causa secreta.

Não chegou a esperar a resposta. Foi até a mesa, pegou as chaves do carro, saiu nervosa da sala. Alguma coisa a perseguia desde cedo, o dia nasceu com defeito. Tomou o elevador e já ia saindo quando se descobriu cercada pelos enfermeiros da empresa. Foi posta numa maca até chegar à enfermaria. De pouco adiantaram os argumentos. Ao picarem-na com a injeção, estourou em
vários pedaços.

André Ricardo Aguiar