Talvez
hoje a Missão de Pesquisas Folclóricas não seja apenas
a arqueologia musical dos recônditos do Norte e Nordeste da década
de 30, mas, antes, de uma São Paulo que, nitidamente, sentia falta de
algo perdido. Sim, talvez a Missão seja o sintoma de uma falta. Naqueles
anos, a cidade chegara ao seu primeiro milhão de habitantes, havia se
assustado com a recessão entre 30 e 32 vinda da Crise do Café e
se tumultuava com a nomeação dos 11 prefeitos que a governaram
entre 1930 e 1934, fruto das relações instáveis com os
interventores estaduais, decorrentes da Revolução de 32. Os pedestres
que, no começo da década, conviviam com algumas centenas de carros
nas ruas, disputariam espaço nas saturadas ruelas paulistanas com 25
mil veículos, entre bondes, ônibus, automóveis e caminhões,
após apenas sete anos. Do meio da década em diante, como muitos
diziam, São Paulo era a cidade que mais crescia no mundo: o número
de construções praticamente dobrou em três anos. Ali, bem
na fronteira com o Estado Novo, no meio desta convulsão paulistana,
tinha origem a Missão de Pesquisas Folclóricas, respirando as
verves humanistas de Fábio Prado. Fábio Prado, prefeito que
reconhecia o importante papel da cultura na instância municipal, destinando
recursos orçamentários inéditos para este setor; governante
que ouviu diversos apelos dos modernistas, e sancionou a Missão, principal
projeto de Mário de Andrade, seu Diretor de Cultura, que insistia: “Faz-se
necessário e cada vez mais que conheçamos o Brasil. Que sobretudo
conheçamos a gente do Brasil... Nós precisamos de moços
pesquisadores, que vão à casa do povo recolher com seriedade
e de maneira completa o que esse povo guarda e rapidamente esquece, desnorteado
pelo progresso invasor”1.
Mário
já suspeitava que o progresso não tinha memória. Ou melhor,
que a memória deixada por ele não era escrita no plural. A memória
no singular era aquela do concreto do viaduto, e não as memórias
das brincadeiras nos parques, das cantorias dos terreiros, dos desenhos das
crianças, dos sons caboclos. Pois é esta memória do íntimo
que o interessava, memória das pequenas coisas não utilitárias,
não civilizadas – todas elas resíduos orais da cultura,
tão breves quanto a existência. Mário de Andrade acreditava
que o verdadeiro patrimônio de um povo não estava materializado
naquelas coisas que podem receber as eternas placas patrimoniais de cobre,
mas nestas menos nobres que se esvaem como a voz: coisas perecíveis,
relacionais, efêmeras e, por isso mesmo, vivas. Não só os
materiais, mas as técnicas corporais 2, feitas em artesanatos, danças,
músicas. Aberta a captar um mundo díspar, a Missão parece
ter sido um grande silêncio contemplativo, daqueles que a ciência
instrumental de hoje esqueceu. Numa alegoria: ela foi um ouvido generoso, mais
do que um olho incisivo.
Hoje,
toda a colheita sonora de Mário e sua Missão sai dos armazéns
e se disponibiliza ao público, nesta coleção de CDs. Após
a captação realizada pela Missão há mais de 60
anos, selamos aqui o compromisso de uma nova fase, a distribuição
destes saberes. É o que o SESC tem feito há décadas, em
projetos como “Coração dos Outros – Saravá,
Mário De Andrade” (1999), um evento multimídia que circulou
por 69 cidades do Estado difundindo a poética do escritor pelas linguagens
da dança, da música e do cinema; ou ainda no recente “Desenhos
de Outrora, Desenhos de Agora” (2005), exposição que recuperou
dezenas de desenhos infantis compilados por Mário, reunindo-os com outros
de sua própria autoria. Esta tem sido a permanente missão do
SESC – complementar à Missão de Mário –: difundir
a cultura, rumo à democratização cultural, em seu amplo
sentido. Pois só o acesso a todos constrói as bases para uma
sociedade verdadeiramente democrática: e será mais humana quanto
mais percebermos que não temos apenas direitos utilitários, funcionais,
ligados ao mundo do concreto e do asfalto, mas que igualmente temos direitos
ao despretensioso mundo da imaginação. Lembremos, pois, que o
nosso Mário foi um homem construtor de pontes, politizando a poética
e poetizando a política, lutando contra a estagnação das
coisas pelo deslocamento entre mundos:
Vamu
dançá minha gente
Com toda satisfação
Pra mandá nossa
cantiga
Lá pra civilização.
O
São Paulo vae uvi
Cosa qui nunca uviu
O côco da nossa terra
Qui daqui nunca saiu.
Seus
dotô, home do Sul
Nosso adeus vamu lhe dá
E leve nossa
cantiga
Lá pro vosso lugá 3
Aqui, ouvindo os CDs, as memórias do que já existiu politizam nossa imaginação, que percebe a surdez do progresso, sente um quê de falta e nos convoca para um compromisso não só com a Cultura dos Homens, mas com aquelas “baixas” culturas daqueles “menos” homens que não tiveram direito à Humanidade, mas cantaram em suas mudas entrelinhas.
1
CARLINI, Álvaro. Cachimbo e maracá: o catimbó da Missão
(1938). São Paulo: CCSP, 1993. p. 20.
2
Em referência ao conceito do antropólogo Marcel Mauss.
3
Letra de um coco coletado em Tacaratu, Pernambuco, em 10 de março de
1938, não gravado. Idem, p. 25.
Danilo Santos de Miranda
Diretor Regional do SESC São Paulo