Há quase 15 anos, o governo federal tenta ampliar sua
influência sobre os impostos pagos por empresas de todo
o País, administrados pelas poderosas federações
e confederações de empresários da indústria
e do comércio. Criadas ainda durante a Segunda Guerra
Mundial, essas contribuições vão representar
em 2008 uma bolada de 8 bilhões de reais, quase quatro
vezes o orçamento do Ministério da Cultura.
No
caso do chamado Sistema S, esses recursos seguem diretamente
para os cofres do Sesc, Senai, Sesi, Senac e Sebrae, além
de outras entidades menos conhecidas, como o Senar, de aprendizagem
rural, e o Sescoop, ligado às cooperativas. E é
aí que mora o busílis, como se dizia no tempo
de Getúlio Vargas: quando o governo ameaça regular
uma parcela desse latifúndio, argumentando que os recursos
poderiam ser mais bem aplicados, o empresariado reage imediatamente,
e com a força do seu lobby em Brasília, dizendo
que ele, governo, não tem moral para falar em eficiência.
Foi
assim durante alguns momentos dos dois mandatos de FHC (ponto
para o empresariado), não é diferente agora com
o governo Lula, que pretende enviar ao Congresso nas próximas
semanas um projeto de lei para ampliar o poder de influência
sobre esses recursos.
FHC
optou por mudar de assunto. O ministro Fernando Haddad, da Educação,
retomou a discussão. O maior risco até o momento
é o debate, mais uma vez, empacar na troca mútua
de críticas e acusações.
Por
trás da iniciativa de Haddad persiste uma dose de ressentimento
do governo, fruto da derrota para a oposição em
torno da CPMF, com amplo apoio no Congresso de entidades como
a Confederação Nacional da Indústria (CNI)
e a Federação das Indústrias do Estado
de São Paulo (Fiesp), sempre dispostas a defender a redução
dos impostos.
O
auge da beligerância deu-se quando a Fiesp entregou ao
Senado um abaixo-assinado com mais de 1 milhão de assinaturas,
defendendo o fim da CPMF. O ministro do Planejamento, Paulo
Bernardo, aproveitou a ocasião para defender a redução
da alíquota de 2,5% sobre a folha de pagamento, base
de financiamento do Sistema S. Pimenta no olho dos outros
é refresco, disse Bernardo a uma platéia
de senadores, fazendo referência ao que considera a luxuosa
sede da Fiesp na Avenida Paulista, em São Paulo.
Na ocasião, lideranças empresariais reagiram,
dizendo que consideravam absurdo levantar a discussão
em torno do Sistema S no mesmo momento em que o Congresso discutia
a pertinência de manter a CPMF.
Em
que pese a inegável contribuição de entidades
como Senai, Senac, Sesc e Sebrae, também é fato
que o sistema como um todo, inclusive por conta de sua abrangência,
não está isento de críticas e falhas, algumas
delas quase sempre atribuídas ao setor público.
É o que se depreende de relatório obtido por CartaCapital,
elaborado pela Controladoria-Geral da União (CGU), órgão
federal responsável pela fiscalização das
entidades ligadas ao chamado Sistema S. Nos trabalhos
realizados pela Controladoria-Geral da União nos últimos
anos, observa-se um alto índice de impropriedades na
gestão daquelas Unidades, principalmente na contratação
de obras, fornecimento de bens e de prestação
de serviços, anota o relatório. A CGU menciona
evidências de superfaturamento, pagamento de serviços
que nunca foram prestados, a compra de produtos sem licitação,
além de outras irregularidades.
É
o caso da doação de uma fazenda pelo Serviço
Nacional de Aprendizagem Rural, seccional do Pará, a
uma entidade privada com fins lucrativos, a Federação
de Agricultura e Pecuária do Estado (Faepa), no valor
de 1 milhão de reais. Contatado pela reportagem, o Senar-PA
informou que o imóvel, uma fazenda localizada a 80 quilômetros
de Belém, havia sido recebida em doação,
com o objetivo de ser convertida em unidade de ensino. Sem recursos
orçamentários para realizar as mudanças
necessárias, repassou a fazenda à Faepa, entidade
coligada e dirigida pelo mesmo presidente, mas que
disporia do caixa necessário para aproveitar as instalações.
O caso aguarda julgamento do Tribunal de Contas da União.
Há ainda o pagamento de 233,8 mil reais realizado a uma
clínica geriátrica pelo Conselho Nacional do Sesi,
ocorrido entre junho de 2000 e maio de 2004, referente à
internação de um ex-dirigente da entidade, já
falecido. Nesse caso, o TCU determinou a apuração
de responsabilidade e a devolução do dinheiro,
o que ainda não ocorreu, de acordo com a CGU.
No
Sescoop do Acre, a CGU encontrou um pagamento de 207 mil reais
por serviços que não foram prestados. De acordo
com o atual presidente da unidade, Manoel Valdemiro da Rocha,
a irregularidade teria sido cometida durante a gestão
anterior. O dinheiro faria parte de repasses efetuados pelo
Ministério da Agricultura em cumprimento a um convênio.
Os atuais administradores solicitaram a apuração
do caso, que está sendo averiguado pela Polícia
Federal, em fase de instrução de processo.
O projeto de lei elaborado pelo governo prevê uma redução
da parcela de recursos destinados à assistência
social, o que inclui boa parte dos orçamentos das unidades
do Sesi e do Sesc, que perderiam para as atividades ligadas
à educação profissionalizante. Atualmente,
estas ficam com 40% do orçamento do Sistema S e passariam
a ter 50%, a partir de 2010 inicialmente, a idéia
era elevar esse porcentual a 60%, mas o governo ajustou a proposta,
depois da reação das entidades que perderiam recursos.
