dia 16
dia 17
dia 18
dia 19

Informações aos participantes:
- As atividades do Seminário serão realizadas no Teatro SESC Vila Mariana
- No local o participante encontrará serviços de estacionamento e alimentação
- Os inscritos receberão o programa geral do evento e certificado de participação
- Haverá tradução simultânea
- As palestras serão complementadas por depoimentos e intervenções, geradas a partir de entrevistas prévias gravadas em vídeo com D. Paulo Evaristo Arns, Renata Pallottini, Gilberto Dimenstein, Clóvis Rossi, Carmem Junqueira, Décio Altimari, João Paulo Capobianco, Dulce Critelli, Maria Eulina, Sueli Carneiro, Peter Pelbart, Tom Zé, Marcelo Coelho, Antunes Filho, Sofia Cavalcante e Renata Rangel.

 

 

 

 

 

16 de outubro

8h às 9h30
Credenciamento dos participantes

10h

Abertura
Conferências

10h30 às 12h30
Ética um valor fundamental

Conferência de caráter geral e introdutório, destinada a situar os entendimentos, a importância e a abrangência das condutas morais, incluindo as concepções religiosas, laico-filosóficas, históricas e autorais.


Amelia Valcárcel - Doutora em Filosofia e professora de Filosofia Moral e Política, na Universidade de Oviedo - Espanha. Preside a Associação Espanhola de Filosofia Maria Zambrano e integra a Comissão Permanente do Museu do Prado. Autora do livro Sexo y Filosofia, entre outros.

A ética no mundo de hoje, nos começos do século XXI, converteu-se na base principal da convivência humana. No passado, a convivência pôde subsistir em virtude de um certo equilíbrio de interesses, apesar das muitas diferenças de origem, culturais e religiosas entre os distintos grupos humanos. Hoje, no entanto, é duvidoso que se possa manter a paz global se não for sobre os fundamentos de um discurso da justiça e de uma sensibilidade compartilhada. A conduta individual e a conduta coletiva, de sociedades e de nações, seguiram uma mesma pauta em direção à igualdade e à autonomia. A característica da moral da Ilustração foi o desenvolvimento da responsabilidade individual e a afirmação de um Estado democrático de direito. Para que ambas as conquistas se generalizem deve-se insistir no desenvolvimento de economias de bem-estar e no controle da violência ideológica. Mas só isso não basta. É preciso contar também com o apoio de uma teoria ética da igualdade de direitos, que vá além das diferenças concretas individuais e grupais: de sexo, de raça, de condições socioeconômicas ou ainda, de concepção de mundo. Amelia Valcárcel

Roberto Romano - Filósofo e Doutor pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris) e Livre-Docente pela Universidade Estadual de Campinas. Professor de Filosofia e Ética na UNICAMP e assessor da Fapesp (Fundação de Amparo a Pesquisa-São Paulo). Autor do livro Caldeirão de Medéia ,(Ed. Perspectiva, SP 2000) entre outros.

"O grande problema ético de nosso tempo reside no trato com a diferença. As teses democráticas que exigem igualdade na vida civil e política, raramente conduzem os indivíduos, grupos, instituições da imprensa e da universidade a refletir com rigor sobre o próprio significado dos conceitos que definem as doutrinas sobre a isonomia e a diferença. A exposição indicará este problema através de uma análise do papel das chamadas minorias, mas ampliará o debate rumo ao plano da experimentação em seres humanos e sobre a consideração da "monstruosidade", uma forma terrível de se definir o outro, o diferente, como "inferior". Alguns traços da gênese moderna desta atitude, no campo filosófico, serão evocados na palestra, a partir do século 18 e das propostas de Denis Diderot". Roberto Romano

14h às 16h30
Ética e Ação Política
Termos díspares ou inseparáveis? o dever do bem público, isto é, a virtude da moral é incompatível com a eficácia do poder ?; os fins coletivos, os meios e os interesses particulares no âmbito do poder. A necessidade de um "choque moral" nas instituições da república, a fim de que o interesse público prevaleça e seja preservado, evitando-se o descrédito do regime democrático-representativo.

