É tão cristalino quanto sua maravilhosa voz lírica, já elogiada nos anos 30 por Vila-Lobos, o merecimento de Dona Ivone Lara de trazer definitivamente incorporada ao nome a distinção honorífica. Carioca nascida em 1921 (13 de abril), ela só se projetou como cantora e compositora profissional no início dos anos 70, cumprido já meio século de vida, uma experiência riquíssima que incluía as provações da orfandade na infância e a dedicação de enfermeira e assistente social formada e concursada, nessa condição auxiliar valiosa de Nise da Silveira, a médica pioneira na utilização da arte para o tratamento dos doentes mentais.

Dona Ivone também abriria caminhos: foi a primeira mulher a compor samba-enredo (seu currículo aqui é o de co-autora do clássico Cinco Bailes na História do Rio, constante de todas as listas de melhores da especialidade, e parceira de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola, dois dos criadores que poderiam reivindicar a paternidade do gênero). Compunha desde os 12 anos, quando ainda integrava corais infantis e escolares, alguns sob a direção de Lucila Vila-Lobos, a primeira mulher do gênio.

Também ainda menina começou a tocar cavaquinho, quando ganhou o instrumento de presente de um tio, Dionísio, chorão de
saraus freqüentados por nomes como Pixinguinha e Candinho do Trombone. O samba, em Dona Ivone, está nas veias e nas circunstâncias. Seu sogro, Alfredo Costa, foi presidente do Prazer da Serrinha, embrião do Império Serrano, e presidente também do próprio Império, escola da qual Dona Ivone é uma eloqüente representação (vê-la rainha do desfile principal, como em 1983, protagonizando a Mãe Baiana do enredo imperiano daquele ano, foi uma emoção inesquecível). Durante anos, a jovem e então inédita sambista morou em casa ao lado da sede do Prazer da Serrinha. Nos primeiros tempos da sede do Império, quando mulheres ainda não eram admitidas na ala de compositores, ela mandava seus sambas à quadra por intermédio dos primos parceiros, Hélio e Antônio, este o Mestre Fuleiro, lendário diretor de harmonia da escola.

Hoje o principal parceiro na harmonia elaboradíssima das composições é Délcio Carvalho, também imperiano. O palco da estrela – oitentona conservada na voz privilegiada, no dengue natural de rosa faceira do povo e na miraculosa destreza dos passos do miudinho – é que se ampliou para muito além da Serrinha e de Madureira: Dona Ivone Lara é diva de agenda internacional repleta.

Moacyr Andrade
ENSAIO
11/2/2002

E acreditar, eu não
Recomeçar, jamais
E a vida foi em frente
Você simplesmente não viu
O que ficou pra trás
Acreditar
Acreditar, eu não
Recomeçar, jamais
E a vida foi em frente
Você simplesmente não viu
O que ficou pra trás
Não sei se você me enganou
Pois quando você tropeçou
Não viu o filho que passou
Não viu que ele lhe carregava
Que à saudade lhe entregava
Com o aval da imensa dor
Eu agora moro nos braços da paz
Ignoro o passado que hoje você me traz
E eu agora moro nos braços da paz
Ignoro o passado que hoje você me traz
E acreditar
E acreditar, eu não
Recomeçar, jamais
E a vida foi em frente
Você simplesmente não viu
Que ficou pra trás
Acreditar, Yvonne Lara/Délcio Carvalho. Copyright by EDIÇÕES MUSICAIS TAPAJÓS LTDA. (EMI) | ADDAF. Todos os Direitos reservados.

Sonho meu
Sonho meu
Vá buscar quem mora longe
Sonho meu
Sonho meu
Sonho meu
Sonho meu
Sonho meu
Vá buscar quem mora longe
Sonho meu
Vá mostrar esta saudade
Sonho meu
Com a sua liberdade
Sonho meu
No meu céu a estrela guia se perdeu
E a madrugada fria só me traz melancolia
Sonho meu
Se o canto da noite
Na boca do vento
Fazer a dança das flores
No meu pensamento
Traz a pureza de um samba
Sentido, marcado de mágoas de amor
Um samba que mexe com o corpo da gente
E o vento vai embalando a flor
Sonho meu
Sonho meu
Sonho meu
Vá buscar quem mora longe
Sonho meu
Vá mostrar esta saudade
Sonho meu
Com a sua liberdade
Sonho meu
No meu céu a estrela guia se perdeu
E a madrugada fria só me traz melancolia
Sonho meu

Sonho Meu, Yvonne Lara/Délcio Carvalho. Copyright by WARNER CHAPPELL EDIÇÕES MUSICAIS LTDA (ADDAF). Todos os Direitos reservados.

