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Inês
Magdalena de Aranha Lima. O nobre nome "quatrocentão",
de famílias de troncos paulistas tradicionais, poderosos fazendeiros
de café, não identifica de imediato a mais fiel e importante
intérprete da música "caipira" (a verdadeira,
como ela faz questão fechada de deixar claro) em todo o Brasil.
Inezita Barroso - o Barroso herdado e mantido de seu casamento - traz
da infância o interesse, o gosto e o sabor pelas coisas do interior,
principalmente pela música que naqueles momentos luzia nos terreiros
de café paulistas, nos galpões gaúchos, nos aboios
nordestinos.
Filha, neta, sobrinha de grandes cafeicultores paulistas, a menina Inês
tinha à disposição das férias de seus sonhos
muitas fazendas a escolher. Em qualquer uma delas, os melhores professores
para ensinar-lhe o que ela mais gostava: música feita em viola,
em sanfona, cantada em terça, em versos simples e bonitos. Nascida
em São Paulo a 4 de março de 1925, a menina Inezita preferia
- enquanto as primas e as amigas cavalgavam ou bordavam - sentar-se em
banco tosco e ouvir maravilhada o cantar daqueles homens rudes, que tiravam
sons tão bonitos de seus toscos instrumentos.
"O senhor ensina eu tocar ?" - O pedido era irrecusável
e quase escondida atrás das violas, a menininha dava os primeiros
passos da carreira que faria dela a grande dama do folclore nacional,
a incansável pesquisadora, professora, cantadeira e intérprete
das emoções do verdadeiro brasileiro. A família -
tradicional - queria para ela a educação de todas as sinhazinhas
de sua geração e, em termos de música, o erudito
piano, jamais o boêmio violão. As melhores escolas, os mais
renomados professores, os mais finos ambientes.
"A menina já sabe mais do que a gente !" - A alegria
dos elogios nas férias nas fazendas, renovadas e aumentadas a cada
ano, a cada encontro com os mestres-violeiros, era maior que qualquer
sarau na capital. Crescendo em beleza e talento, impondo-se pela personalidade,
amando cada vez mais as coisas interioranas, a carreira toma seu rumo
natural. Em uma viagem pelo Nordeste, recolhendo folclore, canta profissionalmente
pela primeira vez e sela de forma definitiva o destino. Daí para
a frente, o rádio, o cinema - em que chega a ser atriz premiada
- a televisão, os discos. Torna-se a fada-madrinha de todos os
que chegam do interior para tentar a vida artística "na capital".
Abre portas, encaminha, apresenta, grava canções de novos
compositores, continua as pesquisas, torna-se professora universitária
espalhando seu saber brasileiro.
Apresentadora e dona de um dos mais antigos e importantes programas da
televisão brasileira, recordista de vendas de discos, seu nome
é hoje reconhecido internacionalmente. Muito mais importante que
o imenso nome "quatrocentão" é ser Inezita Barroso,
amada pelo Brasil. Concedeu esta entrevista ao programa Ensaio, da TV
Cultura, em 1998, aos 73 anos de idade.
Arley
Pereira
ENSAIO
31/7/1998
Co'a marvada
pinga é que eu me atrapaio
Eu entro na venda e já dou meu taio
Pego no copo e dali num saio
Ali memo eu bebo, ali memo eu caio
Só pra carregá é que eu dô trabaio, oi lai
Venho da cidade, já venho cantando
Trago um garrafão que venho chupando
Venho pros caminho, venho trupicando
Chifrando os barranco, venho cambeteando
E no lugar que eu caio já fico roncando, oi lai
O marido me disse, ele me falô
Largue de bebê, peço por favô
Prosa de home nunca dei valô
Bebo co sor quente pra esfriá o calô
E bebo de noite é pra fazê suadô, oi lai
Cada vez que eu caio, caio deferente
Meaço pra trás e caio pra frente
Caio devagar, caio de repente
Vô de corrupio, vô deretamente
Mas sendo de pinga eu caio contente, oi lai
Eu fui numa festa no rio Tietê
Eu lá fui chegando no amanhecê
Já me dero pinga pra mim bebê
Já me dero pinga pra mim bebê
Tava sem fervê
Eu bebi demais e fiquei mamada
Eu caí no chão e fiquei deitada
Ai eu fui pra casa de braço dado
Ai é de braço dado é com dois sordado
Ai muito obrigado.
Marvada Pinga (Moda da Pinga),
Laureano. Copyright by Bandeirante (ADDAF).NEZITA BARROSO
***
Em 1953, dezembro.
***
RCA Victor. Não, não. Já tinha gravações
anteriores, várias e várias. Mas foi assim recolhido aos
pedaços no interior de São Paulo e depois a gente juntou
os pedaços que talvez fossem de outras composições
sobre pinga. Então deu uma briga tremenda, todo mundo era o autor
da Moda da Pinga. Eram reportagens, primeira página de jornal.