Matthias Lutz-Bachmann - Pós-Doutor em Filosofia, professor titular na Universidade Johann Wolfgang Goethe, Frankfurt. Diretor do programa de pesquisa sobre cultura e transformação social, patrocinado pela Associação Alemã de Pesquisa (DFG). Autor do livro Recht auf Menschenrechte / 1999, entre outros.

Confrontada com uma nova situação na política internacional após os eventos de 11 de setembro de 2001, a filosofia política deve rever suas antigas respostas à questão da relação entre ética (ou a questão sobre a boa vida) e política (ou a questão sobre o justo). Enquanto a antiga discussão se apresenta por respostas neo-liberais e comunitaristas, minha palestra tenta ir além dessa alternativa. No centro dessa tese encontramos o argumento de que uma teoria político normativa deve ser enraizada em um primeiro princípio ético que reflita a experiência moral básica da igualdade dos seres humanos como pessoas que agem livremente. Disso decorrem três princípios ético-políticos: primeiro, o princípio dos direitos iguais dos indivíduo; segundo, o princípio da participação democrática dos cidadãos, como um imperativo da justiça política e, terceiro, o princípio do bem estar do seres humanos como um postulado de justiça social dentro e além dos limites do Estado. A palestra apresenta algumas conclusões atuais para a política européia contemporânea e a favor de uma ordem internacional futura de direito global, ambas baseadas nos princípios ético-políticos aqui apresentados. Matthias Lutz-Bachmann

Renato Janine Ribeiro - Professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo. Vencedor do Prêmio Jabuti 2001 na categoria ensaio e biografia, com o livro A Sociedade contra o Social (Cia. Das Letras) . Livre docente em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

Ao longo do século XX foram-se definindo duas éticas. Uma delas, mais próxima da tradição, preserva os valores cristãos, mesmo que laicizados, e é reivindicada pelo indivíduo privado. A outra, que nos vem de Maquiavel, foi inicialmente a ética do homem público, do político, do estadista – mas em nosso tempo se converteu na ética possível para todos nós. À medida que desapareciam os papéis convencionais que o indivíduo devia assumir, cada um de nós se converteu numa espécie de estadista de si próprio, de explorador e revolucionário de seu destino, de governante do seu futuro. Não é mais possível pensar uma ética sem uma teoria política. E isso exige repensar o preconceito que a maior parte de nós tem contra essa ética maquiaveliana – e que no Brasil se expressa numa aversão enorme ao político e à política. Renato Janine Ribeiro

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17 de outubro


10h às 12h30
Ética, Saúde e Biotecnologias

Os oligopólios que dominam as novas tecnologias e seus reflexos sobre as políticas de saúde pública; exploração de patentes e os interesses sociais de países subdesenvolvidos e de comunidades carentes; o uso privado de genomas humanos, animais e vegetais; os perigos que envolvem as inclusões e as transformações genéticas de alimentos (os transgênicos); as novas formas de fecundação e de eugenia.

William Saad Hossne - Presidente da Sociedade Brasileira de Bioética e Coordenador da Comissão Nacional de Ética na Pesquisa. Professor titular de Medicina da Universidade Estadual Paulista, é autor do livro Pesquisa Médica: A ética e a metodologia, (Editora Pioneira/SP) entre outros.

