Formado pelo paulista de Bauru, Amílton Godoi (nascido em 1941), ao piano, o paraense de Belém, Luís Chaves (1931), no contrabaixo, e o paulistano Rubinho, Rubens Barsotti (1932), o Zimbo Trio surgiu em São Paulo em plena efervescência da bossa nova, em 1964. Na epidemia de trios instrumentais do período, ele logo se destacou numa ninhada de cobras que trazia entre muitos os depurados Tamba Trio (Luís Eça, Bebeto, Hélcio Milito), Bossa 3 (Luís Carlos Vinhas, Tião Netto, Edison Machado) e Sambalanço Trio (César Camargo Mariano, Humberto Cleiber e Airto Moreira). Lançado num show na boate Oásis, em São Paulo, ao lado da cantora e atriz Norma Benguel, o Zimbo alcançaria sucesso nos grandes shows de origem universitária que tomavam a cidade, incluindo o clássico O Fino da Bossa, do qual sairia o programa homônimo da TV Record comandado por Elis Regina.

A pegada vigorosa de arquitetura clássica do piano de Amílton (de formação erudita, estudou na escola de Magda Tagliaferro), o baixo conciso de Luís Chaves e a bateria sutil de Rubinho (que também solava sem as baquetas, utilizando as caixas como tumbadoras) transformaram-se em uma grife de qualidade instrumental capaz de erguer uma ponte entre as dissensões da MPB na época. O arranjo do ZT para Garota de Ipanema (que eles foram um dos primeiros a gravar) era número imprescindível em suas apresentações. Por isso, eles tanto eram convocados ao programa O Fino, de Elis (com quem gravariam o memorável disco O Fino do Fino, de 1965) quanto ao tradicionalista Bossaudade, de Elizeth Cardoso, com quem excursionariam pelo Japão, além de gravar dois discos ao vivo na boate carioca Sucata, em 1969 e 1970.

Ao lado de Elizeth e seu descobridor, Jacob do Bandolim, o Zimbo ainda participaria de um dos shows mais importantes já realizados no país, no teatro João Caetano no Rio, em fevereiro de 1968, sob a direção de Hermínio Bello de Carvalho. O encontro da bossa modernizadora do trio com o choro nada conservador do exímio Jacob, unidos pela eternidade vocal de Elizeth, virou marco histórico, editado em nada menos de três LPs. Ao longo de uma carreira de inúmeras excursões ao exterior, o grupo ainda difundiu seu saber fundando em 1973 o CLAM (Centro Livre de Aprendizado Musical), por onde passaram feras como a pianista paulista Eliane Elias, hoje uma renomada jazzista nos EUA, onde está radicada desde os 80. Em 1974, ao lado da Orquestra Sinfônica de Buenos Aires eles provaram sua ressonância erudita atuando no Pequeno Concerto para o Zimbo Trio, escrito especialmente para eles pelo maestro Ciro Pereira. Com vários discos gravados ao lado de solistas instrumentais (Canhoto da Paraíba, Hector Costita, Heraldo do Monte e até o saxofonista de jazz americano Sonny Stitt) e centrados em repertórios de grandes autores (Milton Nascimento, Tom Jobim) à alta qualidade o Zimbo Trio aliou a façanha de ter resistido a todas os movimentos em um trajeto de longevidade à prova de modismos. Concederam esta entrevista ao programa Ensaio, da TV Cultura, em 1994, Amílton com 53 anos, Luís Chaves, com 63 e Rubinho com 62.

Tárik de Souza
ENSAIO
28/4/1994

AMÍLTON GODOI - O nome Zimbo foi escolhido depois que já estávamos firmes nessa proposta, porque nós procuramos um nome impessoal, que não fosse fulano e seu conjunto, e fomos no dicionário afro-brasileiro, fizemos uma lista de nomes e ficamos escolhendo entre aqueles nomes. Aí uma entidade espiritual nos ajudou a escolher o nome Zimbo. Aí nasceu o nome Zimbo.

(Música)

RUBENS ALBERTO BARSOTTI (RUBINHO) - Nasci em São Paulo no dia 3 de outubro de 1932, na cidade de São Paulo, na Aclimação limite com Cambuci.