No
caso dos gastos em educação profissionalizante,
o governo pretende atrelar a liberação das verbas
às vagas gratuitas ofertadas. Um departamento regional
garantirá mais recursos à medida que expandir
o número de vagas gratuitas, afirma o ministro
Fernando Haddad. Queremos que os recursos permaneçam
no sistema, mas sejam repartidos por uma regra de desempenho.
Haddad
chama atenção para o fato de o custo anual de
um aluno do Senai ser próximo ao de um aluno de uma universidade
federal, o que seria enfrentado também com a maior oferta
de vagas gratuitas. O Senai discorda da metodologia utilizada
para a comparação, afirmando que o custo anual
dos seus alunos é inferior. Outra crítica feita
por Haddad diz respeito à duração dos cursos
profissionalizantes oferecidos pelo Sistema S. No caso do Senai,
a carga horária média seria de 85 horas, muito
inferior à mínima de 800 horas dos cursos superiores
ou mesmo de um curso técnico.
Em
países como Alemanha, França ou Japão,
os cursos profissionalizantes são sempre gratuitos e
com uma carga horária semelhante às dos cursos
superiores, afirma o ministro.
Sem
papas na língua, algumas lideranças empresariais
deixaram claro que não estão para brincadeira
nessa queda-de-braço. É o caso do deputado Armando
Monteiro Neto (PTB-PE), presidente da CNI. É um
projeto claramente intervencionista no Sistema S. É o
que tenho chamado de uma estatização dissimulada,
afirma. O Estado assume a gestão estratégica
e terceiriza a gestão operacional.
Reconhecido
por profissionais e especialistas pelo trabalho que desenvolve
como apoiador da cultura em São Paulo, o Sesc divulgou
uma carta aberta, criticando a proposta do ministro Haddad,
que incluía uma redução de 33% dos gastos,
idéia posteriormente abandonada pelo governo. Não
acredito que a questão da educação profissionalizante
seja de caráter político ou financeiro. O problema
é de gestão, não de recursos, afirma
Danilo Miranda dos Santos, diretor regional do Sesc em São
Paulo. Tirar recursos do Sesc e do Sesi é uma atitude
absolutamente infeliz, retrógrada, inadequada, sem nenhuma
perspectiva educacional efetiva, avalia, mencionando o
apoio que tem recebido de artistas e intelectuais em defesa
da entidade.
Levada
recentemente à Casa Civil, a proposta do governo ainda
passará por uma negociação com lideranças
das confederações do comércio e da indústria,
em busca de apoio. Depois seguirá para o Congresso. Diante
do desempenho da base governista na malfadada votação
da CPMF e do histórico das discussões em torno
do Sistema S, o governo pode esperar uma tramitação
lenta, gradual e nada segura.
'Competição
entre entidades pode reduzir o custo-aluno'
Ao
Estado, Haddad diz que proposta de inversão
dos recursos destinados à educação e à
cultura pode ser discutida e adaptada
Simone
Iwasso
O
ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou
ontem, em entrevista ao Estado, que o governo pode negociar
um dos pontos mais polêmicos da proposta de reforma do
Sistema S: o que inverte a proporção de recursos
destinados a cultura e assistência e à educação.
Hoje, dos 2,5% arrecadados, 1% vai para ensino e 1,5% para cultura.
A idéia de inverter esses porcentuais provocou reações
do meio cultural e abaixo-assinado nas unidades do Sesc durante
a semana. O temor era de que, perdendo quase um terço
do que recebe hoje, muitas das atividades não poderiam
ser mantidas.
Por
que inverter os recursos?
A
inversão dos recursos provocou muita polêmica,
mas estamos dispostos a rever isso. Podemos aceitar que seja
50% para cada um, com um prazo de transição para
o Sesc se adaptar, sem afetar suas atividades e programações.
Não queremos prejudicar a cultura. O que não achamos
correto é que a educação fique com uma
parte menor dos recursos. Por isso, metade para cada um seria
aceitável e, mesmo assim, já nos permitiria formar,
ao ano, cerca de 1 milhão de alunos no ensino médio
profissionalizante. Com 1,5% dos recursos, poderia ser formado
1,5 milhão.
Qual
o ponto-chave da proposta de reforma do Sistema S?
O
ponto principal é que a distribuição dos
recursos arrecadados seja feita por desempenho das unidades,
não por verbas carimbadas. É um dinheiro público
que deve ser revertido para a sociedade em forma de gratuidade.
Essa é a lógica que sustenta o projeto. Hoje,
cada unidade tem sua verba garantida independentemente das atividades
que realiza. Queremos que isso seja feito pelo desempenho delas.
Por
que isso seria melhor?
Queremos
criar uma competição entre as entidades pelo dinheiro
arrecadado, e, com isso, reduzir o custo-aluno dos cursos técnicos
do Sistema S, aproximando-os dos praticados pelas escolas técnicas
federais, estaduais e privadas. Esse é o eixo condutor
do projeto. Hoje, o custo-aluno anual do Sistema S está
em quase R$ 10 mil. Nas escolas técnicas federais, por
exemplo, ele fica em R$ 3 mil. Numa particular, em R$ 4 mil.
Com esse recurso e com as verbas que o sistema arrecada, é
possível formar, nesses valores, 1,5 milhão de
alunos. Mesmo sem inverter as proporções, usando
o que temos hoje, é possível formar 1 milhão
de alunos no nível médio tecnológico.
O
setor produtivo se colocou contra a proposta, dizendo ser um
projeto estatizante. O projeto é uma maneira de fazer
política pública com esses recursos? Não,
é mais do que isso. Acreditamos que é possível
melhorar as condições de formação
profissional para a própria indústria, formando
os trabalhadores que o Brasil precisa, com uma formação
mais geral. Por isso, não entendo essa reação
deles. Está havendo muito barulho, muito calor e pouca
luz nos debates. Por que não podemos debater com a sociedade
o bom uso desse dinheiro, já que se trata de recurso
público?