É traço característico do ser humano buscar, constantemente novos conhecimentos. O crescimento exponencial do número de pesquisadores aliado ao ritmo vertiginoso dos avanços científicos e tecnológicos faz a sociedade se defrontar, a cada dia, com extensa gama de problemas de natureza ética. Exige-se que o conhecimento seja obtido de modo adequadamente ético e que sua aplicação também seja eticamente adequada. O autor tece comentários sobre moral, ética e bioética, ressaltando o aspecto ativo de reflexão e ou juízo crítico sobre valores humanos, fundamento da ética. No que se refere as pesquisas envolvendo seres humanos, chama a atenção para os documentos de nível internacional e, sobretudo para a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, uma das poucas diretrizes de essência bioética, quer na sua gênese, conteúdo e operacionalização. O Brasil dispõe hoje de um sistema de avaliação ética dos projetos de pesquisa envolvendo seres humanos, o qual busca primordialmente proteger a dignidade do sujeito da pesquisa. O sistema compreende a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa e cerca de 400 Comitês de nível institucional. William Saad Hossne

Mayana Zatz - Professora titular de Genética do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano/USP. Membro do Projeto Genoma Humano (HUGO - Human Genome Project /1994).

Durante a palestra serão abordados aspectos biológicos e éticos relacionados a: a) clonagem reprodutiva e clonagem terapêutica (riscos biológicos, o que não sabemos, qual é a diferença entre clonagem reprodutiva e terapêutica, perspectivas de tratamento); b) fertilização "in vitro" e diagnóstico pré-implantação; c) testes genéticos (quando fazê-los, como lidar com resultados inesperados, dilemas no Aconselhamento Genético); d) diagnóstico-prénatal e a legislação a respeito da interrupção de gestação no caso de fetos malformados; e) testes preditivos para doenças de inicio tardio: quando fazê-los, qual é a vantagem em ser testado, quem tem direito a informação? Mayana Zatz

14h às 16h30
Ética, Produção Industrial e Ambiente

As evidências cada vez mais claras de que a produção industrial está influindo decisivamente nas modificações climáticas - efeito estufa, redução da camada de ozônio -, na poluição das águas (fontes, mananciais, rios e mares), assim como sobre a fauna e a flora de vastas regiões, pondo em risco a vida no planeta.

Hugh Lacey - Pós-Doutor em Filosofia e epistemólogo australiano, professor de Ciências Humanas e Filosofia na Universidade de Swarthmore, Pensilvânia/EUA. Pesquisa, com o apoio da Fundação Nacional de Ciência dos EUA, o desenvolvimento biotecnológico aplicado à agricultura. Autor do livro Valores e Atividade Científica, (Discurso Editorial/SP) entre outros.

Minha palestra terá como foco principal os recentes desenvolvimentos da produção agro-industrial, baseados na introdução de sementes transgênicas. Farei um esboço dos valores éticos que reconhecem a existência de visões morais divergentes – visões que pressupõe pontos de vista conflitantes entre natureza humana e possibilidades. Após indicar alguns dos componentes centrais da visão moral que informa o desenvolvimento de transgênicos, apresentarei um argumento comum pelo qual os transgênicos devem ser considerados, hoje, como tendo valores (morais) universais. A premissa chave neste argumento é que não existem formas alternativas de agricultura disponíveis nos dias de hoje que possibilitem a produção de alimento suficiente para abastecer o mundo. Esta premissa é desafiada, por exemplo, pelos proponentes da agroecologia. Eu mantenho a posição que a investigação empírica dessa premissa – sobre as possibilidades de formas alternativas de agricultura – é crucial para a avaliação ética dos assuntos que envolvem os transgênicos. Se isto não é apoiado pelas evidencias disponíveis, devemos então questionar: sob que valor moral – associado com os desenvolvimentos de transgênicos ou associados à agroecologia – a produção agrícola deve ser encorajada? Hugh Lacey

Aziz Ab' Saber - Livre docente em Geografia, professor honorário do Instituto de Estudos Avançados/USP, presidente de honra da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), pesquisador das áreas de geografia regional, geografia e ecologia urbana, biodiversidade e impactos ambientais.

