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Literatura e outras artes

A relação entre a literatura e as demais artes é um lugar comum desde a antigüidade. As artes eram então comparadas tanto pela sua origem comum na mitologia grega (as nove musas - filhas de Mnemosine, a Memória, e Zeus - presidiam as artes) bem como pelo fato de se considerar então toda arte uma imitação, mimesis. A Poética de Aristóteles está repleta de comparações entre a poesia e as demais artes, mas sobretudo com as artes plásticas. Assim, para ilustrarmos esse fato com uma das várias passagens de Aristóteles sobre o assunto, lemos no segundo capítulo de sua Poética uma comparação entre a poesia e o procedimento de três pintores gregos:

Como aqueles que imitam, imitam pessoas em ação, estas são necessariamente ou boas ou más (pois os caracteres quase sempre se reduzem apenas a esses, baseando-se no vício ou na virtude a distinção do caráter), isto é, ou melhores do que somos, ou piores, ou então tais e quais, como fazem os pintores; Polignoto, por exemplo, melhorava os originais; Pausão os piorava; Dionísio pintava-os como eram. Evidentemente, cada uma das ditas imitações admitirá essas distinções e diferirão entre si por imitarem assim objetos diferentes. (A poética clássica, trad. Jaime Bruna, São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1981, p. 20)

Essas comparações que foram feitas esporadicamente também por outros autores da antigüidade clássica, como Simonides de Ceos (que afirmou que "a pintura é uma poesia muda; a poesia uma pintura que fala"), Platão, Horácio, Quintiliano, Cícero e Philostratos, foram recebidas no Renascimento e tiveram seu sentido original ampliado. Horácio fez uma comparação "inocente" entre a poesia e a pintura que se tornou o lema de uma longa história de comparações e aproximações entre a poesia e as artes plásticas. Seu verso ut pictura poesis (poesia é como pintura) aparece como epígrafe de inúmeros tratados e poesia e pintura do século XVI ao XVIII. Vale a pena citar o contexto onde esse verso aparece na Arte poética de Horácio para restituir o sentido do verso:

Poesia é como pintura [ut pictura poesis]; uma te cativa mais, se te deténs mais perto; outra, se te pões mais longe; esta prefere a penumbra; aquela quererá ser contemplada em plena luz, porque não teme o olhar penetrante do crítico; essa agradou uma vez; essa outra, dez vezes repetida, agradará sempre. (A poética clássica, trad. Jaime Bruna, São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1981, p. 65)

No Renascimento a comparação entre a poesia e a pintura também serviu para se tentar galgar uma certa dignidade para a atividade do pintor, que era considerada inferior à do poeta. O artista plástico era visto como um artesão que trabalhava com as mãos, mais do que com o intelecto. Leonardo da Vinci escreveu um tratado comparando essas duas artes tentando provar a superioridade da pintura sobre a poesia (Codex Urbinas, in: Claire J.Farago (org.), Leonardo da Vinci's Paragone. A Critical Interpretation with a New Edition of the Text in the Codex Urbinas, Leiden, New York, etc., E. J. Brill, 1992). Com esse trabalho da Vinci encontra-se entre os precursores de um longo debate - ainda não superado - entre as artes visuais e as artes "verbais", que recebeu o nome de paragone (comparação, em italiano, mas que nessa polêmica acerca da superioridade das artes ganha o tom de competição, luta, agon, em grego).

A partir do Renascimento, recuperou-se também a tradição clássica da poesia descritiva. Ou seja, pinta-se desde o século XV de um modo eminentemente intertextual: os quadros representavam idéias que estavam na Bíblia, nas narrativas mitológicas e históricas, em tratados sobre os humores e sobre os tipos humanos (como acontecia nos retratos). Nesse contexto a pintura histórica é a mais valorizada. Por outro lado, a própria poesia descritiva aponta para uma tentativa da poesia atingir o mesmo efeito de espacialidade e presença concreta (enárgeia, na terminologia da retórica e poética), típico das artes plásticas.

Apenas no início do século XVIII esse movimento de comparação e a crença na convertibilidade entre as artes foram postas em questão. Isso ocorreu a partir do momento em que se questionou o primado da imitação na criação artística. Se o artista passa então a ser visto como uma espécie de "gênio criador", logo sua obra será única. Por outro lado, também o aspecto material das obras passa a ser levado em conta: na pintura valoriza-se cada vez mais a cor, e na poesia o trabalho com a linguagem.

Ao invés de se pensar a proximidade e convertibilidade das artes passa-se a pensar as diferenças entre as artes. Assim G.E. Lessing escreveu o principal livro sobre a questão da relação entre poesia e as artes plásticas em 1766, o seu Laocoonte, no qual ele defende a distinção dos campos de cada arte. Para ele a poesia deveria se limitar à representação de ações e a pintura a representar figuras em repouso (no momento mais frutífero da cena que se pretende reproduzir). (G.E. Lessing, Laocoonte. Ou sobre as fronteiras da Poesia e da Pintura, introdução, tradução e notas M. Seligmann-Silva, São Paulo: Iluminuras, 1998, pp. 193-202)

Apesar dessa tentativa de separação entre as artes, o efeito dessa reflexão sobre a diferença entre os diversos meios de cada campo artístico foi o de semear a idéia de uma obra de arte total, sinestésica (ou seja, que atingiria mais de um dos nossos sentidos), cujo exemplo máximo no século XIX foi a ópera de Wagner. Nesse mesmo século temos o poema "Coup des dés" de autoria de Mallarmé (cf. conteúdo-forma) que transpôs para o papel o resultado de séculos de reflexão intersemiótica (ou seja, sobre os diferentes meios de cada arte). Ele revelou o elemento escritural da poesia e ao reivindicar a importância do branco (do papel) para a literatura implodiu o poema como uma máquina semântica (que apenas produzia "significados").

No século XX as contaminações entre as diversas artes faz parte dos projetos estéticos das vanguardas. Uma das marcas dos trabalhos das vanguardas desde os seus primeiros momentos é reflexão sobre a linguagem artística. Assim, por exemplo, os cubistas Picasso e Braque, descontroem a estrutura representacionista e ilusionista da pintura via quebra da perspectiva, recusa do trabalho realista com as cores e transformação da tela e da pintura em uma espécie de campo escritural. Não por acaso eles introduziram nesse processo a colagem e sobretudo a colagem de letras e palavras.

Na segunda metade do século desenvolveu-se cada vez mais um novo campo para a poesia e para as artes a partir da incorporação das novas tecnologias: néon, televisão, cinema, vídeo, Internet e CD-Rom significaram desde sempre espaços fecundos para a interação entre as diferentes artes. Esse desenvolvimento simbiótico das artes não pode ser dissociado da nova imagem do homem que se traça nesse século de guerras, genocídios e também que viu nascer a psicanálise. A separação rígida entre literatura e artes plásticas correspondia a uma visão de mundo que isolava o corpo da mente. Hoje não podemos mais aceitar essa separação. A arte/literatura intersemiótica (ou seja, que transgride a divisão entre os campos das artes e das letras) é a arte desse novo homem. Ela expressa suas angustias e utopias.


Pablo Picasso,
Copo e Garrafa de Suze (Paris, 1912)


Pablo Picasso, Mesa com Garrafa,
Copo de Vinho e Jornal (Paris, 1912)


Joseph Kosuth, "It was it" No. 4 (1986)