As principais entidades patronais do País estão
se opondo à decisão do Ministério da Educação
(MEC) de rever os critérios de repartição
dos recursos para o chamado Sistema S, que reúne o Serviço
Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), o Serviço
Social da Indústria (Sesi), o Serviço Nacional
de Aprendizagem Comercial (Senac) e o Serviço Social
do Comércio (Sesc). Atualmente, dos 2,5% sobre a folha
de pagamento que as empresas recolhem todos os meses para financiar
o sistema, 1,5% é destinado a serviços sociais
e 1% a serviços de aprendizagem.
Sob a justificativa de expandir a rede de entidades privadas
de formação profissional e de obrigá-la
a ampliar a oferta de cursos técnicos gratuitos de nível
médio, a proposta do ministro Fernando Haddad inverte
as porcentagens, destinando 1% para os serviços sociais
e 1,5% para os de aprendizagem. O projeto, que será enviado
ao Congresso este mês, também prevê a criação
de um Fundo Nacional de Formação Técnica
e Profissional (Funtep) para distribuir os recursos. Hoje, eles
são repassados diretamente para as entidades do Sistema
S, que movimentam anualmente R$ 8 bilhões. Com isso,
as entidades perderiam a liberdade de gastar livremente seus
recursos, sendo obrigadas a seguir as determinações
do MEC. Nas contas do Ministério, os cursos de aperfeiçoamento
e qualificação profissional oferecidos por entidades
como o Senai e o Senac formam atualmente 60 mil alunos, na faixa
etária entre 18 e 24 anos. Com o novo critério
de distribuição dos recursos do Sistema S, eles
poderiam formar 1,5 milhão de estudantes. ''O Brasil
construiu um ensino médio desacoplado da educação
profissional'', diz Haddad, depois de acusar as entidades privadas
de formação profissional de oferecer mais cursos
pagos do que gratuitos. ''O recurso arrecadado da sociedade
deve financiar a gratuidade. Se a sociedade está pagando,
o aluno deve ter acesso a um curso gratuito. Se a sociedade
está financiando, é porque o aluno não
pode pagar'', afirma o ministro.
As entidades patronais, por sua vez, lembram que o Sistema S
não foi criado para dar suporte às políticas
educacionais do governo, mas para permitir o desenvolvimento
da indústria e do comércio, formando mão-de-obra
especializada para os setores econômicos que se expandiram
com o avanço da tecnologia. Além de delegar para
os serviços sociais da iniciativa privada uma tarefa
básica do Estado - que é oferecer ensino público
de boa qualidade -, dizem os empresários, a proposta
de Haddad desorganiza o funcionamento de entidades bem administradas
e compromete sua autonomia acadêmica. ''É uma proposta
esperta de estatização'', afirma o presidente
da Confederação Nacional da Indústria,
Armando Monteiro Filho.
Para o MEC, os cursos do Sesi e do Senac são ''elitistas'',
têm curta duração e carecem de ''baixo impacto
social'', uma vez que muitos alunos são oriundos da rede
privada de ensino fundamental. Para o empresariado, as entidades
do Sistema S só não acolhem mais estudantes egressos
do sistema público em seus cursos gratuitos porque, dada
a má qualidade da educação que lhes foi
oferecida, eles não têm preparo para acompanhar
as aulas. ''O ministro da Educação diz que falta
critério para os atendimentos, só que trabalhadores
não são apenas os operários. O governo
também diz que nossos cursos são elitizados. Ele
acha que tem de dar curso para pobre, aquela falácia
dos egressos do ensino público'', diz Luiz Francisco
de Assis Salgado, diretor-regional do Senac. ''A iniciativa
do governo é uma intervenção grave. Revela
manifesta desconfiança do trabalho que está sendo
feito pelos órgãos de formação profissional
do Brasil'', afirma Danilo Miranda, diretor-regional do Sesc.
Não é difícil ver quem tem razão
nessa polêmica. A iniciativa privada desenvolveu um eficiente
sistema de treinamento, aperfeiçoamento e qualificação
de mão-de-obra. E o governo, em vez de concentrar recursos
e esforços para melhorar a qualidade do ensino público,
mais uma vez invoca o ''social'' como pretexto para tentar interferir
na mais bem-sucedida experiência de ensino profissionalizante
que se fez neste país.
COMEÇA a se adensar o debate sobre a necessidade de
impulsionar a formação profissional, um preocupante
gargalo do desenvolvimento. A discussão foi desencadeada
pela proposta do Ministério da Educação de carrear para
o ensino técnico mais verbas do sistema S, conjunto
dos serviços sociais e de aprendizagem ligados a confederações
setoriais. É crucial que tal debate não desande em mera
medição de forças do governo federal com os serviços.
Já foi dito nesta página que instituições como Sesc
e Sesi gozam de merecido prestígio, por seu papel de
proa nas áreas de cultura, educação e lazer. Já os serviços
de aprendizagem, como Senai (indústria) e Senac (comércio),
poderiam dar contribuição maior. A proposta do MEC vai
nessa direção e merece ser debatida.
O ponto de discórdia está na proposta redivisão do bolo
da contribuição de 2,5% sobre a folha de pagamento das
empresas, obrigatória por lei. O MEC propõe inverter
a proporção atual, passando a destinar 60% para aprendizagem
técnica (40%, hoje) e reduzindo de 60% para 40% a fatia
do serviço social. Entidades como o Sesc protestam contra
o corte de um terço nos recursos. Alegam, com razão,
que tamanha redução de fundos inviabilizaria a continuidade
de boa parte de seu trabalho.
É desejável que o sistema S amplie a sua participação
no ensino profissionalizante, dado o interesse estratégico
das empresas, e da sociedade, de elevar a qualificação
da mão-de-obra. Mas é preciso fazê-lo de forma balanceada,
sem impor sacrifícios a instituições que prestam um
serviço social relevante -e sem que o Estado se apodere
do recurso, arrecadado do setor privado, que constitui
o sistema S.
