Já
tornou-se lugar-comum dizer que Isaura Garcia foi a Edith Piaf brasileira.
Mais que isso, a menina do bairro do Brás, em São Paulo
(ironicamente nascida em uma rua chamada Alegria), foi a Libertad Lamarque,
a Billie Holliday, no sentido trágico de suas interpretações,
de seus amores, de seu talento.
Não foi à toa que ficou famosa como a Personalíssima
- homenagem que recebeu do radialista Blota Júnior e como foi
conhecida durante toda sua carreira - pela forma exclusivamente sua
de interpretar. Em uma época na qual a moda era seguir a linha
das cantoras cariocas, Isaura (que não gostava de ser chamada
de Isaurinha) cantava "à paulista", destacando seu
sotaque típico dos descendentes de imigrantes italianos, dos
quais sua familia já tinha um grande artista a representa-la,
seu tio o pintor Giuseppe (José) Pancetti.
Produto dos programas de calouros paulistanos - aos quais concorria
acompanhada da mãe, Amélia, que tambem pretendia ser cantora
- Isaura fez toda sua carreira em São Paulo, onde nasceu em 26
de dezembro de 1919, e morreu em 30 de agosto de 1993. Já era
cantora da Rádio Record, por quem fôra contratada em 1938,
quando fez sua primeira gravação, outra ironia, um jingle
para o saponáceo Rádium, que a tornou conhecida em todo
o país. Antecipando seu bom gosto, foi das primeiras a gravar
Geraldo Pereira (Pode Ser, em parceria com Marino Pinto), que ao lado
de Chega de Tanto Amor, de Mário Lago, foi o primeiro disco de
sua carreira, um 78 rotações para a fábrica Columbia,
em 1941. Foi para o Rio de Janeiro gravar e voltou correndo para o Brás.
Mesmo sem sair de São Paulo, era assídua na programação
da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, principalmente nos programas
do apresentador César de Alencar, um aval para a consagração.
Vez que outra se apresentava no Golden Room do Copacabana Palace Hotel,
juntando-se ao elenco de estrelas da casa, formado pelos maiores cantores
e cantoras da época. Mas nunca deixou de ser a cantora de São
Paulo, mostrando talento eclético, mesmoquando fugia ao seu gênero
tradicional e gravava coisas jocosas e "suingadas",como Velho
Enferrujado (Gadé/Walfrido Silva); Barulho no Morro (Roberto
Martins); Malandro Granfino (Cacique/Urbano Reis) O Amor e a Rosa (Antônio
Maria/Pernambuco de Oliveira) e Pé de Manacá (Hervê
Cordovil/Marisa Pinto Coelho).
Passeou por vários gêneros como em De Conversa em Conversa
(Lúcio Alves/Haroldo Barbosa), Mocinho Bonito (Billy Blanco)
e Palhaçada (Luiz Reis/Haroldo Barbosa), mas estava sempre à
vontade quando cantava o amor, principalmente o amor desenganado: O
Sorriso do Paulinho (Gastão Viana/Mário Rossi); E Daí
? (Miguel Gustavo); Saia do Caminho (Custódio Mesquita/Evaldo
Rui); Castigo e Noite do Meu Bem (Dolores Duran); Vingança (Lupicinio
Rodrigues), por aí.
Sempre fiél às origens, foi coroada - além da rainha
do Rádio Paulista - a Rainha dos Carteiros, pela música
que mais a identificou e se tornou sua assinatura musical, o samba Mensagem
("Quando o carteiro chegou / e meu nome gritou / com uma carta
na mão
) de Aldo Cabral e Cícero Nunes. Sua última
gravação foi o LP Isaura Garcia, para a gravadora Continental,
em 1973, o restante foram regravações.
Arley
Pereira
MPB ESPECIAL
4/9/1972
Não
é possível
Viver assim desse jeito
Chegando de madrugada
Sujo de rouge e de pó
Parece incrível
Você perdeu o respeito
Não tem amor a mais nada
Me deixe em casa tão só
O meu consolo é o sorriso do Paulinho
Quando pergunta: Mamãe, onde andará meu paizinho?