Na conferência serão abordadas as sérias questões relacionadas com o industrialismo e o ambiente urbano metropolitano. Será dedicada especial atenção à ordem de complexidade do metabolismo urbano no Planalto Paulista, Baixada Santista, Médio Vale do Paraíba e Votorantim/Paulínea. A exemplificação de casos históricos concretos servirá de base para as exigências da Ética em relação à preservação da sanidade do ar, das águas, da vegetação e dos espaços residenciais da área metropolitana de São Paulo. A partir disso será enfatizado o papel do Estado no gerenciamento ético do meio ambiente no espaço total das regiões metropolitanas. Aziz Ab' Saber

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18 de outubro


10h às 12h30

Ética Privada e de Grupos

As contradições entre as tendências particulares ou os interesses múltiplos do sujeito, ou seja, os conflitos da "tirania da subjetividade" e os valores coletivos, suas instâncias socio-econômicas e de comunicação; ética do prazer e ética da responsabilidade; a fragmentação dos princípios e dos comportamentos morais, ou seja, a relativização da idéia de bem; o "engajamento existencial" contraposto à evasão ou à submissão.

Contardo Calligaris - Psicanalista e ensaísta ítalo-norte-americano. Doutor em Psicopatologia Clínica pela Universidade de Aix-Marseille I, França. Membro do Conselho da Boston Graduate School of Psychoanalysis, Boston, MA.. Autor do livro Hello Brasil! Notas de um psicanalista europeu viajando ao Brasil ,(Ed. Escuta, São Paulo) entre outros.

"A ética, para nós modernos, é, antes de mais nada, uma preocupação subjetiva. A qualidade moral de nossos atos não depende de sua conformidade com tal ou tal outra prescrição. Ela depende de nossa capacidade de perguntar: Será que agi certo? Quem se questiona, quem é atribulado por dúvidas e remorsos é, para nós, a figura exemplar. O tormento íntimo é moralmente mais relevante do que qualquer código de conduta. Mesmo que esse seja compartilhado por muitos ou por todos. Como é possível então, na modernidade, inventar ou conceber éticas coletivas?" Contardo Calligaris

Francisco Ortega - Filósofo hispano-brasileiro. Doutor em Filosofia pela Universidade de Bielefeld, Alemanha; professor de Filosofia no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ. Autor do livro Genealogias da Amizade, (Iluminuras 2001) entre outros.

O objetivo desta conferência é refletir sobre uma ética e uma política da amizade. Autores como Hannah Arendt e Derrida contrapõem a amizade à fraternidade, pois a amizade exprime mais a humanidade do que a fraternidade, precisamente por estar voltada para o público. Ela é um fenômeno político, enquanto que a fraternidade suprime a distância dos homens, transformando a diversidade em singularidade e anulando a pluralidade. Não se trata de negar a família como instituição, mas de combater o monopólio que exerce sobre nosso imaginário emocional; ou seja, deixar de pensar as relações de amizade em imagens fraternais e familiares, para poder reinventar a amizade. Somente desse modo pode-se criar uma relação sem intimidade, nem interioridade ou apropriação narcisista do outro: a amizade como uma forma de amor pelo mundo. Francisco Ortega

14h às 16h30
Ética e Estética

A gratuidade da arte, a "arte pela arte" e o abandono dos compromissos artísticos modernistas ou pós-modernistas com a moralidade, com a ação política e mesmo com a representação da figura humana; o formalismo estrito, isto é, os jogos descompromissados de formas e de imagens banalizadas, os abusos das atitudes paródicas; marketing, publicidade e leis de incentivo.

