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O capixaba de Vitória, nascido em 1937, Roberto Batalha Menescal sempre foi (e continua sendo) um dos mentores da bossa nova. Além da academiade violão que montou com Carlos Lyra em Copacabana no começo dos 60 para difundir a batida diferente, Menescal participou dos principais shows coletivos de decolagem do movimento, incluindo o do Carnegie Hall, em 1962, em Nova York onde cantou (fato raro em sua trajetória discográfica) O Barquinho, parceria com Ronaldo Boscoli (outro motor do movimento). Antes de chegar a esse cume da carreira em tão pouco tempo, Menescal, que estudou teoria musical com os maestros Guerra Peixe e Moacyr Santos e aos 17 anos já acompanhava Sílvia Telles ao violão, numa turnê nacional que chegou à Argentina e ao Uruguai, foi gravado pela primeira vez por Alaíde Costa, Jura de Pombo, e formou o primeiro grupo que levava seu nome em 1958. O Conjunto Roberto Menescal, além de vida autônoma em discos gravados no selo Elenco de Aloísio de Oliveira, acompanhava outros artistas como Maysa (a que perpetuou O Barquinho), Sílvia Telles, Aracy de Almeida, Billy Blanco, Nara Leão. Menescal trabalhou com Elis Regina de 1968 a 1970, ano do lançamento do show do teatro da Praia Elis com Miele & Boscoli, acompanhado por seu grupo. Numa excursão ao exterior um ano antes, Menescal produziu o encontro em disco da cantora com o gaitista belga Toots Thielemans, na Suécia, e ainda participou de Elis Regina in London, com arranjos do maestro inglês Peter Knight. Compositor de outros clássicos da bossa com os parceiros Boscoli (Ah, Se Eu Pudesse, Nós e o Mar, Vagamente, A Volta, Você, Telefone, Rio, A Morte de Um Deus de Sal) e Lula Freire (Vai de Vez, Amanhecendo), além do posterior Bênção, Bossa Nova (com Carlos Lyra) Menescal, em 1971, tornou-se produtor e gerente geral da então Polygram (atual Universal). Dirigiu lançamentos de artistas como Gal Costa, Caetano Veloso, Chico Buarque, Nara Leão e Elis Regina. Com Chico, ele comporia o clássico Bye Bye, Brasil (tema do filme homônimo de Cacá Diegues) e com Caetano Cidade Pequenina. Além de Bye Bye, Brasil, escreveu músicas para os filmes Chica da Silva, Joana, a Francesa e Vai Trabalhar, Vagabundo. Nara Leão, amiga de infância, se tornaria sua parceira de shows internacionais (quando ele deixou a direção da gravadora), desbravando o mercado japonês onde gravariam vários discos. Em 1986, Menescal ganhou o primeiro prêmio no festival Yamaha local com a música Ponto de Luz (parceria com Costa Neto), cantada por Leila Pinheiro. Para ela, ele produziu e arranjou com enorme sucesso o CD revivalista Bênção, Bossa Nova (1989). Dono de um toque de violão de requinte harmônico, guitarrista de timbre aveludado, Menescal sempre foi muito solicitado como músico e arranjador, de Gal Costa a Beth Carvalho até a atual parceira de shows Wanda Sá, que debutou em 1964 com sua composição Vagamente. À frente do selo Albatroz desde 1997, ele vem lançando um catálogo de MPB selecionada. Concedeu esta entrevista ao programa Ensaio, da TV Cultura, de São Paulo, em 1991, aos 54 anos. Tárik
de Souza Dia de
luz *** Eu nasci em Vitória, Estado do Espírito Santo. *** Eu tenho lembranças ótimas de Vitória. Saí de lá muito pequenininho, mas voltei sempre. As primeiras turmas de rua e de praia foram de lá, o primeiro violão foi de lá. Escutei dois caras do Rio tocando, numa noite que eu estava voltando de madrugada, e o samba-canção bateu total em mim. Foi ótimo. *** Não sei, tipo 55, 56. Eu tocava acordeão, como todo garoto na época tocava. Era o instrumento da época. Quando vi o violão, larguei o acordeão. *** Não. Nunca estudei instrumento mesmo, estudei um pouco de música e instrumento eu bicava umas aulas, as primeiras aulas da Nara. A Nara tinha aulas com Patrício Teixeira e eu biquei as aulas dela, ficava lá de olho. *** Não tinha o método dele ainda, era o método de Capadócio. *** Do Patrício eu me lembro muito vagamente. Nessa época tínhamos 16, 17 anos, e o Patrício vinha com aquele terno impecável e aquela gravata dar aula para a Nara. Eu me lembro dele tocando aquelas músicas que todo mundo aprendia, tipo [cantando]: "Vento que assanha os cabelos da morena". Foi a primeira vez que ouvi as coisas do Caymmi: "Quem vem pra beira do mar nunca mais quer voltar". Eu tomei assim contato com a música brasileira mesmo através do Patrício, ele que me mostrou as coisas bonitas. Eu era roqueiro [risos]. *** Depois Silvinha Telles me botou na aula de música com Moacyr Santos. Aliás, eu só tive professor calmo. Moacyr com aquela calma dele, com aqueles sons que ele fazia, sons estranhos pra mim, e o Moacyr sempre falava: "Vai com calma que você chega lá". Mas uma calma que eu não podia ter com 17 anos, eu doido pra aprender as coisas logo. E ele: "Faz isso assim, 150 vezes que daí vai fazer direito". Eu vivia falando: pra que estudar se tem muita gente que toca sem saber música? E ele falava: "Vai com calma, vai indo". Até que encontrei o Donato (o compositor João Donato), que não sabia nada de música na época, e passei a noite tocando com o Donato, fiquei vidrado, doido para ir no Moacyr. Quando cheguei lá no Moacyr e contei que encontrei o Donato, ele falou: "Grande. O Donato é ótimo, é o melhor". Eu digo: "Ah, ele não sabe uma nota de música". E ele: "É verdade. Imaginou se ele soubesse?" Me deu aquela lição de vida total, ele é ótimo. |