"O Mago", de Abraão Batista / Reprodução
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Cordel e xilogravura completam cem anos de
histórias
IMMACULADA LOPEZ
O cordel chega ao século 21 afirmando seu lugar na cultura
brasileira. Artistas, leitores e pesquisadores fazem coro para dizer que não é algo do
passado nem folclore distante. Pelo contrário, o cordel continua vivo por força de seus
próprios versos. Mas também é certo que ele carece de maior apoio e incentivo, pois,
como toda arte tradicional, precisa encontrar estratégias de preservação e expansão no
atual mercado cultural.
Durante os meses de abril a junho, São Paulo comemorou a
importância desses versos populares publicados em folhetos de bolso. Vários cordelistas,
editores, ilustradores e estudiosos – além de repentistas, violeiros e emboladores
– se reuniram no evento "100 Anos de Cordel", realizado pelo Sesc Pompéia
para mostrar como anda a produção de cordel e xilogravura no país. "Muito se
repete que essas manifestações estão em extinção. Mas na verdade há dezenas de
artistas em plena atividade. É uma arte tradicional que não só sobreviveu às novas
tecnologias como sempre se apropriou delas", avalia Audálio Dantas, curador do
evento.
O pesquisador Roberto Benjamin, da Universidade Federal de
Pernambuco e da Comissão Nacional de Folclore, destaca que houve uma retração da
produção de folhetos a partir da década de 70. A indústria editorial brasileira entrou
em colapso e várias editoras populares e pequenos ateliês foram desativados pela total
falta de apoio e incentivo. Ele observa uma retomada nos anos 90, iniciando-se uma fase
gráfica contemporânea, com uso da informática e de impressoras mais modernas. De
qualquer forma, Benjamin garante que o cordel nunca esmoreceu.
E lembra que houve apenas uma crise de edição e nunca de
criação poética. Prova disso são as centenas de folhetos inéditos de velhos e novos
autores aguardando publicação. Um diagnóstico que se confirma em cada história contada
pelos artistas de diferentes gerações.
Arte viva
O cearense Abraão Batista escreve e xilograva há 31 anos.
Professor aposentado de biofísica, ele se encantou com o cordel ainda menino, com as
histórias contadas por sua mãe. Ela, pernambucana, e o pai, potiguar – ambos
romeiros de padre Cícero –, se conheceram e casaram em Juazeiro do Norte, no Ceará,
onde Abraão nasceu e vive até hoje.
Apesar de nunca ter sobrevivido da literatura, ele se
dedicou a uma produção intensa que já chegou a 190 títulos de cordel. Entre os
últimos, está o www.juizlalau.fhc. acm.corrupcao.ladrao.justica.cobica@ senadocamara.acodeacode.com.br,
lançado durante o evento do Sesc. Poeta, gravador, escultor e ceramista, Abraão aponta
os novos artistas, como seu filho Amurabi, como principal argumento de que o cordel nunca
esteve à beira da extinção. "Por que falam em sobreviver se nunca estivemos
morrendo? Acho que o cordel só acabaria se desaparecessem os artistas, o que é um pouco
difícil..."
A arte do cordel passa de geração para geração. O
pernambucano Marcelo Soares lembra as viagens que fazia com seu pai, José Soares, pelo
interior do estado para vender os folhetos que ele acabara de escrever – quase sempre
sobre os últimos acontecimentos políticos do Brasil e do mundo, e também sobre o
inesgotável assunto do futebol. O faro jornalístico e a agilidade de texto de José
Soares, falecido em 1981, o transformaram no maior poeta-repórter que o cordel já teve.
"Quando ele ouviu no rádio a notícia da morte do
presidente Juscelino Kubitschek, foi correndo preparar o folheto, imprimiu durante a noite
e no dia seguinte – antes dos jornais – vendeu a história como nunca",
lembra Marcelo. Por suas contas, são aproximadamente 310 folhetos publicados, além de
outros 150 inéditos. O esquema de distribuição montado por seu pai, com vários
vendedores pelas feiras do interior, estádios de futebol e outros locais de
concentração popular, permitiu que ele sustentasse a família com a literatura. O
trabalho era grande, e Marcelo participava dele.
"Como havia pressa em imprimir os folhetos, meu pai
perguntou se eu não podia fazer algumas capas de xilogravura para suas histórias."
Sem muita certeza, Marcelo entrou na arte que deu rumo à sua vida.