E eu tenho a minha verdade
Fruto de tanta maldade que já conheci
Me deixa caminhar a minha vida
Livremente
O que desejo é pouco
Pois não duro eternamente
Nada poderá me afastar do que eu sou
Amor, é o meu ambiente
Nada poderá me afastar do que eu sou
Me deixa, por favor
Do bom samba sou escravo
Seu fascínio me apertou
Traçou-me este destino
E meu sonho menino se concretizou
Deixe-me agora sonhar
Seguir sem pensar numa desilusão
Que o amor simplesmente
Se faça presente no meu coração
Eu tenho
E eu tenho a minha verdade
Fruto de tanta maldade que já conheci
Me deixa caminhar a minha vida
Livremente
O que desejo é pouco
Pois não duro eternamente
E nada poderá me afastar do que eu sou
Amor é o meu ambiente
Nada poderá me afastar do que eu sou
Me deixa, por favor

Minha Verdade, Yvonne Lara/Délcio Carvalho. Copyright by EDIÇÕES MUSICAIS TAPAJÓS LTDA. (EMI)/ADDAF.


DONA IVONE LARA - Nasci em Botafogo, Rio de Janeiro, na rua Voluntários da Pátria, no ano de 1921.
***

Não, deixa estar, o que é que tem? Tá bom, vou dizer que tenho 30 e... Não, 17. Pronto.
***

Olha, na rua São Clemente, eu me lembro muito pouco, porque quando saí da rua São Clemente, ali da Voluntários da Pátria, ali do bairro Botafogo, eu tinha apenas quatro anos.
Já não me lembro de nada, nada, nada. Já era órfão de pai e minha mãe era muito mocinha ainda. Nós fomos morar no Largo da Segunda-feira, na Tijuca e lá na Tijuca eu tinha um primo por nome de Valentino; o Fuleiro1, já era rapazinho. Hélio, tio Hélio, é? Hélio era criança ainda, também juntamente comigo. Ah, tem muita coisa. Naquele tempo eu era bem criança. Cume é? Uma música que eu me lembro bastante, que o Francisco Alves cantava, Por que Sofres Tanto Assim Rapaz?
"Por que sofres tanto assim, rapaz? Chega, já é demais"
Tinha isso também. Tinha uma porção de músicas naquela época.
"Por que bebes tanto assim rapaz chega já e demais
Se é por causa de mulher é bom parar".
- Né?
- Tinha bastante músicas naquela época.
"Esta mulher há muito tempo me provoca
Mestre Fuleiro, da escola de Samba Império Serrano, primo de Dona Ivone.
Dá nela, dá nela".
Essa era música daquela época.
***

Olha, minha mãe cantava muito, minha mãe era uma soprano, uma voz muito bonita, modéstia à parte, e minha mãe era crooner do Ameno Resedá. Minha mãe saía num rancho e ela cantava uma música muito bonita. Você quer ouvir? Então vou cantar uma marchinha e vê se você não lembra outras músicas aí, outras composições aí que saíram.

Oh, como é belo
Como é sublime
Cantar no jardim
O lírio branco a isolar
Suspiros tantos
Cheios de encantos
Vê qual a razão do ameno resedá
É o céu da noite
É o bogari
Suspiros, suspiros
Também são os jasmins
Quem dera eu apanhar uma jarra de cristal
E a flor para enfeitar o carnaval
Oh, como é belo
Como é sublime
Cantar no jardim
O lírio branco a isolar
Suspiros tantos
Cheio de encanto
Vê qual a razão do ameno resedá
É o céu da noite
É o bogari
E suspiros, suspiros
Também são jasmins
Quem dera eu apanhar uma jarra de cristal
E a flor para enfeitar o carnaval

Marcha do Ameno Resedá, Arranjo e Adaptação: D. Ivone Lara. Copyright 2002 by NOWA PRODUÇÕES ARTÍSTICAS LTDA. Todos os direitos reservados.

- Se lembrou de alguma?
***

Ah! Não, rapaz. Pobre, pobre de marré de si, pobre, pobre de marré de si. Sabe o que é que minha mãe fazia? Minha mãe era costureira. Agora, a mãe do Fuleiro, a minha tia, já tinha seus cento e pouco... Não, não chegava a ter essa idade não, mas já tinha já seus 80 e poucos anos, viu? Era a tia Tereza, aquela que dançava caxambu na Globo.

Eu tô capinando
Ta nascendo, ô ô
Eu tô capinando
Tá nascendo capim d'Angola
Tá capinando
Tá nascendo


Ah, isso era com ela mesma. Viu, e nós éramos pobres, bem pobres mesmo, sabe? Todo mundo trabalhava. A única que não trabalhava era eu, que inda era criança, eu e Hélio.