Então eu choro
E você sabe porque
Nosso filho desconhece
O que dizem de você
O Sorriso do Paulinho. Gastão Vianna/Mário
Rossi. Copyright 1943 by MANGIONE, FILHOS E CIA. LTDA. Todos os direitos
autorais reservados para todos os países do mundo
Oi, de conversa em conversa
Você vai arranjando um modo de brigar
De palavra em palavra
Você está querendo é nos separar
Parece até que o destino uniu-se com você
Só pra me maltratar
Cada dia que passa é mais uma tormenta
Que eu deixei passar
Nosso viver não adianta
É melhor juntarmos nossos trapos
Arrume tudo que é seu
Que eu vou separando meus farrapos
Vivendo desta maneira
Continuar é besteira
Não adianta não
O que passou é poeira
Deixa de asneira
Que eu não sou limão
Não sou limão, não sou limão
Não sou limão, eu não
Não sou limão, eu não
De Conversa em Conversa. Lúcio Alves/Haroldo Barbosa.
Copyright by EDITORA MUSICAL BRASILEIRA (ADDAF).
***
Como foi que eu comecei? Bom, eu comecei em programa de calouro, eu
era muito garotinha, tinha mais ou menos 13 anos. Comecei num programa
de calouro que era da Rádio Record e era dirigido por Otávio
Gabus Mendes e Lauro D'Ávila. Eu cantei uma música de
uma cantora que eu tinha uma verdadeira adoração por ela,
tenho até hoje, Carmem Miranda. Carmem Miranda e Araci de Almeida
foram as minhas cantoras que me inspiraram, me inspiraram pra cantar,
pra seguir minha carreira artística, porque eu ouvia muito Carmem
Miranda e Araci de Almeida, e outros grandes artistas, Sílvio
Caldas e essa turma toda. Eu sempre tive mania de querer ser... Eu tinha
a impressão que eu ia ser cantora, sabe? De qualquer jeito eu
tinha que ser cantora, porque eu era muito garotinha, eu já ajudando
minha mãe, ajudando meu pai, e eu cantava toda hora. Meu pai
tinha um bar, um botequim, né? E eu cantava nas mesas pra todo
mundo ouvir. E ajudando minha mãe a lavar uma roupinha eu cantava
no quintal, chateava a vizinhança toda. Então de modo
que alguma me dizia: eu vou cantar, vou cantar, vou ter que cantar.
Então eu fui uma vez fazer um programa de calouro. O primeiro
programa de calouro que eu fiz foi na Cultura e eu cantei uma música
também foi da Aurora Miranda, eu fui gongada, tive uma gongada
bárbara, linda de morrer. Mas, sabe, naquele tempo era muito
difícil a gente começar a cantar num programa de calouro.
Hoje todo mundo canta, hoje todo mundo tem a oportunidade de ensaiar,
de dar o tom. Eu não sabia nem o que era tom, eu não sabia
nada. Então eu cheguei lá e ensaiei e se não me
engano, a música era... Bom eu não me lembro agora, mas
depois eu vou lembrar. E eu cantei, fui com a minha mãe, então
as duas foram gongadas, viu? Eu e minha mãe, né? Depois
pra voltar pra casa foi uma tristeza muito grande, medo que todo mundo
gozasse a gente e tudo. Mas depois eu fui então pra esse programa
da Record, que foi na rua Espírita. Chamava-se o programa Quá
Quá 40. Era um programa de calçados e eu cantei Camisa
Listada. Ganhei primeiro lugar. Aí eu ia todo domingo, com aquela
dificuldade, tomava o meu bondezinho e ia lá eu, às vezes
não tinha dinheiro pro bonde, eu ia a pé.