***

A casa em que eu nasci na época era comum ter esse tipo de construção, era uma casa de três andares e no nível da calçada era um porão enorme, onde a gente brincava e fazia os presépios na época de Natal. Tinha uma escada que chegava no alpendre e daí tinha sala de visita, sala de jantar, copa, cozinha, um lavabo e depois outra escada que ia pros dormitórios.

***

Olha, eu sou caçula de uma família de sete filhos. Quando nasci, meu pai tinha 57 anos e eu tinha um irmão com idade pra ser meu pai, 26 anos mais velho do que eu. Mas era uma família muito feliz, meu pai era um homem festeiro, gostava de festa, minha mãe também. Quando minhas irmãs casaram, tivemos festa. Principalmente a irmã mais velha, demos uma festa já com orquestra, se não me engano foi a orquestra do Otto Way. Eu tinha um ano de idade e o baterista deixou a bateria no porão da minha casa, foi a primeira vez que eu mexi num tambor, com um ano de idade, no dia posterior ao casamento da minha irmã.

***

[Toca a bateria] Era o que eu fazia, ia lá e mexia. Com um ano não podia fazer mais que isso.

***

Minha casa tinha um piano, todo mundo ouvia música, meu pai gostava muito de música lírica e música clássica, minhas irmãs já gostavam de Orlando Silva, Francisco Alves, os cantores da época. As minhas irmãs mais velhas estudaram piano. Não era uma casa de músicos, mas era uma casa com muita música e as pessoas gostavam de música. Eu nasci nesse ambiente. Então, toda vez que minha irmã sentava pra tocar piano, principalmente a mais velha que ainda hoje é professora de piano, eu pegava umas latas lá e ficava acompanhando, isso criança também, com quatro, cinco anos de idade. Aí comecei a ganhar os primeiros tambores do meu pai. Eu me lembro que eles vinham pela Casa São Nicolau na praça do Patriarca, eram uns tambores alemães, importados, e aquela jogada de criança era aquele de desmontar, montar, desmontar pra ver como é que funcionava, como toda criança com essa possibilidade fez. Minha casa era uma casa muito feliz, com muita música.

***

A primeira forma de bateria, que é a que eu uso até hoje, tem o bumbo, tem este tom-tom, esta caixa e este tambor. Eu uso três pratos normalmente em cima e o pé esquerdo que chama-se high ret. Essa pra mim é a ideal. Já há muito tempo apareceu o segundo tambor, o segundo tom-tom aqui em cima, que eu também adoto. Pra mim é o suficiente. Os grandes músicos que eu vejo trabalham mais ou menos dessa forma. Eu... com a idade mais ou menos de seis, sete anos, eu me lembro de um disco 78 rotações, que tinha uma música de um lado e outra música do outro lado, foi a primeira vez que eu ouvi a orquestra do Tommy Dorsey, que tinha como baterista um homem chamado Buddy Rich. Num dos lados a música era Quiet Please e do outro era So What. Foi a primeira vez que eu ouvi uma bateria que me chamou a atenção e eu comecei a perseguir esse caminho.

***

O tema era Quiet Please e So What. Eu não sei cantar porque eram temas em cima de uma harmonia de blues.

[Música instrumental: So What]
So What, Miles Davis. Copyright by Sony Music.

Gente, houve um equívoco: o So What, que eu tinha falado que foi a primeira vez que eu ouvi o Buddy Rich tocando, era um número ligeiro e não era esse So What que o Amílton tocou. Esse é mais atual, é do Milles Davis. O anterior acho que o Amílton não tirou ainda.

***

A música não é bem de bateria, é uma música que tem também algum destaque de bateria, mas foi o primeiro arranjo do Zimbo Trio. Acho que foi uma proposta minha. Chama-se Garota de Ipanema.

[Música instrumental: Garota de Ipanema]
Garota de Ipanema, Vinícius de Moraes/Tom Jobim. Copyright by Tonga (BMG MUS. PUBL. BR. LTDA./Jobim Music.