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Gêneros literários

A teoria dos gêneros é tão antiga quanto a teoria poética e retórica. Já Aristóteles na sua Poética procurou estabelecer a tipologia dos gêneros épico e dramático (a comédia ele tratou apenas indiretamente). A sua intenção era descrever as características de cada gênero do ponto de vista do funcionamento de cada um enquanto estruturas que sustentam obras que devem conseguir comover/convencer os seus leitores: e isso só pode ocorrer via verossimilhança e perfeição da ilusão mimética. Ou seja, Aristóteles já estava consciente do fato de que os gêneros só podem ser pensados de modo comparativo - no caso ele confronta os dois principais gêneros da sua época - e como estruturas. A poesia, por sua vez, só pode atingir o seu efeito se ela conseguir um equilíbrio perfeito (cf. a noção de aptum da retórica) entre o seu tema e a linguagem utilizada. Só assim e com base em uma história (mythos) verossimelmente desdobrada pode haver, para Aristóteles, poesia.

Depois dele muitos foram os autores que se dedicaram à teoria dos gêneros: Horácio, Quintiliano, J.C. Scaliger, N. Boileau, Goethe, Friedrich Schlegel, Hegel, W. Benjamin e Lukács, para citarmos alguns dos mais importantes. No século XVIII estabeleceu-se de um modo rigoroso a tríade da literatura dramática, épica e lírica. Goethe denominou esses gêneros de "Formas naturais da poesia", o que aponta para o grau de confusão que se fazia na época entre história e definição ontológica dos gêneros. A poesia lírica seria aquela na qual apenas o autor fala; a dramática, aquela onde os personagens falam e a épica aquela onde autor e personagens falam.

Contra essa concepção, na virada do século XVIII para o XIX, Friedrich Schlegel e Novalis utilizaram os gêneros de um ponto de vista muito mais livre e criativo e os transformaram em tons (cf. a noção de estilo): cada obra poderia ter mais do que um desses tons atuando na sua estruturação. Com esses autores a poética deixou de ser uma prescritora de regras para o autor e este se tornou livre para compor conforme o seu "gênio". Não devemos esquecer que foram esses românticos que introduziram uma teoria e concepção fortes do romance como gênero por excelência na modernidade. Ele representaria justamente a mistura e superação dos demais gêneros literários. Para Schlegel: "Todos os tipos de poesia clássicos, na sua pureza estrita, são agora risíveis", afirmou ele em 1797, e no mesmo ano ainda: "Sentido para a individualidade poética tem-se apenas com os modernos". Ou seja, na modernidade o gênero é dissolvido pela força da individualidade e do estilo de cada texto. Vale a pena ler mais uma das suas frases bombásticas: "Pode-se tanto dizer que existem infinitos tipos de poesia ou que só existe um tipo progressivo. Portanto não existe nenhum".

Apesar dessa superação dos gêneros como instâncias naturalizadas, não podemos de modo algum descartar a rica e complexa história da teoria dos gêneros. À luz dela foram decantados pensamentos e conceitos fundamentais para a teoria literária. Além disso, hoje, com as novas mídias, antigos gêneros estão sendo modificados e novos estão surgindo com a interação entre a literatura e outras artes.