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Conteúdo-forma

Tradicionalmente opõe-se conteúdo e forma de uma obra literária pensando-se a forma como a expressão externa do conteúdo da obra. Assim, na concepção retórica do texto, as idéias (res) seriam representadas pelas palavras (verba). Essa visão da obra literária baseia-se na crença de que existe um conteúdo autônomo com relação à forma e é portanto uma versão do representacionismo: ela desdobra a polaridade original-cópia que se encontra no conceito metafísico de mímesis como imitação de um objeto. Por outro lado, poucos pares de conceitos tiveram uma história da recepção tão rica quanto esse.

Na versão platônica e neo-platônica dessa dicotomia as formas representam idéias eternas (eide) e as obras seriam meras aparições incompletas dessas formas. Já em Aristóteles forma e conteúdo possuem uma relação muito mais orgânica e, no limite, eles não podem se separados. Aristóteles pensa a obra literária como estando necessariamente ligada com a sua forma: a teoria da epopéia e da tragédia discute a relação de determinação entre gênero, a forma da expressão e o que é apresentado. Além disso conceitos como o de reconhecimento (anagnoresis) e de peripécia (peripeteia) não deixam margem para se separar forma e conteúdo.

A teoria da forma literária é em grande parte a teoria dos gêneros literários, mas também inclui as categorias de descrição do fenômeno literário abarcadas pela elocução retórica e pela teoria poética tais como a métrica, o ritmo, as formas das estrofes e versos, as metáforas e as figuras. Até o século XVIII predominou uma teoria prescritiva da literatura e da sua apreciação crítica: caberia ao autor apenas adequar a sua idéia às formas herdadas da tradição. Apenas com o pré-romantismo no século XVIII e sua valorização do trabalho do autor como um trabalho do "gênio" que não poderia ser reduzido a categorias de explicação, superou-se essa concepção tradicional. Cada vez mais a forma foi valorizada como fruto da criação genial do seu autor e um filósofo como Kant chegou a afirmar na sua Crítica do Juízo que "Nas belas artes o essencial está na forma". Essa emancipação da forma da sua tutela do conteúdo representou um momento importante na história da literatura e das artes: ele foi paralelo justamente à superação das concepções representacionistas do saber e das artes. Essa abertura para o aspecto formal levou também a uma maior valorização do dado material da arte e da literatura. Nessa última, autores como Mallarmé levaram a afirmação do elemento formal e a desconstrução do elemento semântico do poema às suas últimas conseqüências. A folha de papel com seu branco e a escritura enquanto tipografia, caligrafia e desenho passam a ser essenciais na composição do poeta. No século XX esse formalismo esteve na origem tanto da arte abstrata, como também da poesia concreta, do culto do non-sense e, de um modo geral, do experimentalismo das vanguardas. O resultado desse processo é que não podemos mais falar nas artes e letras contemporâneas de atividades representacionistas: agora o que predomina é a expressão densa e altamente saturada de materialidade onde conteúdo e forma não podem mais de modo algum ser dissociados.


Poema concreto de Haroldo de Campos, "Nasce-Morre" (1956)


Poema concreto de Décio Pignatari,
"Coca-Cola" (1956)


Coeur, Couronne et Mirroir,
Guillaume Apollinaire, Calligrammes (1913-1916)

Un Coup de Dés Jamais n'abolira
le Hazard, Stéphane Mallarmé (1914)