***
Eu morava no Brás, nasci no Brás, na rua da Alegria. É
um contraste muito grande, né? Bom e então eu comecei
assim, devagarinho, muito por baixo, né? Eu fui subindo devagarinho
também, é preferível a gente subir devagarinho
e durar bastante do que subir muito depressa e cair logo. Então
lá fui eu, então todo domingo... Você ta rindo,
né, meu bem? É pra rir mesmo. Mas eu não ria não,
viu? Todo domingo lá ia eu. Tinha uma moça, uma amiga
minha, uma moça de cor, mas muito minha amiga, ela que me levou
pra esse primeiro programa de calouros. Eu cantei Camisa Listada, ganhei
em primeiro lugar, no segundo domingo ela me levou de novo. Até
hoje ela é minha amiga e eu agradeço muito a ela de ela
me incentivar. E agradeço muito a minha mãe também,
minha mãe me incentivava muito, minha mãe é que
queria que eu cantasse: "Canta, não porque ela vai cantar,
tem que cantar, tem que cantar". A minha mãe sempre quis
ser cantora. Como ela não conseguiu, então ela empurrou
pra mim o negócio. Então lá fui eu né? E
tô até hoje. Fui contratada pela Record, tenho muitos anos
de Record, tenho 37 anos de Record. Bastante, né, nego? Muita
gente diz: "A Isaura tem 70 anos". Tenho não. Tenho
não.É que eu comecei muito pequenininha. E eu nunca também
menti idade, é besteira mentir, é preferível a
gente dizer que tem mais e aparentar menos, né? Então
tô lá até hoje e vim aqui fazer esse programa pra
vocês com todo o coração.
***
E Daí, E Daí eu gravei... Olha, nêgo, se você
me perguntar... Eu sou um pouco desligada. Um pouco não, bastante.
Quando foi que eu gravei as músicas? Vai ser muito difícil
pra mim dizer, porque tenho muito disco gravado. Eu me lembro da primeira.
Antigamente a gente gravava 12 discos de uma vez. Sabe? Então
como não existia LP, não era LP, era 78. Você dava
um soprozinho assim no disco, o disco quebrava, né? Tanto que
eu não tenho nenhum disco meu, antigo. E eu gravei A Baratinha,
foi minha primeira gravação. Depois gravei Pano de Prato,
tudo junto, Pano de Prato gravei uma porção junto. Gravei
E Daí E Daí, não faz muito tempo não, faz
pouco tempo que eu gravei E Daí e Daí. Quer que eu cante?
Tá.
Proibiram que eu te amasse
Proibiram que eu te visse
Proibiram que eu saísse
Ou perguntasse a alguém por ti
Proíbam muito mais
Preguem avisos
Fechem portas
Ponham guizos
Nosso amor perguntará:
E daí, e daí?
Daí por mais cruel desilusão
Eu continuo a te adorar
Ninguém pode parar meu coração
Que é teu, todinho teu
Somente teu
Todinho teu
Somente teu
E Daí? Miguel Gustavo. Copyright by EDITORA E
IMPORTADORA MUSICAL FERMATA DO BRASIL LTDA.
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Saia do Caminho foi um samba-canção que Araci de Almeida
gravou primeiro e eu gravei depois. Porque eu já disse a você
que eu gostava muito da Araci e gosto, continuo gostando da Araci de
Almeida e eu gravei o Saia do Caminho porque acho um dos sambas mais
lindos do repertório da Araci de Almeida. E combina muito comigo.
Cê quer ver?
Junte tudo que é seu
Seu amor
Seus trapinhos
Junte tudo que é seu
E saia do meu caminho
Nada tenho de meu
Mas prefiro viver sozinha
Nosso amor já morreu
E a saudade que existe é minha
Fiz até um projeto
No futuro, um dia
O nosso mesmo teto
Mais uma vida abrigaria
Fracassei novamente
Pois sonhei, mas sonhei em vão
E você, francamente
Decididamente, não tem coração
Saia do Caminho. Custódio Mesquita/Ewaldo Ruy.
Copyright 1946 by IRMÃOS VITALE S.A. INDÚSTRIA E COMÉRCIO.
Todos os direitos autorais reservados para todos os países. ALL
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É difícil cantar isso sem chorar. (ri)