Mas o Antônio já trabalhava numa fábrica de tecidos. Eu tinha um primo mais velho meu, que vinha a ser primo também do Antônio, trabalhava já na estiva.
***

Minha mãe era costureira.
***

Bom, graças a Deus, sempre tivemos um ambiente musical. Nós tínhamos um tio, por nome de Dionísio Bento da Silva, muito amigo de Pixinguinha, Jacó do Bandolim. Ele então tocava trombone e era chorão ele. De maneiras que, quando chegava nos dias de ensaio, a gente assistia o pessoal cantar, tocar, né? E de vez em quando a gente também fazia parte, cantava também, aprendíamos a cantar. Principalmente quando ele estava fazendo, ele estava compondo, ele fazia questão que nós aprendêssemos, que era pra ele não esquecer.
Nós éramos o gravador dele, então nós aprendíamos e depois cantávamos junto com ele.
***

Olha, lá na Tijuca eu fiquei até meus oito anos, meus 12 anos. De lá da Tijuca, eu freqüentei a Escola Bezerra de Menezes, que foi a primeira escola primária que eu estive. A minha mãe depois conseguiu um internato pra mim na Escola Orsina da Fonseca. Foi lá que eu passei a minha infância e foi muito bom, porque eu aprendi trabalhos manuais. Era uma escola mantida pela prefeitura. Eu aprendi trabalhos manuais, pertenci ao orfeon artístico de lá, fui aluna de dona Lucila Guimarães Villa-Lobos e fui aluna também da mãe da Lígia.

Não sei se você sabe, a filha do Donga. Fui aluna dela. Ali então, apesar de não se poder cantar samba, nada dessas coisas, mas a gente aprendia muita coisa.
***

Bom, ali eu cantava as músicas que eu ouvia Emilinha Borba cantar. Naquela época eu já ouvia a Emilinha Borba.
***

Ah, bom, no orfeon só hinos. Hinos, por exemplo, A Lavadeira, aquele Canto do Pajé.
Oh, Tupã, deus do Brasil
Que o céu enche de sol
Isso aí aprendi.
***

Quando eu saí do colégio, eu fiquei órfão de mãe também. Aí eu fui pra casa desse meu tio que era chorão, ele morava na rua Dona Emília, lá em Inhaúma, eu fui residir com esse tio e lá na casa desse meu tio, eu já tinha feito meu ginásio, aí meu tio chegou perto de mim e disse assim: "Olha, minha filha, nós somos pobres, eu não posso continuar te mantendo num colégio de ensino superior. De maneiras que eu vou fazer o seguinte: seu primo trabalha na fábrica Nova América, eu vou pedir ao seu primo pra você trabalhar na fábrica Nova América". Eu então fiz o seguinte: não disse nada pra ele, fiquei na minha, né? Comprei um jornal e vi: Escola Alfredo Pinto, admissões para enfermagem. Aí cheguei perto dele e disse assim: "Meu tio, eu vou fazer um concurso pra enfermeira". Aí meu tio disse assim pra mim:

"Olha, você vai fazer o concurso, mas vamos fazer um trato: se você passar, muito que bem, se você não passar, a sua vaga ta guardada lá na fábrica Nova América". Eu disse: "Sim, senhor". Aí eu fui fazer o concurso e por felicidade eu fui a terceira colocada no concurso, com direito a uma ajuda de custo que naquela época eram 90 mil réis, muito dinheiro. Dali eu fiz meu curso de enfermagem e, depois do meu curso de enfermagem, os dez primeiros lugares tinham direito a ser admitida no ministério da Saúde. Eu, graças a Deus, fui admitida no Ministério da Saúde. Fui enfermeira formada, trabalhei durante oito anos. Depois desses oito anos, eu fiz a faculdade, fui fazer serviço social. Aí trabalhei mais 32 anos no Serviço Nacional de Doenças Mentais, no Hospital Gustavo Ridel. E ali eu completei 40 anos de serviço, me aposentei e hoje eu sou artista. (ri)
***
Bom, tia Tereza era uma centenária, né? Aliás, faleceu já centenária. Mas tia Tereza era a irmã mais velha da minha mãe e a minha mãe era filha de leite de tia Tereza. Tia Tereza era a irmã mais velha, tia Tereza criou minha mãe, amamentou, né? Eis o motivo pelo qual pra todo mundo, tanto faz ele quanto eu, nós dizemos pra todo mundo, nós somos irmãos, eu, o Fuleiro e Hélio, somos irmãos. Fomos criados juntos e temos essa amizade muito grande até a data presente. Graças a Deus, sempre nos demos bem.

***
Bom, tia Tereza de vez em quando ela dava as entrevistas dela, né? Ela falava muito nesse marechal Deodoro da Fonseca, ela foi empregada dele, foi empregada dele, ela conhecia muito ele. Agora, uma vez ela estava na minha casa e Adelzon indo lá em casa conversou com ela, ela contou várias coisas da vida lá do marechal. E teve uma repórter (hoje ela é famosa), quando viu tia Tereza contando aquilo tudo, virou se pra ela: "Ah, vovó, depois eu venho aqui que é pra senhora contar isso tudo pra mim". Ela virou-se pra ela e disse assim: "Ta bem, minha filha, eu te conto tudo. Mas cadê meu 'cachete', quanto vai ser meu 'cachete'?" (ri)