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A dupla formada pelos irmãos José Ramiro Sobrinho (Pena Branca), nascido em Uberlândia (MG), em 1939, e Ranulfo Ramiro da Silva (Xavantinho, Uberlândia, 1942-1999) é um raro caso de fidelidade às raizes caipiras no universo sertanejo atual. Criado na roça com cinco irmãos, José Ramiro aprendeu "de orelha" no cavaquinho do pai antes de passar para a viola. A dupla com o irmão começou em mutirões, feiras, folias de reis e teve outros nomes como José e Ranulfo, Peroba e Jatobá, Zé Mirante e Miramar e até Xavante e Xavantinho. Num festival organizado pelo sertanejo Zé Bétio, eles conquistaram o primeiro lugar e o direito de gravar uma música, Saudade, de Xavantinho, num compacto duplo em 1971. Em 1980, outra música de Xavantinho, Que Terreiro é Esse?, foi classificada para a final do festival MPB-Shell da TV Globo e a dupla finalmente estreou em LP, Velha Morada - Rodeio, já se distinguindo pela escolha do repertório: incluía entre as faixas a dissonante Cio da Terra de Chico Buarque e Milton Nascimento. A audácia de afrontar o comercialismo do mercado gravando material selecionado, das folclóricas Cuitelinho (recolhida por Paulo Vanzolini) e Cálix Bento (recolhida e adaptada por Tavinho Moura) a Vaca Estrela e Boi Fubá (do cearense Patativa do Assaré), deu certo. Logo a dupla seria um dos esteios do programa de TV Som Brasil, apresentado pelo ator e intérprete Rolando Boldrin, que a incluiria em seus shows Brasil adentro. Boldrin produziu o segundo disco dos dois, Uma Dupla Brasileira. Milton Nascimento cantou (e gravou) com eles o Cio da Terra, além de levá-los ao Teatro Municipal para o espetáculo em que recebia o Prêmio Shell, de 1986. Além de Tavinho Moura, com quem Xavantinho faria Encontro de Bandeiras, a dupla foi ampliando sua participação na MPB em encontros (e gravações) com Fagner, Almir Sater, Tião Carreiro, Marcus Viana, entre outros. Em 1990, eles ganharam o Prêmio Sharp de melhor música com Casa de Barro, de Xavantinho e Moniz, e de melhor disco, Cantadô do Mundo Afora. Dois anos depois, ao vivo em Tatuí levaram outro Sharp de melhor disco e também foram escolhidos pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Sempre mesclando repertório matuto, clássicos da MPB e obras de lavra própria, PB & X gravaram de Mário de Andrade, Viola Quebrada, a Ivan Lins e Vitor Martins, Ituverava, Caetano Veloso, O Ciúme, e o Uirapuru (Murilo Latini/Jacobina), sucesso do grupo Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano em Violas e Canções, de 1993, ano em que os dois excursionaram também aos EUA. Em Pingo d'Água (1996), o rei do baião Luiz Gonzaga, A Vida do Viajante, convive com os caipiras históricos João Pacífico e Raul Torres da faixa título. E no Coração Matuto (1998), entram Djavan, Lambada de Serpente, Milton Nascimento, Morro Velho, com participação do próprio, e até Guilherme Arantes, Planeta Água. Já sem o irmão, falecido no ano anterior, Pena Branca prosseguiria solo em Semente Caipira (2000). Congregando de Tom Jobim e Luís Bonfá, Correnteza, a Renato Teixeira, Quando o Amor Se Vai, Joubert de Carvalho, Maringá, e composições próprias, Casa Amarela, Rio Abaixo Vou Viver, o disco de Pena Branca mantém acesa a chama de integridade que marcou a trajetória da dupla e continua lhe servindo de farol. Concederam esta entrevista ao programa Ensaio, da TV Cultura de São Paulo em 1991, Pena Branca com 52 anos e Xavantinho com 49 anos. Tárik
de Souza Debulhar
o trigo *** PENA BRANCA
- Eu nasci em Igarapava, Estado de São Paulo, uma cidade perto
da divisa de Minas. Então sou meio a meio, meio mineiro e meio
paulista. A cidade, ela era pequena na época em que eu nasci, agora
está grande, está quase do tamanho dos States. *** XAVANTINHO - Quando criança, quando criança..., a gente fazia tantas coisas, estilingue no pescoço, calça curta, suspensório. Era aquela coisa, a vida do interior sempre foi boa, ensinou a gente muitas coisas, ensinou a gostar da música, dos mutirões, as festas de fazenda, bailes de barraca. Então, sei lá! Ali a gente começou a vida. *** PENA BRANCA
- Interessante, você lembra da época quando a gente era pequeno,
as festas que a gente ia? Lá em Minas é o seguinte: pra
nós lá, o baile de torda. Torda é o seguinte: o pano
de bater arroz, então eles emprestava pra gente e a gente fazia
aquela coisa toda pra poder dançar. E tinha aquele negócio:
a dama que enjeitasse o camarada, o baile estava acabado. Ali é
o seguinte: o camarada naquela época era muito reservado, muito
sentido, era um respeito. A pessoa chegava armado nos bailes, aquelas
coisas toda, mas de repente, quando ele chegava, já tirava o revólver
e deixava o dono da casa guardar lá no quarto. Chegava, dançava
e, quando ele ia embora, ele pegava a arma. Mas era tudo aquelas mil maravilhas.
Muito bom, né? *** XAVANTINHO
- Cantar, a gente vivia entre papai e mamãe, quem não cantava
lá dançava. A nossa opção: vamos cantar também.
Mas foi a mamãe e o papai. A dona Dolores ainda está aí
viva junto com a gente, papai se foi faz tempo. Aí o tio Chico
tocava violão, papai, cavaquinho, e o tio Zé Ramiro tocava
pé-de-bode, aquela sanfoninha oito baixos. E nós ficava
na reta-guarda. O boiadeiro
do norte PENA BRANCA - Era uma coisa que a gente cantava. Você vê, cantar toada igual essa aqui, o povo dançava. Hoje é o seguinte, tem que ser na lambada. Se não for na lambada, não vale, tem que ser na lambada quente e aquela coisa toda. Então muitas das vezes esse povo fazia aquelas festas como Festa de Reis, então tocava e fazia um baile só através de um violão e um pandeiro. Coisa incrível, né? E rolava direitinho. Aí um dia apareceu um senhor lá falando pro meu pai: "Os menino do senhor canta. O senhor precisava ensinar eles a tocar viola". |