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Memória

Nas últimas décadas temos assistido a um aumento sem precedentes dos estudos sobre a memória. Os clássicos modernos desses estudos são H. Bergson, Marcel Proust, Walter Benjamin e Maurice Halbwachs. Mais próximos de nós temos Francis Yates (autora de Art of Memory, University of Chicago Press, 1974; 1a. ed. 1966), Pierre Nora (organizador de Les Lieux de Mémoire, Paris: Gallimard, 1984), Yosef H. Yerushalmi (autor de Zakhor, Jewish History and Jewish Memory, Seattle, 1982) e Paul Ricoeur (autor de La mémoire, l'histoire, l'oubli, Paris: Seuil, 2000).

Por que fala-se tanto em memória ultimamente? Sem dúvida porque depois de um século marcado por tantas guerras e mudanças como o século XX - nunca na história da humanidade houve um tal acumulo de transformações em um mesmo espaço de tempo - tentamos agora estabelecer uma relação com o passado que assume necessariamente um novo caráter. Não temos mais as grandes utopias a nos orientar e fornecer um fim salvacionista e um sentido para a história. Nossa visão do ser humano foi abalada após percebermos que não havia incompatibilidade alguma entre "alta cultura" e "barbárie". Com isso também nossa crença sem limites na ciência foi posta em questão. Nessa tentativa de se estabelecer uma nova ligação com o passado, de se reatar o elo com ele, surge uma nova cultura da memória que se manifesta, por exemplo no processo de "musealização" da cultura e nas novas modalidades de apropriação do espaço público. Este torna-se um cenário que é utilizado na busca de uma compensação para a ausência de marcas na cidade, onde somos cada vez mais seres sem rosto e identidade.

Por outro lado, os choques e catástrofes do século XX funcionam como um paradoxal constructo de memória e esquecimento. "Só o que não para de doer permanece na memória" afirmou Nietzsche: nada mais verdadeiro na nossa época que vê o paradigma da memória a toda hora pôr em questão o conceito tradicional de historiografia (historicista e positivista, ou seja: que acreditava na possibilidade de se contar/reproduzir o passado de uma forma total e "científica"). O passado é visto agora do ponto de vista da construção da identidade em uma era marcada pela desorientação e pelo fim de certezas que antes orientavam nossas vidas: basta pensarmos no descrédito com relação aos políticos e à política tradicional; no esfacelamento de muitos Estados nacionais - e surgimento de inúmeros outros, sob o signo das etnias (essas, por sua vez, são construídas sob o signo da memória, mais do que da história).

A cultura é vista cada vez mais como uma memória do coletivo: e a literatura tem um papel privilegiado dentro dessa visão da cultura como memória. Para termos consciência disso não precisamos nem esmiuçar o fato de que a autobiografia e o romance (assumidamente autobiográfico ou não, mas sempre, de alguma forma, biográfico) constituem dois gêneros característicos da modernidade e da chamada pós-modernidade. Na verdade a literatura e a escritura de um modo geral sempre estiveram intimamente ligadas ao registro da memória. A escrita desde sempre foi um dispositivo de duração.

Na antigüidade a retórica reservou um lugar especial para a memória: toda a arte do orador dependia da sua capacidade de armazenar discurso: o seu e o dos seus oponentes (assim a memória tinha um local especial na arte da retórica, depois da invenção, distribuição, elocução e antes da ação). A partir dessa necessidade desenvolveu-se uma mnemotécnica, ou seja, uma técnica de memorização, que deixou profundas marcas na cultura ocidental (ainda que apenas recentemente tenhamos nos dado conta desse fato). Assim boa parte da pintura e da arquitetura, do Renascimento até nossos dias, funciona como um dispositivo de memorização de certas idéias, histórias, mitos e lendas. E o mesmo vale, sem dúvida alguma, para a literatura.

Aristóteles discerniu de modo claro dois momentos diferentes da memória: o armazenamento (memorizar) e o lançar mão das recordações (recordar-se). O recordar-se, por mais paradoxal que isso possa parecer, diferentemente da memória como armazenamento (que se quer sempre total), só existe dentro da complementaridade com o esquecer. Para esse autor a memória tem um papel central na fisiologia da mente na tríade dos "sentidos internos" fantasia, razão e memória.

Mas a antigüidade também pensou a memória dentro de uma terceira chave (além da mnemotécnica e da teoria do conhecimento), a saber, como memória dos mortos. A memória, podemos dizer, na medida em que é sempre jogo de luto - tensão entre nomeação e perda - tem o seu cerne nessa memória dos mortos. Um dos procedimentos centrais dessa memória é justamente a manutenção dos nomes dos mortos. (Basta lembrar da tradição religiosa da Pietas e o modelo secular dessa memória, a Fama).

A literatura no século XX, enquanto uma manifestação cultural e "memorial" de um século marcado por tantas catástrofes, não poderia deixar de expressar de algum modo essa situação histórica. Não por acaso o livro A Metamorfose, do autor tcheco judeu Franz Kafka pode ser considerado um dos ápices da literatura do século XX: nessa obra lemos a transformação de um indivíduo em um inseto. Ao invés do emprego tradicional de metáforas, Kafka literaliza o processo de transformação - alienação - do indivíduo moderno. Outro fenômeno literário típico da segunda metade do século é a Literatura de Testemunho: uma modalidade da literatura que em grande parte foi escrita por sobreviventes de catástrofes, como por exemplo, dos campos de concentração nazistas. Essa literatura de testemunho - como o romance no início do século XIX - dissolve a divisão tradicional de gêneros. Nela tanto o autor como os fatos aparecem de modo fragmentado. Não há mais espaço nem para o lirismo subjetivista (o sujeito está agora esfacelado), nem para o realismo ou naturalismo "científicos" (pois o mundo objetivo é visto como traumático) que dominara boa parte da literatura até há pouco tempo. A título de exemplo, os autores dessa literatura são Primo Levi, Jorge Semprun, Paul Celan, Ingeborg Bachmann e Albert Camus.