"O Zé ficou quietinho?" - A pergunta da mãe, quando voltava do trabalho, era infalível. E como o moleque Zé sempre ficava quietinho, virou Zé Quieto, logo em seguida, Zé Keti.
Neste século que se finda, na raiz da maioria das coisas boas que aconteceram no ramo samba da árvore da música popular brasileira, tem o dedo de Zé Keti, o compositor que se tornou um dos símbolos de sua escola de samba, a Portela, guardiã da cultura popular e menestrel maior de Madureira, a capital dos subúrbios da Zona Norte do Rio de Janeiro.
Nascido em 1921, José Flores de Jesus fez do bairro carioca de Bento Ribeiro e contornos o seu reinado. Ninguém cantou a Portela como ele, ninguém soube compreender a beleza e a importância do mar em azul e branco que cobre a passarela a cada carnaval, vencendo ou não a competição com as co-irmãs. Zé era portelense e deixou isso bem claro em suas rimas e harmonias.
Criador perfeito em A Voz do Morro, crítico social em Acender As Velas, lírico em Máscara Negra, boêmio em Diz Que Fui Por Aí, cronista em Malvadeza Durão, historiador em Jaqueira da Portela, ator de teatro no show divisor de águas Opinião e de cinema em Rio, 40 Graus e A Grande Cidade, Zé Keti tinha a generosidade entre outras de suas qualidades.
Foi ele, quando diretor musical do restaurante Zicartola - outro marco cultural carioca e brasileiro -, que lançou dois novos compositores: Elton Medeiros e o menino (também portelense) Paulo César Batista de Faria, a quem Zé batizou como Paulinho da Viola e para o qual profetizou a carreira que ajudou a consolidar, até mesmo dando a ele para gravar jóias como As Moças do Meu Tempo.
Aos 78 anos, vitimado por uma parada cardíaca, Zé Keti morreu no hospital da Venerável Ordem Terceira Penitência, no bairro suburbano da Tijuca, no seu Rio de Janeiro, na manhã de 14 de novembro de 1999. Concedeu esta entrevista ao programa MPB Especial, da TV Cultura de São Paulo, em 1973, aos 51 anos.

Arley Pereira
MPB ESPECIAL
4/7/1973

Tanto riso
Oh, quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando pelo amor da colombina
No meio da multidão
Tanto riso
Oh, quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando pelo amor da colombina
No meio da multidão
Foi bom te ver outra vez
Está fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele pierrô
Que te abraçou
Que te beijou, meu amor
Na mesma máscara negra que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade
Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Arlequim está chorando pelo amor da colombina
Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval.
Máscara Negra, Zé Keti/Pereira Matos. Copyright by EDITORA MUSICAL ARAPUÃ LTDA. / FERMATA.
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Eu fiz alguns números carnavalescos, mas muito poucos fizeram sucesso. Máscara Negra, evidentemente, foi a música de maior sucesso na minha carreira musical.
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Dinheiro? Não deu para eu fazer a independência financeira, mas deu para ganhar alguma coisinha.
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Amor de Carnaval foi outra música que eu gravei no ano de 68. Em 67 foi o grande sucesso com a Máscara Negra e, no ano seguinte, eu gravei o samba Amor de Carnaval. Ganhei o carnaval sozinho com esse samba, o Troféu Lamartine Babo, de ouro. Mas era de bronze, o negócio é tudo de araque, diz que dá ouro, mas a gente vai ver e no fundo é de bronze mesmo. De maneira que Amor de Carnaval foi uma música que pegou e até hoje a turma canta nos carnavais. Tem dado alguma coisa também. Eu vou dar uma palinha do Amor de Carnaval:

Vamos brincar
Oba, oba, oba, meu bem
Não quero o teu beijo agora, meu amor
Se nos teus olhos tu me vês qual uma flor
Consola teu coração
Oba, oba, oba, meu bem, me dê a mão
Vamos pro meio do salão
A lua lá no céu é artificial
Porque é carnaval
Papai, mamãe não quer que eu namore pra casar
Ainda é cedo
Amor de carnaval desaparece na fumaça
Saudade é coisa que dá e passa
Oba, oba, oba, meu bem
Não quero o teu beijo agora, meu amor
Se nos teus olhos tu me vês qual uma flor
Consola o teu coração
Oba, oba, oba, meu bem, me dê a mão
Vamos pro meio do salão
A lua lá no céu é artificial
Porque é carnaval
Porque é carnaval.
Amor de Carnaval, Zé Keti. Direto.

É isso aí.
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Eu nasci no bairro de Inhaúma, fica lá no Rio de Janeiro, antigo Distrito Federal ou Estado da Guanabara, e fui criado em Dona Clara, em Bangu, fui criado em Bento Ribeiro. Quando era garoto, eu sempre fui grilado em música, de maneira que a minha mãe ia nos bailes, na época, e me levava. Eu era pequeno, mas em vez de ficar assim junto com os garotos, como qualquer criança faz, procura a corriola dele, eu ficava sempre no meio dos grandes, especialmente dos músicos, quando se tratava de baile. Então, eu ficava assim, com toda atenção na música, sempre junto dos músicos. A minha mãe foi morar lá em Dona Clara, hoje Estação de Campinho, perto de Madureira, lá no Rio. Então, eu pedi que minha mãe comprasse uma flautinha de folha-de-flandres, de maneira que minha mãe comprou essa flautinha e aí eu comecei a tirar as minhas primeiras notas musicais na flautinha. Fiz até um choro, que eu dei o nome de Remelexo. Anos depois, muitos anos depois, eu já estava rapaz, foi gravado um choro também, pelo Felisberto Martins, que era diretor artístico da Odeon, ele gravou um choro com o mesmo título, muita coincidência inclusive. Da flautinha, fui caminhando e trabalhando dentro da música.