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UM POUCO MAIS
UM POUCO MENOS
Um pouco mais
um pouco menos
de desprezo
de desamparo
tanto faz:
há milhões
de desesperados
há inúmeros mortos a cada segundo
há falências que surgem como espirros
presos:
explodimos por dentro
decaímos
olheiras profundas
Tanto faz:
um pouco mais
um pouco menos
o retoque da maquiagem
só ameniza até que se lave
a cara
o dedo no nariz sempre é flagrado
e já não disfarçamos mais
Um pouco mais
um pouco menos
de agonia
de displicência
tanto faz:
somos únicos em sofrimento
mas milhões em motivos iguais
Tanto faz se um pouco menos
se um pouco mais
de culpa
tanto faz se dedo em riste
é aceito sem denúncia
Um pouco mais
um pouco menos
de agressão
não importa:
nessa cidade
tudo cabe um pouco mais
tudo descabe um pouco menos
tudo entorta como se fosse endireitar
e também o avesso
tudo principia no começo
do nefasto
tudo termina no fim
da redenção
nessa cidade
tudo engole e regurgita
a cada segundo de deglutição
Um pouco mais
um pouco menos
de fome
tanto faz:
alimento não é solução
em dias de Natal
tanto faz se um pouco menos
de sonho
tanto faz se um pouco mais
de supetão
o rio é um só
imundo em todo seu leito
tanto faz se estou do lado esquerdo
ou do outro
não há jeito, tanto faz
se mais ou menos eleições
pão ou pães, é questão de opiniães*
E ainda assim
mais ou menos solitários
continuamos a escrever poemas mais ou menos
necessários
mais ou menos
sentinelas
mais ou menos
nossos túmulos
um pouco mais
um pouco menos
de morte
tanto faz:
o exato
é que um pouco mais
um pouco menos
de poesia
não vai mudar a vida de ninguém.
* Trecho do livro "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães
Rosa.
de Antonio Arruda

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