Por questão de justiça, contudo, o debate sobre o financiamento
precisa transcender o sistema S e buscar outras fontes.
Os bancos, que -à diferença de industria e comércio-
não contribuem, deveriam ser convocados a participar.
O Fundo de Amparo ao Trabalhador poderia destinar à
qualificação profissional parcela mais significativa
do que 0,42% (dado de 2006).
Desatar o nó do ensino técnico tem de se tornar uma
prioridade nacional. Todos os setores envolvidos estão
convocados a dar sua contribuição.
Ministro
da Educação finaliza proposta que muda Sistema S
Publicada
em 28/04/2008 às 23h32m
O
Globo
BRASÍLIA
- Sob críticas da Confederação Nacional da Indústria (CNI),
o ministro da Educação, Fernando Haddad, assinou nesta segunda-feira
o texto final do projeto de lei que mexe no Sistema S. A versão
será submetida agora aos ministros Guido Mantega (Fazenda) e
Carlos Lupi (Trabalho), antes de seguir para a Casa Civil e,
de lá, para o Congresso. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva
não descarta a possibilidade de submeter o texto a consulta
pública.
O
projeto prevê que entidades como o Serviço Nacional de Aprendizagem
Industrial (Senai) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial
(Senac) usem o dinheiro da contribuição social das empresas
somente para oferecer cursos técnicos gratuitos a jovens que
tenham freqüentado escola pública (ou colégio particular como
bolsista integral). Quem fez supletivo também poderia ser atendido.
-
Este projeto tem um viés intervencionista - diz o presidente
da CNI, deputado Armando Monteiro Neto (PTB-PE), que semana
passada reuniu-se com Haddad e Lupi. A CNI editou uma cartilha
rebatendo críticas do governo: nega que o Senai seja elitista
e informa que 51% das matrículas são gratuitas.
A intenção do Governo Federal de fazer alterações no Sistema
S não é nova. Ainda em novembro do ano passado, no bojo das
discussões sobre a prorrogação da CPMF, o ministro da Fazenda,
Guido Mantega, a pretexto de desonerar a folha de pagamentos,
citou o valor de R$ 13 bilhões de reais arrecadados por ano
pelo Sistema S, como bastante elevado se comparado ao orçamento
dos Estados. Da intenção para a prática, o Governo Federal foi
bastante rápido. As primeiras propostas de mudanças no Sistema
S foram anunciadas no final de março, começo de abril, pelos
ministros da Educação, Fernando Haddad, e do Trabalho e Emprego,
Carlos Lupi. Criado há mais de 60 anos, o Sistema S é formado
por organizações criadas pelos setores produtivos como indústria,
comércio, agricultura, transportes e cooperativas, entre outras,
que têm como objetivo promover a formação profissional e assegurar
assistência social ao trabalhador.
Do Sistema S fazem parte as seguintes entidades: Serviço Nacional
da Indústria (SENAI), Serviço Social da Indústria (SESI), Serviço
Nacional do Comércio (SENAC), Serviço Social do Comércio (SESC),
Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), Serviço Nacional
de Aprendizagem em Transportes (SENAT), Serviço Social de Transportes
(SEST), Serviço Brasileiro de Apoio às Pequenas e Médias Empresas
(SEBRAE) e Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
(SESCOOP).
Todas elas são financiadas por meio da distribuição dos recursos
que hoje são usados nos próprios estados onde são arrecadados,
advindos de contribuições a partir de 2,5% sobre o valor da
folha de pagamento dos funcionários. No geral, são esses os
recursos empregados pelo SENAI na formação de mão de obra para
a indústria, pelo SESC no desenvolvimento de extensa programação
cultural a preços mais acessíveis para os brasileiros dos quatro
cantos do país, pelo SEBRAE na promoção de inúmeros cursos e
eventos para empreendedores, só para citar as organizações mais
conhecidas.
O ministro da Educação, Fernando Haddad fez várias críticas
ao Sistema S. Entre elas, a ausência de critérios para o atendimento,
a falta de gratuidade, público alvo elitizado, grande número
de cursos de curta duração e a falta de transparência na destinação
dos recursos. Disse ainda o ministro, que as mudanças visam
corrigir essas distorções, num momento em que o país precisa
atender jovens do ensino médio público que não chegam ao ensino
superior e às pessoas que precisam ser reinseridas no mercado
de trabalho.
Uma das alterações propostas pelo governo prevê que os recursos
destinados ao Sistema S sejam empregados na educação profissionalizante
gratuita de alunos de escolas públicas e de pessoas que recebem
o seguro-desemprego.
A outra propõe uma inversão nos percentuais atuais. O percentual
de 1,5%, atualmente destinado para as entidades com finalidades
sociais seriam destinados às entidades com finalidades de formação
profissional, que hoje recebem 1% e vice-versa.
Além disso, o projeto destinaria os recursos vindos de todos
os estados para cinco fundos contábeis correspondentes aos setores
das entidades - industrial, comercial, rural, de transportes
e cooperativismo - e o critério de acesso seria o número de
alunos matriculados gratuitamente em cursos técnicos presenciais
de nível médio.
Ao enfatizar a necessidade de mudanças, o ministro da Educação
disse ainda que a verba pública, arrecadada do contribuinte,
da sociedade, deve financiar o ensino gratuito, porque a falta
de educação profissional gratuita no país é justamente o grande
problema que temos hoje.
Sabemos ainda, que nos últimos anos, algumas das entidades do
Sistema S estão sob a mira do Tribunal de Contas da União (TCU).
Mas, não dá para fechar os olhos à importância e seriedade com
a qual algumas entidades do sistema realizaram a sua missão
de formadora de profissionais e cumpriram o seu papel social.