Além das mais de 50 xilogravuras preparadas para folhetos
do pai e de outros escritores, aperfeiçoou seu traço na criação de álbuns e gravuras
avulsas. Estudou artes visuais, aprendeu novas técnicas e incorporou o uso da
computação gráfica. "No começo, tinha receio, mas percebi que, se os pioneiros do
cordel estivessem vivos, certamente estariam usando as facilidades das novas
tecnologias."
Com 45 anos e quatro filhos, Marcelo vive hoje em
Timbaúba, interior pernambucano, onde criou a Edições Prelo. Na sua
casa-editora-ateliê, escreve, ilustra e edita seus próprios folhetos. Faz gravuras,
inclusive para capas de livros e CDs, e produz cartões-postais, além de lançar
caprichosas edições de obras poéticas, com papel reciclado, gravuras e embalagens
especiais. De tudo isso, o que mais gosta é de tirar desenhos da madeira, na arte da
xilogravura. O que faz todo dia, sem exceção. Ele acredita que esse trabalho pode
representar um bom futuro também para seus filhos.
Tempos difíceis
As secretarias de cultura e universidades públicas ainda
não demonstram muita firmeza em relação ao cordel – apesar do discurso de
valorização da arte popular. Em Juazeiro do Norte, por exemplo, fica a mais antiga
gráfica de cordel do Brasil: a Lira Nordestina. A Lira foi criada na década de 30 por um
dos maiores difusores de folhetos no país, o alagoano José Bernardo da Silva, que
permaneceu atuante até os anos 60. Na época, chamava-se Tipografia São Francisco, mas,
com a morte de José Bernardo, foi vendida ao governo cearense e depois doada à
Universidade Regional do Cariri, que a coordena até hoje.
"Mas, quando a gente pensava que tudo ia melhorar, a
Lira caiu no abandono", diz o gravurista José Lourenço Gonzaga, atual gerente da
gráfica. Com dois funcionários, a Lira lançou seu último título em 1982, e hoje os
cordelistas só trabalham por encomenda, pois há falta de tinta, madeira e papel. É
geral o desânimo com o abandono e a carência de recursos, mas José Lourenço acalenta a
idéia de que a situação pode melhorar com a nova administração da prefeitura. Há
vários anos dorme nas gavetas do governo um projeto para revitalizar a gráfica,
transformando-a em um museu vivo do cordel e da xilogravura.
Enquanto isso, os artistas tentam trabalhar com os recursos
que têm. Pelo menos dez gravadores fazem da Lira seu ponto de encontro constante. "A
maioria não tem ateliê em casa e depende de pequenas gráficas para imprimir seus
trabalhos. Então eles se encontram na Lira para trocar experiências e
informações", diz Gilmar de Carvalho, pesquisador da Universidade Federal do Ceará
e grande incentivador dos artistas locais. Entre eles está o próprio José Lourenço,
que desenvolveu seu talento ali mesmo, junto às máquinas da Lira.
Ele começou a freqüentar o local ainda menino,
acompanhando o avô, que aparava os folhetos, cortando papel. E era ouvinte de muitas
histórias: "Lembro que passávamos noites inteiras, na roça, sentados em roda,
ouvindo alguém contar as histórias dos folhetos, e muitos até choravam", diz ele.
Alguns anos depois, José Lourenço foi contratado para
trabalhar na gráfica como tipógrafo e impressor. "Foi onde aprendi a ler e a
escrever, pois sou de uma família de cinco irmãos e não tive tempo de estudar."
Com o tempo, e por acaso, também começou a desenhar. "Havia uma encomenda, o
gravurista estava viajando e o editor me viu brincando com as madeiras. Então me pediu
para fazer a capa." Aos 21 anos, preparou assim sua primeira xilogravura. Pegou
gosto, e hoje, 15 anos depois, já tem mais de 150 capas assinadas, dezenas de gravuras
avulsas e alguns álbuns, que vende na própria gráfica e também em eventos para
turistas e visitantes.
Ao lado da histórica Lira Nordestina, que preserva um
processo de produção artesanal, vêm surgindo novas editoras, incorporando as
tecnologias mais modernas. Entre elas, destaca-se a Tupynanquim, em Fortaleza. Criada em
1995, começou trabalhando com livros didáticos e de literatura popular e, há dois anos,
entrou no mercado do cordel, que já representa 90% de sua produção. São 110 títulos
publicados – dos cordelistas clássicos a novos autores, como o próprio dono da
editora, Antônio Klévisson Viana, que iniciou seu envolvimento com o cordel como leitor.
