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Uma
velha e saudável mania
por Marcus Aurelius Pimenta
"O que poderíamos fazer hoje para matar o tempo,
Eva, meu amor?"
"Que acha de darmos uma volta, Adão, querido?"
Se eu fosse você não perderia tempo procurando
esse texto no Gênesis. Ele não existe. Por outro
lado, quem pode garantir que essa não tenha sido uma
das primeiras conversas travadas entre o homem e a mulher
no paraíso bíblico?
Agora, se você não faz o tipo religioso e sim
o gênero científico, pode imaginar um diálogo
mais ou menos assim entre o homo sapiens e sua fêmea:
"Grr tgggh high we-we grr fgh?"
Tradução: "Vamos andar?"
"Gh!"
Tradução: "Excelente idéia, até
porque nosso predador vem vindo aí."
Criacionista, evolucionista ou o que quer que você seja,
o importante é ter em mente uma coisa: nos seus milhões
de ano vivendo sobre a terra, o homem sempre foi um grande
caminhador. A história está cheia desses exemplos:
Era usando os próprios pés que nossos antepassados
iam às lavouras e perseguiam seu almoço, que
podia ser um grandioso mamute ou um simples rinoceronte. Deixar
para trás terras esgotadas, procurar solos férteis,
fugir de tribos invasoras, tudo isso se fazia gastando as
solas. Dos sapatos? Não, dos pés.
De acordo com o Êxodo, depois de deixar do Egito, o
povo israelita ficou vagando quarenta anos pelo deserto antes
de entrar na Terra Prometida. Moisés, que conduziu
o povo nessa longa jornada, não pôde ter esse
gostinho, pois terminou sua caminhada terrena poucos dias
antes da entrada triunfal.
Do lado dos filósofos, Aristóteles dizia que
andar facilita o fluxo do sangue e, por conseguinte, das idéias.
Para casar teoria e prática, ele costumava dar suas
aulas zanzando pelas academias e seus alunos eram chamados
peripatéticos, palavra que vem do grego e que significa:
aquele que gosta de andar. Emanuel Kant era outro que não
deixava de dar sua caminhada diária e dizem que era
tão pontual nesse exercício que seus vizinhos
de Koninsberg acertavam o relógio quando ele saía
à rua.
O compositor clássico Johann Sebastian Bach foi outro
que protagonizou uma célebre caminhada. Quando jovem,
ele andou por dias na neve só para ouvir tocar o organista
Dietrich Buxtehude.
Também foi marchando que grandes exércitos se
deslocaram para fazer suas guerras de conquista. Isso se deu
com os egípcios, com Júlio César, com
os cruzados na Idade Média, com Napoleão e mesmo
ainda hoje, com muitas tropas apesar de toda a evolução
do aparato militar.
No Brasil, que sempre foi um país de dimensões
continentais, os mais famosos andadores foram os bandeirantes.
Alguns deles, como Fernão Dias Pais, chegaram a ficar
mais de dois anos pelos sertões em busca de índios
e pedras preciosas. Muitos, diga-se de passagem, não
voltavam.
Mas houve outros andarilhos conhecidos como o padre José
de Anchieta, Tiradentes, Antonio Conselheiro e os membros
da Coluna Prestes, liderada pelo então capitão
Luís Carlos Prestes. Esse grupo guerrilheiro percorreu,
de 1924 a 1927, nada menos do que 25 mil quilômetros
pelo interior do Brasil, alcançando uma surpreendente
média 33 quilômetros por dia. Você encararia?
Só depois da Revolução Industrial, no
século XVIII, é que foi inventada a necessidade
de se fazer mais coisas em menos tempo. Para agilizar as coisas,
o homem passou a recorrer ao concurso de veículos que
o ajudassem a se deslocar mais rapidamente. Daí vieram
novas modalidades de carroça, a locomotiva, a motocicleta,
o avião e o maior inimigo da caminhada em nossos dias:
o carro.
Esses novos hábitos coincidiram com o declínio
da atividade andarilha. Hoje, andar se tornou uma coisa tão
excepcional que, quem diria, se tornou uma espécie
de recomendação médica.
Não é de se admirar, portanto, que vivamos com
medo de doenças associadas ao sedentarismo, como as
lombalgias, as deficiências cardio-vasculares, a osteoporose
e a mais temível de todas: a obesidade.
O homem foi projetado pela natureza para caminhar e não
para dirigir carros ou ficar sentado diante de televisões
e computadores. Viver uma vida assim é fazer um convite
diário para as doenças.
Hoje a medicina conta com inúmeros recursos e pode
nos proporcionar uma vida bem mais longa que a de nossos ancestrais.
Cabe a nós resgatar atividades saudáveis que
eles praticavam, assim garantiremos para nós maior
resistência e melhor qualidade de vida.

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