O TCU está cumprindo o seu papel, mas algumas dessas entidades
também cumpriram o seu, tanto que a proposta do governo, já
admitida pelo próprio ministro da Educação e também do Trabalho,
Carlos Lupi, é “aproveitar-se” de um sistema que deu certo para
suprir uma deficiência que ele não conseguiu superar, a de qualificar
mão de obra para permitir a inserção no mercado de trabalho.
Muitos são os brasileiros que já foram beneficiados pelo Sistema
S. Por isso as propostas de alteração dividem opiniões na própria
sociedade. A “entrada” do governo num projeto que deu certo
durante tantos anos, assusta. Mas a discussão está aberta.
Senac
e Sesc dizem que são transparentes e que terão de diminuir
atividades oferecidas se suas verbas forem cortadas
Governo afirma que não quer recursos do sistema, mas,
sim, garantir acesso de alunos da rede pública a cursos
profissionalizantes
CRISTIANE BARBIERI
DA REPORTAGEM LOCAL
A proposta de reforma do Sistema S apresentada pelo
governo causou comoção nas últimas semanas, em entidades
como Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial)
e Sesc (Serviço Social do Comércio).
"Se havia falhas com relação ao trabalho, que as
apontassem", afirma Danilo Miranda, diretor regional
do Sesc. "Eles fizeram uma intervenção grave, sem
ouvir nenhum funcionário das instituições."
O ministro da Educação, Fernando Haddad, afirma que
as discussões vêm sendo feitas com a representação nacional
das entidades, que não têm um controle centralizado.
"Não dá para conversar com 120 pessoas, dos cinco
S em 27 Estados diferentes", diz Haddad. "Estamos
em meio ao diálogo. Não quer dizer que vamos chegar
a um consenso, mas que está havendo diálogo, está."
Segundo ele, entre as propostas atualmente analisadas,
está, por exemplo, a possibilidade de criar uma regra
de transição para o uso das verbas do Sistema S. Isso
porque, segundo as entidades, parte do valor arrecadado
para o sistema será destinado à criação do Funtec (Fundo
Nacional de Formação Técnica e Profissional).
Assim, a distribuição dos recursos não acontecerá mais
apenas por percentuais fixos, mas será feita, entre
outros critérios, de acordo com o número de matrículas
gratuitas.
Algumas entidades como o Sesc, promotora de atividades
culturais de qualidade e a bom preço, temem ter de acabar
com um terço de sua estrutura, em razão de cortes.
O ministro diz que não é isso que acontecerá. "Da
maneira como é feita a repartição interna de verbas
no sistema, o Sesc fica com menos do que a proposta
que está sendo feita", diz Haddad. "Teoricamente,
eles teriam 1,5% sobre a folha mas, na prática, o que
vai para os departamentos regionais é muito menos do
que isso."
Acesso público
Com as mudanças, a intenção do governo é aumentar o
acesso, aos cursos profissionalizantes, dos alunos egressos
da rede pública de ensino.
O Senac, no entanto, discorda. Segundo Luiz Francisco
de Assis Salgado, diretor regional do Senac (Serviço
Nacional de Aprendizagem Comercial), em São Paulo, apesar
de haver oportunidades e vagas, elas não são preenchidas
por alunos de escolas públicas por falta de interesse
dos empresários, dos jovens e por deficiência em sua
formação.
"O egresso do ensino público é tão defasado, mas
tão defasado, que ele não consegue acompanhar",
afirma Salgado.
De acordo com ele, os alunos do Senac vêm de colégios
e resolveram seguir carreira técnica. "É para isso
que fomos criados", diz Salgado. "Não para
suprir as necessidades governamentais, mas sim para
dar o embasamento técnico."
Outro motivo que levou o governo a propor as mudanças
diz respeito a uma alegada falta de transparência e
eficiência nas instituições ligadas ao Sistema S. "O
governo está presente nos conselhos das entidades",
diz Miranda. "Eles fazem parte do órgão fiscalizador."
As entidades também questionam o fato de que o governo
dificilmente conseguiria ser mais eficiente na gestão
das verbas ligadas ao Sistema S. "Não pretendemos
administrar verbas", diz Haddad. "A proposta
não prevê que nenhum centavo do Sistema S passe ao governo.
O valor arrecadado deverá apenas financiar a gratuidade
de alunos que não possam pagar pela educação profissional."
Sesc
diz que atividades terão de ser
reduzidas em um terço
DA
REPORTAGEM LOCAL
Danilo Miranda, diretor regional do Sesc (Serviço
Social do Comércio) em São Paulo, diz que as atividades
da entidade serão reduzidas em um terço, caso o orçamento
diminua de acordo com a proposta do governo. Segundo
ele, as entidades podem ir à Justiça contra as mudanças
no Sistema S.
FOLHA
- Qual será o impacto no Sesc-SP se houver essas mudanças?
DANILO MIRANDA - A ação do governo é uma intervenção,
grave, efetiva no chamado sistema S. Esse documento
revela, primeiro, manifesta desconfiança do trabalho
que está sendo feito pelos órgãos de formação profissional
do Brasil, entre eles o Senac e o Senai. Em segundo
lugar, é uma falácia, dizendo que, em nome de uma formação
profissional nova, retira-se dinheiro de instituições
que trabalham no social e no cultura, que são Sesc e
Sesi.
FOLHA
- O governo alega que o Sistema S é uma caixa-preta
e por isso as mudanças seriam necessárias.
MIRANDA - Não admito. Não existe sistema S,
mas várias instituições vinculadas a um modo de agir.
Nós não temos nada a ver com Sesi e Senac, do ponto
de vista administrativo e financeiro. Temos um sistema
de fiscalização dos mais rigorosos. Temos não apenas
auditorias, como também conselhos fiscais com a maioria
do governo, inclusive representantes do Ministério do
Trabalho que assinam essa proposta com o da Educação.