Catherine David - Curadora dos Museus Nacionais da França, diretora artística da Documenta X de Kassel (1997), curadora do Museu Nacional de Arte Moderna do Centro Georges Pompidou (1981-90)

É sem dúvida um paradoxo, mas a mundialização acelera e intensifica os intercâmbios e as fricções de todas as naturezas - econômicas e culturais -, ao mesmo tempo em que exarcerba algumas resistências e crispações de identidades. No entanto, mesmo que algumas pessoas ainda ignorem ou finjam esquecer, as culturas do mundo vivem e se transformam incessantemente, e a modernidade está em todo lugar, ainda que suas manifestações formais e suas temporalidades, ou seqüências, difiram sensivelmente de um contexto para outro. Catherine David

Bento Prado Jr - Livre docente em Filosofia pela USP, pesquisador pelo Centre National de La Recherche Scientifique, CNRS (França) e ensaísta de cultura brasileira. Coordenador do Programa de Pós-Graduação e professor titular em Filosofia e Metodologia das Ciências da Fundação Universidade Federal de São Carlos. Autor do livro Alguns ensaios: filosofia, literatura e psicanálise, (Paz eTerra/2001) entre outros.

Na curva desenhada pelo pensamento ocidental do século XVIII até os dias de hoje, a Estética conheceu diferentes formas de articulação com a Ética e com a Política. Para nos perguntar, hoje, sobre as relações entre Ética e Estética, talvez seja útil um pequeno exercício de memória: marcaremos três nomes próprios, cada um deles de um dos três séculos que fazem a história da Estética como disciplina filosófica independente: Schiller, Kierkegaard e Wittgenstein. São três formas diferentes de articular Ética e Estética: 1) como continuidade harmoniosa entre dois pólos, 2) como ruptura entre duas etapas e 3) como superposição de duas esferas numa única experiência inefável. Percorrendo essa curva, acompanharemos, no nível abstrato da filosofia, o processo histórico-cultural concreto que culmina em nossa incapacidade atual de religar, de maneira contínua, Ética, Estética e Política. Bento Prado Jr

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19 de outubro

10h às 12h30

Ética e Comunicação de Massa

A conduta homogênea e o desaparecimento do indivíduo autônomo perante a sociedade unidimensional da cultura de massa; a redução de perspectivas educativas, a exploração de situações de miséria e de ignorância, a espetacularização da violência e do erotismo, o estímulo ao narcisismo e à ética permissiva do prazer, a busca de efeitos informativos predominantemente mercantis e a deformação da língua que têm acompanhado os meios de comunicação de massa.

Olgária Matos - Chefe e professora titular do Departamento de Filosofia da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP. Doutora pela Universidade de São Paulo e pela École Pratique des Hauts Études en Sciences Sociales/Paris. Autora do livro O iluminismo visionário : Walter Benjamin leitor de Descartes e Kant, (Ed. Brasiliense, 2ª ed./2000) entre outros.

O objetivo deste trabalho é o de refletir acerca do desencantamento da cultura pela indústria cultural e o significado do advento das midias desinibidoras na contemporaneidade. Trata-se de considerar a sociedade pós-humanista, com sua "moral" indolor, aquela que se manifesta no "crepúsculo do dever". Para isso, será necessário qualificar a cultura humanista, centrada na leitura atenta, paciente e concentrada das grandes obras de pensamento bem como seu eclipse, o que resulta em tendências desagregadoras do tecido social. Com o encolhimento do espaço público convertido em "imagem pública", com a conseqüente politização da imagem e despolitização do voto nas democracias modernas, revisitar os valores herdados da Grécia, de Roma e de Jerusalém – a phylia, o direito romano e o amor ao próximo – terá o sentido de pensar os laços da sociabilidade na forma da amizade e da hospitalidade. Olgária Matos

Eugênio Bucci - Jornalista e crítico de televisão. É autor de Brasil em Tempo de TV e Sobre Ética e Imprensa, entre outros livros. Colunista do Jornal do Brasil, é professor de Ética Jornalística da Fundação Casper Líbero.