Isso tudo só ajudou a música a fazer muito sucesso.
***
Ronda era o outro lado desse disco 78, um disquinho preto 78 rotações,
dum lado a Moda da Pinga. Eu fui ao Rio pra gravar, porque São
Paulo não tinha estúdio, era uma coisa assim meio abandonada
nesse setor. Então era tudo no Rio de Janeiro e eu fui pro Rio
gravar a Moda da Pinga. Gostaram muito, e "do outro lado o
quê?" O Paulo Vanzolini estava comigo no Rio, tinha ido fazer
um trabalho de zoologia, nós éramos muito amigos e ele foi
pro estúdio comigo. Aí ele olhou assim meio pedindo e eu
falei: "Tá bom, do outro lado vai Ronda, do Paulo Vanzolini".
Aí me perguntaram: "O que é isso?" Falei: "É
um samba paulista". Pra que eu falei isso. "Samba paulista,
São Paulo não tem samba". Aí o Canhoto, que
era o dono do regional que acompanhava, disse: "Canta aí pra
eu ouvir". Aí eu cantei Ronda e foi aquele sucesso.
O Canhoto forçou pra que fosse gravado Ronda atrás
da Moda da Pinga.
***
Deixa eu trocar aqui porque Ronda é com violão (Inezita
troca a viola por violão.). Eu vou cantar a letra original que
eu cantei, linda a letra manuscrita pelo Paulo na hora. Depois outros
cantores regravaram, mas com a letra um pouquinho diferente, não
sei se não entenderam o que eu cantei no disco, mas está
um pouquinho diferente, principalmente uma parte que diz: "No meio
de olhares espio nas mesas dos bares". Porque os homens ficavam nas
mesas na calçada na avenida São João e aquelas mulheres
assim meio de vida duvidosa ficavam passeando pra lá e pra cá,
"tirando linha", como diziam os homens. Então, é
"nas mesas dos bares" realmente.
***
De noite eu rondo a cidade
A lhe procurar sem encontrar
No meio de olhares espio nas mesas dos bares
Você não está
Volto pra casa abatida
Desenganada da vida
No sonho eu vou descansar
Nele você está
Ai se eu tivesse quem bem me quisesse
Esse alguém me diria
Desiste, essa busca é inútil
Eu não desistia
Porém com perfeita paciência
Sigo a procurar
Hei de encontrar
Bebendo com outras mulheres
Rolando um dadinho
Jogando bilhar
E nesse dia então
Vai dar na primeira edição
Cena de sangue num bar da avenida São João.
Ronda, Paulo Vanzolini. Copyright
by MUSIBRÁS.
***
Minha infância foi linda. Aliás, a minha infância se
prolongou até os 16 anos. Naquele tempo usava brincar na rua, todas
aquelas cantigas de roda, jogos infantis, né?, e eu brincava também
de brincadeira de moleque, que era considerada brincadeira de homem, porque
os meus amigos na maioria eram meninos, o meu único irmão
é menino. Então era bicicleta, era pião, futebol,
fiz de tudo, brinquei de tudo até bem tarde. Meu pai era uma criatura
superalegre, maravilhosa, muito culto, lia demais, e de família
do litoral, gente que fala alto, gente barulhenta, gente alegre. Minha
mãe do interior, de gente mais quieta, mais reservada, gente de
fazenda de várias cidades aqui do interior de São Paulo.
Então eu tenho comigo essa mistura muito forte, metade mar, metade
terra, e acho ótimo isso e cresci desse jeito. Meu pai já
faleceu e minha mãe ainda está viva. Quer dizer que agora
estou penando um pouco com aquela tristeza caipira dentro de casa, porque
o caipira é muito quieto.
***
Tenho várias lembranças muito doces. Minha mãe me
levando pra cantar com sete anos de idade, aqueles vestidinhos cor-de-rosa
engomadinhos, cabelinho com fita que nunca parava, quando chegava no lugar
onde devia cantar já estava no chão, porque eu era muito
inquieta. E ela com todo aquele carinho arrumando a fita no cabelo, disso
eu me lembro muito, muito. Eu era assim sempre morena, de tez morena,
então eu era meio amarelada como sou até hoje. Ela então
dava uns beliscões no meu rosto pra ficar corado, eu tinha um ódio
disso. Ainda não existia blush. Outras coisas assim, meu pai afinando
o meu violão. Ele não tocava, mas ele afinava perfeitamente.
As primeiras vezes que eu cantei de violão foi meu pai que afinou.
É uma doçura isso, ele sempre se interessou pela minha carreira,
pela minha vida, sempre, até o dia que morreu.

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