Os organismos de formação profissional, o Senac e o
Senai, têm representante do Ministério da Educação em
todos seus conselhos. É um tiro no pé porque o ministério
poderia ter feito sugestões, se tivesse participação
efetiva.
FOLHA
- O governo então não tem participação efetiva no conselho?
MIRANDA - Eles têm assento, se não falam é porque
não querem. E agora fazem uma proposta à revelia de
todos os participantes do processo. Somos cerca de 120
mil funcionários do Sistema S no Brasil todo. Quantos
participaram dessas discussões? Todos são trabalhadores
remunerados, concursados. Estou há 40 anos na instituição.
Nunca tiveram a gentileza de nos convidar para uma reunião.
Desde o ano passado, estou tentando contato pessoal
com o ministro da Educação sobre isso. Fui recebido
há duas semanas por funcionário da área de formação
profissional, sendo que eu, como Sesc, não tenho nada
a ver com formação profissional. O chamado Sistema S
lida com formação profissional, e todo o restante do
chamado bem-estar social, incluindo saúde, educação,
lazer, cultura, esporte, transporte e vestuário é do
Sesc e do Sesi. Essas entidades foram criadas privilegiando
a formação profissional porque era uma necessidade naquele
momento. Criar fundo agora, com recursos dessas entidades,
para que o empresariado, com governo e trabalhadores
administrem esse recurso, como se fosse um recurso absolutamente
público e sem controle dos departamentos regionais e
técnicos, é uma intervenção pura.
FOLHA
- Em quanto seria reduzido o orçamento do Sesc?
MIRANDA - Em 33% da receita, hoje em R$ 30 milhões
por mês, no Sesc São Paulo. Perderemos R$ 10 milhões
ao mês.
FOLHA
- A parte de São Paulo nas verbas do Sistema S não é
maior? Ao todo não são R$ 8 bilhões?
MIRANDA - Não sei quem fez essa conta. Esse
montante seria somando no país as nove entidades ligadas
ao chamado Sistema S. Só que a caixa-preta é outra.
Não sabemos com exatidão como esse recurso é aplicado
em nível nacional e o montante do que é recolhido pela
Previdência e, hoje, pela Super-Receita. Temos questões
a respeito de arrecadação. Se há caixa-preta, não está
aqui, porque a nossa é publicada. Lá dentro, como é
distribuído esse recurso, a gente não sabe. Porque tem
fundo nacional de telecomunicações, fundo ligado à área
de transporte aéreo. Está tudo misturado nesses tais
terceiros da Previdência. Nós pagamos ao governo, que
tem essa máquina arrecadadora, para usar o sistema.
É um serviço prestado. O recurso não é público, no sentido
de participar do Tesouro. Esse dinheiro é carimbado,
como os recursos do fundo de garantia: é recolhido,
mas é do trabalhador. É obrigatório pagar, mas é destinado
a um fim específico. É uma intervenção radical, profunda.
FOLHA
- Por quê?
MIRANDA - Achava que era só sobre aquele montante
tirado do Sesc que teria a participação do conselho
do fundo, presidido pelo ministro. Mas não. Eles vão
administrar também os recursos que são do Senac e do
Senai hoje. E não aprofundaram o estudo. Tive uma reunião
com o sr. Getúlio Marques, responsável no ministério
pela educação profissional, que não sabia que os sistemas
financeiro e bancário não contribuem.
FOLHA
- Há o risco de as atividades do Sesc diminuírem?
MIRANDA - Nosso plano de expansão, quadro de
pessoal e atividades do dia-a-dia, tudo terá de ser
diminuído em um terço.
FOLHA
- Não seria possível fazer mais atividades com os mesmos
recursos que o Sesc conta?
MIRANDA - Não. O grande relatório diário que
fazemos está com as pessoas que vão a nossas unidades.
Há grande distância entre isso e dizer que é tudo ruim
e não funciona, não tem transparência, é uma caixa-preta.
A grande maioria, o que é mostrado efetivamente para
a sociedade, é uma realidade absolutamente diferente.
FOLHA
- Algumas pessoas dizem que o ministro Fernando Haddad
está sendo usado pelo presidente Lula.
MIRANDA - Se for verdade, é engano da parte
dele. Há quem diga que o Haddad faz isso para se credenciar
à sucessão do presidente. O único diploma que Lula tem
é do Senai. Isso sempre orgulhou as entidades que fazem
parte do sistema.
FOLHA
- Vocês estudam ir à Justiça caso o projeto seja levado
à frente?
MIRANDA - Sem dúvida, provavelmente, sim. O
projeto é pouco profundo sobre o artigo 240, que fala
com todas as letras que essas entidades são intocáveis.
Sesc e Senac foram criados e são mantidos pelo empresariado
comercial e de serviços para benefício de toda
a sociedade
NUNCA SE falou tanto na responsabilidade social dos empresários.
Porém, ao mesmo tempo, verifica-se inédita onda
de ataques e ameaças contra as mais consolidadas e
bem-sucedidas expressões do compromisso empresarial
com esse objetivo.
O equívoco das manifestações pela extinção,
diminuição ou fragmentação drástica
do chamado Sistema S começa pelo próprio rótulo,
útil como recurso de simplificação jornalística,
mas impróprio por misturar entidades autônomas,
diferentes em história, estrutura e forma de ação.
O Sesc (Serviço Social do Comércio) e o Senac
(Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), ligados
ao setor comercial e de serviços, foram criados nos
anos 40 do século passado por empresários que
se mobilizaram para oferecer, com recursos próprios,
melhores condições de vida e oportunidades a
uma classe trabalhadora urbana que crescia explosivamente.
Graças a essa iniciativa pioneira, o Brasil conta hoje
com uma estrutura nacional de originalidade e exemplaridade
reconhecidas mundialmente.
