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Retórica e poética
A tradição retórica e poética dominou a reflexão literária do século V. a.C até o século XIX. Ao longo desses séculos estabeleceu-se um cerrado aparelho conceitual em torno do fenômeno discursivo. Hoje em dia cada vez mais os estudiosos de literatura e das demais áreas do saber voltam sua atenção para esse gigantesco e precioso patrimônio que ficou relegado a segundo plano por quase dois séculos.
A retórica é uma arte (techne, em grego) que se dedica ao domínio do discurso em todos os seus níveis, tendo em vista obter-se uma maximização dos seus efeitos sobre o público. Ela foi dividida já na Grécia antiga em três modalidades ou gêneros, conforme o seu objeto, público e fim: 1) retórica judicial (genus iudiciale, na terminologia latina); 2) retórica deliberativa ou política (genus deliberativum); e 3) retórica epidíctica ou demonstrativa (genus demonstrativum no qual elogia-se ou censura-se uma pessoa). A primeira modalidade tem o seu local privilegiado no tribunal; a segunda na ágora, a praça pública; a terceira em festas ou enterros. O tempo verbal da primeira é predominantemente o passado (julga-se ações passadas); o da segunda é o futuro (delibera-se na ágora sobre ações futuras que deverão ser empreendidas); e a da terceira o presente (o princípio da epideixis é descritivo e visa a apresentação da pessoa elogiada ou censurada).
A retórica divide a preparação e apresentação de um discurso em cinco fases:
1) invenção (conhecida pelo termo latino inventio): nessa fase procura-se os temas relacionados ao objeto que será exposto. Ao longo do tempo estabeleceram-se certos temas clássicos - chamados topoi ou loci, ou seja locais - a partir de uma concepção espacial da memória como uma arquitetura composta de compartimentos que abrigam os diversos elementos do saber. Na Idade Média estabeleceu-se um conjunto básico de questões a serem respondidas no momento da invenção: quem, o que, onde, com que, por que, como, quando?
2) disposição (em grego taxis, em latim dispositio): aqui o orador organiza a apresentação das suas idéias de acordo com diferentes estratégias de convencimento. Seu acento pode variar recaindo ou sobre as emoções mais fortes (visando a comoção, em latim: movere), ou sobre afetos mais amenos (atingindo o deleite, delectare), ou ainda sobre uma apresentação ordenada com base em argumentos racionais (princípio didático; cf. concepção latina de docere). O importante é que haja uma adequação (aptum) entre o fim do orador, seu método, seu público e o objeto de seu discurso.
3) elocução (léxis, elocutio): na teoria retórica clássica essa fase corresponde à passagem (adequada) das idéias (res) para as palavras (verba) correspondentes. Essa é a parte da retórica que mais se desenvolveu na modernidade. Ela trata da teoria do estilo e da ornamentação da linguagem. Aqui encontramos as descrições dos tropos e das figuras retóricas.
4) memória: após a composição do discurso na elocução, o orador deve memoriza-lo. A teoria retórica desenvolveu uma complexa metodologia de memorização, a ars memoriae, mnemotécnica, que tem sido recuperada nas últimas décadas em inúmeros estudos acadêmicos.
5) ação (hypocrisis, pronunciatio): finalmente o orador declama seu discurso. Faz parte da teoria da pronunciatio uma doutrina tanto da entonação como também da linguagem corporal - gestual - do orador.
A doutrina poética desde a antigüidade encontra-se muito próxima da retórica e muitas vezes chegou a não mais diferenciar-se dela. A base dessa separação é dada pelas duas obras de Aristóteles, a Retórica e a Poética (existe tradução dessas obras para o português). A diferença entre esses dois discursos nesse autor é apenas de grau quando ele trata da linguagem da poesia em relação à da oratória e é essencial quando ele afirma que a poesia deve representar (mimetizar) as coisas como elas "devem ser" e não, como ocorre no campo da prosa da historiografia, como elas "são". A Poética de Aristóteles legou para a posteridade uma série de conceitos chave para a filosofia, estética e teoria literária, como por exemplo o de catársis. Além disso - com a sua distinção entre a epopéia e a tragédia - ele está na base de uma longa e complexa tradição de teoria dos gêneros literários. Até hoje poucas são as obras sobre a poesia que abriram tantas portas para a sua compreensão como a Poética de Aristóteles. Portanto só podemos aconselhar a sua leitura a qualquer interessado em literatura e na sua crítica.