[E eis que o europeu descobre o pau-brasil] [Pau-brasil: lucros à vista, destruição a prazo]

"Brasil" desde quando?

Diz a tradição que o nome "Brasil" vem da madeira pau-brasil. Mas, às vezes, a tradição se revela insuficiente, pois, esconde outras possibilidades fascinantes de se adquirir um determinado conhecimento. Há, pelo menos, duas possíveis origens para o nome de nosso país. Comecemos pela tradicional. A história do pau-brasil remonta do século IX, ou seja, ao ano 900 d.C. Àquela época, a madeira era encontrada nas Índias Orientais, dentre as variedades de plantas que possibilitavam, por força de sua cor avermelhada, a produção de um corante, igualmente vermelho. Na Europa, para onde eram levados e destinados ao uso, tanto a madeira quanto o corante eram denominados "brecilis’, "brezil", "brazily" ou "brasil", todos nomes derivados da palavra latina "brasília" que significa "cor de brasa" ou "vermelho". As árvores eram plantas que pertenciam a várias espécies de "Caesalpinia", já difundidas e conhecidas principalmente na Índia, Sumatra e outras regiões da Ásia, sendo "sappan" (que significa igualmente "vermelho"), o seu nome no arquipélago malaio. Data de 1128 o primeiro registro escrito do nome "brasile", dado tanto ao corante quanto à madeira. Tal informação aparece em um tratado de Muratozi de Ferrara. Ainda nesta concepção tradicional, alguns estudiosos sustentam que a palavra veio diretamente do francês "brésil" que, por sua vez, é originário do toscano "verzino", como era denominada na Itália a madeira usada para o tingimento.

No entanto, há uma outra versão, mais deliciosamente misteriosa, que nos remete ao termo celta (um antigo povo que habitou a Europa) "bress", origem do inglês "to bless" (abençoar). Segundo uma lenda celta do século IX, havia uma ilha chamada Bem Aventurança ou Terra Abençoada, ou ainda, Hy Brazil, situada nas brumas do Mar Tenebroso, o Atlântico. Desta versão compactuava o respeitado historiador Sérgio Buarque de Hollanda. Uma adaptação desta lenda pode ser conferida no divertido filme "Aventuras de Erik, o viking" do diretor inglês Terry Jones. Nele, Hy-Brazil se assemelha em muito à também lendária Atlântida...

Dentro desta perspectiva mítica, há ainda um curioso registro do genovês Angelino Dalorto que, em 1325, descreveu assim a cidade imaginária Brazil:
"Uma ilha na mesma latitude da Irlanda do Sul. O nome pode ser gaélico, já que Bresail é um nome de um antigo semideus pagão, e ambas as sílabas, ‘bres’ e ‘ail’, denotam admiração. Consiste num grande anel de terra cercando um mar interior com ilhotas. O mortal ordinário não pode vê-lo e somente uns poucos eleitos foram abençoados com a visão do Brazil."

O fato é que, mítica ou não, a terra brasilis aparece nos mapas, desde 1339. No século XIV, os planisférios de quatro cartógrafos mostravam uma Ilha Brasil, a oeste dos Açores. O primeiro mapa com referências reais, no entanto, é o mapa encomendado pelo espião italiano Alberto Cantino a um cartógrafo de Lisboa. Nele se vêem papagaios, florestas e o desenho do litoral desde Cabo Frio até o Amazonas. Ora, o mapa data de 1502, época em que as expedições oficiais portuguesas só haviam visitado o Amazonas e a Bahia. Como então já era possível descrever em detalhes o litoral ao sul do território baiano?

E eis que o europeu descobre o pau-brasil

A primeira riqueza explorada pelos europeus em terras brasileiras foi o pau-brasil, árvore que existia com relativa abundância em largas faixas da costa brasileira. Embora seu valor fosse muito inferior às mercadorias orientais, a substância corante extraída da madeira foi de grande interesse comercial para Portugal que, antes, a comprava dos mercadores do Oriente que atuavam nas rotas tradicionais do comércio indiano.

Logo, a coroa portuguesa declarou a exploração do pau-brasil um monopólio real. Isso significava que só poderia dedicar-se a esta atividade quem obtivesse uma concessão da coroa portuguesa, que cobrava pelos direitos concedidos. A primeira concessão de exploração foi conferida a Fernando de Noronha (que, quem diria, virou nome de arquipélago paradisíaco!) ainda em 1501. O primeiro arrendatário e seus associados posteriores tinham como obrigação enviar naus à nova terra, descobrir "trezentas léguas de costa" e pagar uma parcela à Coroa, além de construir e manter fortalezas. Ao colono era vedado explorar ou queimar o lenho corante. Registra a História que, pela concessão obtida, Fernando de Noronha pagava, anualmente, 4 mil cruzados. Já em 1519 os negócios do primeiro arrendatário pareciam bastante promissores, pois a essa época já lhe fora possível retirar mais de 5 mil toras, segundo registro de Amazonas de Almeida Torres em seu livro Breves Notas para o Estudo Florestal do Brasil

Os espanhóis, em respeito ao Tratado de Tordesilhas, afastaram-se do litoral brasileiro. No entanto, corsários franceses - que não reconheciam a legitimidade do acordo - lá agiam com relativa liberdade, extraindo a madeira ilegalmente.

A participação de nossos indígenas na extração do pau-brasil foi fundamental, pois somente as tripulações dos navios não davam conta de cortar e transportar uma árvore de grande porte.

A princípio, o trabalho indígena foi conseguido por meio da prática do escambo, isto é, mediante a troca por algumas bugigangas e quinquilharias que despertavam neles grande interesse, como, pedaços de tecido, espelhos, e, às vezes, facas e canivetes.

Mais habilitados no trato com os indígenas, os contrabandistas franceses, no entanto, conseguiram maiores vantagens que os portugueses. Porém, seu sistema de extração causou graves prejuízos às matas: ao invés de cortar as árvores, ateavam fogo na parte inferior do tronco, provocando assim muitos incêndios, que matavam animais e destruíam preciosas essências.

Foto de satélite da amazônia em 26/09/90
Área desmatada em vermelho.

Pau-brasil: lucros à vista, destruição a prazo

Em pouco tempo, o índio passou a perceber o real comportamento do homem europeu. Quando, por qualquer motivo, ele se recusava a realizar o trabalho desejado pelos europeus, estes apelavam para a violência e para o trabalho escravo.

A exploração do pau-brasil não deu origens a núcleos coloniais fixos de ocupação e povoamento, uma vez que, realizada como atividade predatória, era nômade, deslocando-se pelo litoral à medida que a madeira ia se esgotando. Foram construídas apenas algumas feitorias - fortificações de caráter militar - em alguns pontos onde a madeira era mais abundante. Essas feitorias, construídas tanto por portugueses quanto por franceses, serviam para a defesa contra os concorrentes, contra ataques de tribos hostis e para o depósito das mercadorias.

Como toda atividade predatória, a extração do pau-brasil foi se tornando cada vez mais difícil devido à escassez das árvores, que passaram a ser encontradas somente de 10 a 20 léguas da costa. Já em 1530, em alguns locais do litoral, o pau-brasil se tornara escasso, embora o Brasil tenha continuado a exportar a madeira até o início do século XIX.

A exploração era bastante rudimentar, trazendo como conseqüência a destruição de grande parte de nossas florestas. Assim, com o descobrimento, iniciou-se também o desmatamento indiscriminado que ainda hoje ameaça nossa biodiversidade.

Foto de satélite da amazônia em 31/08/98
Fonte: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)