PERFORMANCE E REDE: MEDIAÇÕES NA ERA DA TECNOCULTURA

Renato Cohen

O advento de novos suportes tecnológicos com a presença das redes telemáticas (Web-Internet) , das extensões do corpo e da mente nos novos suportes digitais, promove outras relações de presença , mediação e relação com a escala dos fenômenos.
A recém nomeada tecnocultura e as navegações pelo universo "cyber" (William Gibson) colocam o interator contemporâneo em novas relações de espaço, tempo, presença, memória. Estão em causa as estruturas hipertextuais, os eventos de telepresença, as audiências refratadas, os ambientes multiusuários, o uso da hipermídia, a noção contemporânea de "tempo real".
As redes da Internet-na nova revolução telemática-- dão voz e interatividade aos interatores que passam a ser sujeitos da cena e não apenas consumidores dos fenômenos culturais. O mundo sensorializado estende nossa pele e nossa consciência a todos os espaços do cosmos. Teilhard de Chardin nomeia a criação de um espaço da "noosfera", redes do espírito humano, hoje redes da inteligência coletiva.

Viabilizando demandas dos anos 60-no âmbito da Contracultura--as novas expressões da body art, da vídeoarte, da vídeoperformance buscam transições entre os suportes corporais e de presença aos amplificadores e extensores dos novos mídia eletrônicos. A partir dos anos 80, os novos mídia tecnológicos (net-art, web-art, artetelemática) com novos recursos de mediatização, virtualização e amplificação de presença passam a impor outras direções às experiências radicais da Performance: Johannes Birringer nomeia um novo espaço monádico de performação-a sala tecnológica, recebendo imputs em tempo real-em contraposição à sala instalação , remetida às Artes Plásticas. Como em sua criação Vespucci (1999) , performance com uso de espaço computacional, cantoras líricas e bailarinas, alimentadas em tempo real por informações da Nasa e redes de CD-Rom, onde o público recompõe todo o hipertexto da criação, Birringer nomeia novos espaços de performação, intensamente alimentados por dados --em tempo real-que colocam os performers e a audiência em espaços simulados de improviso e presentificação.
As telas digitais, de cristal líquido, os espaços da cave, os artistas plugados e sintonizados na rede , passam a substituir os espaços materializados das Artes Plásticas.
Nesse contexto, contemporâneo, a "performação" (experimentação) contrapõe-se aos paradigmas da representação: aos espaços "auráticos" da cena ( edifícios-teatro, museus) contrapõe-se o espaço vivo das ruas , dos galpões, dos domínios da rede (Web-Art) . À recepção passiva da obra nomeia-se um espectador interator. À conhecida equação cênica texto-público-atuante , matriz do Teatro, interpõem-se , na performance contemporânea uma cena descontínua, amplificada, operada em outros espaço-tempos , com outros níveis de presencialidade: Karen O'Rourke , performa, ao vivo, em tele-presença para platéias de outros países. Eduardo Kac (Time-Capsule) implanta chips em seu corpo---metáfora de memória, subjetividade e da sociedade de controle.

O aporte das novas tecnologias que amplificam os mecanismos de mediação, virtualização e refratação da percepção e captação de códigos sensíveis que demarcam tempos, espaços, corporiedade vão legitimar uma série de experimentos , eventos -da ordem de uma cultura das bordas---que passam a se inscrever no campo da cultura. A questão que se propõe na arte da performance é de uma mediação e intervenção nos planos de realidade, superando os limites entre os campos do real e da ficcionalidade, entre sujeito e receptor da obra, dando complexidade e polissemia a produção do evento, que passa a ser culturalizado.
Esses novos espaços dramáticos, advindos da performance e conquistados na Modernidade, na égide do relativismo, de uma nova estética das intensidades, do ultra-realismo, operam no trânsito das Artes, dos corpos-instalados, das palavras amplificadas, dos primeiros suportes eletro-acústicos . A performance instala-se como arte híbrida, ambígua, oscilando entre a plena materialidade dos corpos e a fugacidade dos conceitos.

Ao mesmo tempo, a performance contemporânea---mediada por novos suportes---reinstaura a capacidade mitificadora e a demanda por produção de novo sentidos que se somam a essas sintaxes vertiginosas. Há um retorno ao "tempo real" , tempo da experiência, tempo do contato -mesmo que virtualizado-entre múltiplas possibilidades de subjetivação. Da mesma forma, a performance como arte sintática e de mediação , por natureza, cria operadores que articulam as novas relações entre homem e seus extensores maquínicos. As novas culturas tecnológicas, criadas por ambientes de interatores e produtores, com acessos as redes e as novas experiências de arte e comunicação, formam novos grupos sociais, onde vida e arte, cotidiano e virtualidade, leigos e artistas navegam os novos territórios da sociedade tecnológica.
A experiência do deslocamento e de suspensão -através das metáforas aéreas e podemos pensar as redes telemáticas como "campos cósmicos" -propõe uma recuperação do tempo ritual, do tempo dos sentidos , do tempo do extraordinário.


Sites de Consulta:

MUNTADAS , Antonio http://www.adaweb.com/influx/muntadas/ Intervenção Cultural
EDUARDO KAC http://www.ekac.org/interactive.html Novas Interfaces
STELARC http://www.stelarc.va.com.au/ Corpo Mediado

CASA DAS ROSAS -PROJETO IMANÊNCIA
http://www15.vianetworks.com.br/casadasrosas/ima/index2.htm
Intervenção Cultural-Performance (Curadoria Renato Cohen)