Em 2006, o conjunto dos departamentos regionais do Sesc nos
Estados e no Distrito Federal realizou cerca de 655 milhões
de atendimentos em programas de educação, saúde,
cultura, lazer e assistência. No mesmo ano, o Senac
atendeu perto de 2,1 milhões de alunos em todo o país.
Essas entidades de direito privado são objeto de intensa
fiscalização, tanto no que se refere à
aplicação de seus recursos quanto à excelência
de seu desempenho. Em nível estadual, Sesc e Senac
têm conselhos regionais formados por representantes
de empresários, trabalhadores e do governo federal.
Em nível federal, um Conselho Fiscal, com maioria de
representantes do governo, analisa e audita as contas, o que
também é feito pela Controladoria Geral da União
e pelo Tribunal de Contas da União.
Tão importante quanto as ações de órgãos
especializados é a fiscalização direta
pelo público. Semanalmente, cerca de 300 mil pessoas
freqüentam as 31 unidades do Sesc-SP, desfrutando de
condições de segurança, conforto, acessibilidade
e higiene pautadas por critérios internacionais. Predomina
o segmento de menor renda: 87% do 1,3 milhão de matriculados
no Sesc-SP têm renda familiar inferior a cinco salários
mínimos.
As 60 unidades do Senac-SP têm mais de 12 mil alunos
nos cursos técnicos e mais de 11 mil em graduação,
pós-graduação e extensão. Outras
308 mil pessoas passam anualmente por cursos livres, seminários,
palestras e eventos de formação, aperfeiçoamento
e atualização. Retratado com regularidade pela
imprensa, esse trabalho se realiza também por meio
de portais, SescTV, CDs e DVDs do selo Sesc e publicações
das edições Sesc e editora Senac.
Muitos projetos têm servido de modelo a políticas
públicas nas áreas social e educacional, caso
do Mesa Brasil Sesc, iniciativa contra a fome e o desperdício
de alimentos que, em 2007, complementou 260 milhões
de refeições servidas a pessoas carentes por
instituições sociais de todo o Brasil, com alimentos
doados que, de outra forma, seriam descartados.
Ou do trabalho social com idosos, iniciado em 1963. Ou ainda
do Dia do Desafio, iniciativa mundial de estímulo à
prática esportiva, coordenada no continente americano
pelo Sesc-SP. Da mesma forma, antecipando as demandas de um
mercado que se amplia e sofistica continuamente, o Senac foi
pioneiro no lançamento de cursos técnicos e
superiores em áreas como saúde, fotografia,
hotelaria, gastronomia, moda, turismo, gestão ambiental
e tecnologia da informação.
Isso sem descuidar da inclusão realizada pelo movimento
de redes sociais, de estímulo a novos projetos produtivos,
que compreende hoje 750 organizações ativas,
ou pelo programa Educação para o Trabalho, que
desde 1997 qualificou profissionalmente mais de 35 mil jovens.
Em resumo, Sesc e Senac foram criados e são mantidos
pelo empresariado comercial e de serviços para benefício
de toda a sociedade. Propor a extinção ou a
redução drástica das contribuições
que os sustentam, sem apontar alternativa viável para
sua manutenção, é ameaçar o país
com um retrocesso e mais exclusão dos cidadãos
menos favorecidos.
É desatino equivalente ao do escorpião da fábula,
que determina a própria desgraça quando não
resiste à tentação da ferroada mortal
na rã que, solidariamente, o conduzia à segurança
da margem.
ABRAM SZAJMAN, 68, empresário, é presidente
da Fecomercio-SP (Federação do Comércio
do Estado de São Paulo) e dos Conselhos Regionais do
Sesc (Serviço Social do Comércio) e do Senac
(Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial).
Como, criado e financiado pelos empresários, o Sistema
S impulsionou o desenvolvimento do País e mudou, para melhor,
a vida do trabalhador
O
mundo em convulsão, nações afundando em guerras, novas economias
emergindo no vácuo, comércio internacional crescendo – e o Brasil,
por sua vez, discutindo qual a melhor política para o desenvolvimento
da nossa economia. Esses fatos ocorreram em 1942, quando o Estado
Novo de Getúlio Vargas portava-se tal qual folha ao vento, ora
flertando com o nacional-socialismo, ora com o capitalismo,
sem conseguir decidir qual o papel que o governo deveria desempenhar
para impulsionar a industrialização em curso. Foi então que
o conde Ermelino Matarazzo reuniu seu pares na Confederação
Nacional da Indústria (CNI) e propôs a criação de um movimento
para que os próprios empresários financiassem o desenvolvimento,
sem esperar muito do governo. Foi assim que nasceu o Serviço
Nacional de Aprendizagem Industrial, o Senai. Mais do que simplesmente
suprir as necessidades de mão-de-obra qualificada para a indústria,
a partir das contribuições privadas, a instituição tinha o objetivo
de criar uma base – e efetivar um projeto – para o desenvolvimento
industrial.
De lá para cá, nesses 63 anos, muita água rolou. Da costela
do Senai logo surgiria um irmão siamês, o Serviço Social da
Indústria (Sesi), com o objetivo de fazer a promoção social
dos trabalhadores e de seus familiares, como ajudar a rede pública
a suprir as necessidades de assistência médica e odontológica,
por exemplo. Como era de se esperar de uma boa idéia, o sistema
seria copiado por outros setores da economia. A Confederação
Nacional do Comércio (CNC) criou seu próprio sistema em 1946,
o Sesc-Senac. O princípio era o mesmo: que os próprios empresários
financiassem o desenvolvimento do setor terciário da economia.
Em 1991, seria a vez da Confederação Nacional da Agricultura
criar o Senar, instituição que acumula as ações de formação
profissional e de promoção social dos trabalhadores rurais.
Por fim, há dez anos, a Confederação Nacional do Transporte
criaria os caçulas da família, o Sest, voltado à assistência
social, e o Senat, à formação profissional.