A ética na comunicação de massa não pode ser pensada a partir das mesmas balizas que nos guiam para discutir a ética na imprensa. O termo imprensa designa a instituição constituída pelos veículos jornalísticos, seus profissionais e seus laços com o público. Refere-se, portanto, ao relato das notícias e ao debate das idéias em jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, além de sites da internet. Sua ética deve primar pela busca da verdade factual, da objetividade, da transparência, da independência editorial e do equilíbrio. Já o conceito de meios de comunicação de massa traz em si, desde a origem, o embaralhamento sistêmico entre fato e ficção, entre jornalismo e entretenimento, entre interesse público, interesses privados e predileções da esfera íntima. A assim chamada comunicação de massa, além de modificar para sempre a própria natureza da imprensa, tende a misturar os domínios da arte e do jornalismo num mesmo balaio de imposturas éticas, prontas para o consumo mas inimigas da virtude tanto artística (criar em conformidade com a imaginação) quanto jornalística (falar em conformidade com a verdade factual). Minha contribuição ao seminário vai debater alguns aspectos dessa desordem de coisas e vai tentar pensar possíveis rotas de superação. Eugênio Bucci

14h às 16h30
Ética e Cultura Corporal

Pensar o corpo contemporâneo é pensar o culto ao corpo, as influências sociais e culturais que levam à maior sedução física, ao prazer, à performance e à saúde. Na busca por um corpo ideal, observamos o confronto entre interior e exterior, essência e aparência, prazer e dor. Esses confrontos revelam a existência de diferentes olhares sobre o corpo: o corpo do cidadão comum, o corpo do atleta, o corpo programado, o corpo estereotipado, onde se destacam aspectos da relação do indivíduo com o próprio corpo, da superação dos limites e da hipervalorização das imagens.

Jean-Jacques Courtine - Doutor em Lingüistica pela Universidade Paris X - Nanterre, professor de Lingüistica, Cultura e História das Mentalidades, na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, EUA. Vencedor do prêmio Psyche, na categoria História da Medicina e Psiquiatria - Paris, 1988. Co-autor da obra Histoire du Corps XVI - XXe, (Seuil,Paris) entre outras.

O Desaparecimento dos Monstros* - Parece certo que nossa época é a do corpo. A forma, a saúde, a beleza tornaram-se, através dos séculos, uma obsessão generalizada, uma indústria florescente e um espetáculo permanente no Ocidente. Mais que sua representação onipresente, me pareceu mais justo, num encontro consagrado à relação ética do corpo, perguntar pelas suas figuras invertidas, por aquele duplo grotesco, pela sombra que dele se carrega: no que se transformaram os monstros humanos? Ainda há pouco tempo, de fato, a curiosidade pelos corpos monstruosos tinha caminho livre no espaço cultural do Ocidente: em Paris, Londres, Nova Iorque, na segunda metade do século XIX, o espetáculo e o comércio dos monstros eram objeto de uma enorme e generalizada atração, a ponto de tornar-se, particularmente na América, um campo de experimentação da indústria do entretenimento de massa. Como compreender as causas e as condições deste crepúsculo dos monstros, do seu desaparecimento do olhar público, e desta mutação do olhar que fez deles uma ficção, objetos de uma compaixão ambígua? * O autor refere-se a pessoas e animais fisicamente deformados, correntemente mostrados em feiras, circos e espetáculos de rua. Jean-Jacques Courtine

Denise Bernuzzi de Sant'Anna - Professora do Depto. De Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Doutora pela Universidade de Paris VII. Autora do livro Corpos de passagem (Estação Liberdade, 2001), entre outros.

Desde meados do século XX, a preocupação em cuidar da saúde e da beleza se transformou numa fórmula de sucesso para uma diversificada indústria voltada aos "cultos do corpo". Estes cultos resultam de um paradoxo construído historicamente nos quais o corpo é amplamente explorado, comercializado, descartado, mas, ao mesmo tempo, cultuado, valorizado e liberado, adquirindo a mesma importância outrora atribuída à alma. Por conseguinte, a vigilância de cada um sobre a própria saúde não cessa de ser fortalecida e novas asceses em favor da beleza são diariamente inventadas. Tendências que tornam urgente a adoção de condutas éticas capazes de evitar a transformação do corpo individual no único universo possível, desconectado do coletivo. Denise Bernuzzi de Sant'Anna

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