“A
educação tem de atender às demandas do setor produtivo”, lembra
o empresário Armando Monteiro Filho, presidente da CNI e do
Conselho do Sesi-Senai. “Neste momento em que o País enfrenta
o duplo desafio de se incorporar à economia globalizada e de
acompanhar a nova revolução tecnológica na produção, esse sistema
montado pelos empresários jamais foi tão essencial”, analisa
o empresário Clésio Andrade, presidente da CNT e do Conselho
Nacional do Sest-Senat.
Juntas, essas sete instituições formam um gigantesco sistema
privado de apoio aos trabalhadores, o chamado Sistema S. Também
faz parte do sistema o Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e
Pequena Empresa (Sebrae), instituição na qual os empresários
dividem a gestão com o governo e os trabalhadores. Com unidades
em 3 mil municípios, e em todos os 27 Estados da Federação,
o Sistema S só perde em capilaridade para as redes públicas
de ensino e de saúde. Separadas, cada uma dessas entidades está
entre as maiores organizações não-governamentais do País. Mas
elas trabalham em parceria, buscando a sinergia e a racionalização
na aplicação dos recursos – formando, portanto, a maior ONG
Origens:
Os primeiros cursos do Senai formaram mão-de-obra para
o desenvolvimento industrial; para atender os trabalhadores,
surgiu o Sesi
do planeta. Juntas,
têm 4.774 unidades e pontos de atendimento fixos em todo o País
e 15,4 milhões de
alunos matriculados por ano.
Ao
longo de sua história, o Sistema S já formou mais de 50 milhões
de trabalhadores. Somente
o Senai, o serviço mais antigo, registra nessas seis décadas
38 milhões de matrículas em seus cursos profissionalizantes.
Em 2004, cerca de 500 mil pessoas passaram pelas salas de aula
do serviço em algum de seus 265 cursos de Aprendizagem Industrial.
Pelo Senac, passaram nada menos que 1,9 milhão de aprendizes
ano passado. Os quatro serviços de assistência social, por sua
vez, atendem juntos a 8 milhões de pessoas por ano, entre trabalhadores,
familiares e a comunidade em geral. O maior deles, o Sesc, montou
uma infra-estrutura com 1.300 espaços esportivos, 821 cadeiras
odontológicas e 244 centros culturais. O Sest apresenta números
igualmente eloqüentes. Atendeu ano passado a 2,9 milhões de
pessoas; só de consultas médicas, foram 2,6 milhões.
Há
dois anos, com a chegada do PT ao poder, teve início um discreto
movimento para reformar o Sistema S, aumentando a participação
do governo na gestão. No Congresso, já há dois projetos tramitando
com o objetivo de fazer com que as contribuições das empresas
passem pelo caixa do Tesouro antes de parar no Sistema. Para
fazer funcionar o Sistema, as empresas recolhem uma contribuição
compulsória de 2,5% sobre a folha de pagamento. A guia de recolhimento
passa pelo INSS, que cobra pelo serviço e repassa o dinheiro
automaticamente para as instituições destinatárias. Para as
de ensino, como o Senai, o Senat, o Senac e o Senar, vai 1,5
ponto percentual. Para as instituições sociais, como o Sesc
e o Sesi, segue 1,0 ponto percentual. São os conselhos de administração
das instituições, formados por representantes dos empresários,
que fazem a gestão financeira do Sistema – sob a fiscalização
do Tribunal de Contas da União.
Contribuição
Ao longo de sua história, Sistema já capacitou mais de
50 milhões de trabalhadores
O
governo também indica representantes para os Conselhos de Administração
de algumas entidades.
Quando
avaliaram que era o momento de ultrapassar o projeto inicial
do Senai e decidiram fundar
o Sesi, em 1946, dois dos mais visionários empresários da história,
o paulista Roberto Simonsen e o carioca Euvaldo Lodi, justificaram
a instituição criticando os empresários que na época se perdiam
em competições pessoais, “com ausência total de espírito social
e de consciência de seu papel na vida do País”, conforme as
palavras de Lodi. Passadas quase seis décadas, a discussão essencial
é de outra magnitude. Quase a totalidade dos líderes empresariais
brasileiros trabalha para a construção de uma sociedade mais
justa e saudável. Isso já não se discute. Mas numa Era em que
a redução do intervencionismo do Estado na sociedade civil é
realidade e a onda de privatizações é planetária e irreversível,
o País tenta encontrar novos caminhos para o crescimento econômico.
Nesse ponto que vale lembrar que o Sistema S tem importantes
contribuições – e exemplos – a apresentar aos atuais formuladores
das políticas públicas de desenvolvimento. Vale conhecer os
exemplos.
O
QUE É QUE O SISTEMA TEM Números mostram a grandeza dos serviços prestados
à comunidade
pelo Sesi-Senai, Sesc-Senac, Sest-Senat, Senar e Sebrae
ENSINO
4.774 unidades e pontos de atendimento
fixos em todo o Brasil 2.301 diferentes cursos profissionalizantes 15,4 milhões de alunos matriculados
por ano
ASSISTÊNCIA
SOCIAL 86,2 milhões de atendimentos
médicos e odontológicos por ano 158 milhões de atendimentos em
ações de assistência social 29 mil voluntários e 2.500 empresas
parceiras para ações sociais
ESPORTE,
LAZER E CULTURA 9,2 milhões de participantes
e 139 milhões
de visitantes em atividades de esporte e lazer 74 milhões de visitas por ano a
220 bibliotecas
e 244 centros culturais, teatros e cinemas 14 mil leitos em hotéis e colônias
de férias para trabalhadores
EMPREENDEDORISMO 463 mil serviços de assessoria
técnica-tecnológica às indústrias 60 mil cursos, seminários e palestras
sobre empreendedorismo 38 mil expositores em 1,7 mil feiras
para a divulgação de empresas