Primeiro foi o avô, e depois o pai, que reunia os filhos após o trabalho na roça para
ler as histórias dos folhetos. Em 1998, aos 25 anos, Klévisson ensaiou seus primeiros
versos, percebendo, como editor, que o cordel ainda tinha mercado. "Um dos problemas
era a péssima qualidade da publicação", avalia ele.
Na Tupynanquim, cada cordel passou então a receber
composição gráfica computadorizada e impressão em offset. Às vezes, um mesmo
título tem uma capa com fotografia – preferida pelo leitor mais popular –, e
outra com xilogravura – procurada por turistas e pesquisadores. Na opinião de
Klévisson, essas mudanças não arranharam nem um pouco a essência da arte. "O que
torna um cordel autêntico é o estilo da poesia, e não a capa ou o tipo de
impressão." Ele sempre tirou proveito das novidades tecnológicas, como o jornal, o
rádio, a televisão e, agora, o computador.
Cada título da Tupynanquim tem uma tiragem média de 5 mil
exemplares, distribuídos em cerca de 30 pontos-de-venda. O preço médio é R$ 1. Segundo
Klévisson, há três públicos principais: o leitor tradicional popular, que freqüenta
as festas de padroeiro, feiras e mercados, o pesquisador e o turista. "Meu sonho é
que esse mercado cresça muito. E acredito que a escola poderia ter um papel essencial se
incluísse o cordel como material didático. Afinal, ela tem uma dívida enorme com o
cordel, que ajudou a alfabetizar muita gente por aí."
A origem
Não se conhece a data exata de nascimento da literatura de
cordel no Brasil. Sabe-se que os primeiros folhetos chegaram pelas mãos dos portugueses e
espanhóis e que, na segunda metade do século 19, alguns poetas nordestinos já imprimiam
as primeiras histórias. A virada para o século 20 marcou o início das impressões
comerciais, com folhetos produzidos e vendidos por todo o sertão – essa é a razão
da comemoração de cem anos de cordel.
Nas feiras, mercados e festas de padroeiro, os folhetos
eram espalhados em um pano no chão, colocados em cima de uma mala ou caixote ou até
mesmo pendurados em cordões – daí vem o nome mais recente de "cordel". De
forma simples e contundente, os autores populares levavam para o povo a realidade e a
fantasia. Durante décadas, esse foi praticamente o único meio de comunicação ao
alcance do sertanejo.
As histórias de cordel são contadas em versos,
preferencialmente em sextilhas – estrofes de seis versos com a rima nos versos pares.
No formato tradicional, são quatro versos em cada página, somando no mínimo oito
páginas – é o chamado "folheto". Mas também podem ser 16, 24, 32 ou mais
páginas, publicações conhecidas como "romances".
O cordel nasceu com a impressão das histórias de
tradição oral, muitas vezes cantadas pelos violeiros – por isso, até hoje, é
forte a ligação entre o cordel e as cantorias do repente e da embolada.
Os temas das histórias foram se diversificando, mas alguns
conquistaram de forma especial a imaginação popular. Entre eles estão o cangaço (e seu
destemido personagem Lampião), a religiosidade (com os venerados padre Cícero e frei
Damião), a fantasia (e os históricos Pavão Misterioso e Cachorro dos Mortos), o romance
(com donzelas e cavaleiros), a esperteza (dos consagrados personagens João Grilo, João
Leso e Pedro Malasartes) e a política (com seus vários presidentes e planos
econômicos).
Cada vez mais é reconhecida a importância literária e
também histórica do cordel. No livro História do Brasil em Cordel,
recém-lançado pela Edusp, o brasilianista norte-americano Mark Curran demonstra que pelo
menos cem anos de história do Brasil estão registrados, comentados e recodificados nas
páginas dos folhetos. Da Guerra de Canudos, no final do século 19, ao impeachment do
presidente Fernando Collor, nos anos 90, os principais episódios da vida nacional marcam
presença nos versos dos cordelistas.
Curran observa que não faltam títulos sobre crimes,
enchentes e questões sociais, como crianças abandonadas, divórcio, aborto, racismo,
ecologia e Aids, mas a política e a economia são a matéria-prima predominante das
histórias de maior repercussão. São crônicas poéticas escritas para o povo, na
perspectiva de autores populares, na sua linguagem.
Em plena renovação, o cordel vai acompanhando os temas da
atualidade, como também incorporando as novas tecnologias de produção e divulgação.
Não só a tipografia cedeu lugar para o offset e a computação gráfica, como a
própria Internet já é usada para difundir obras. O principal pólo produtor continua
sendo o nordeste, mas o cordel também migrou para os centros urbanos do centro-sul.
Arte gráfica
Embora ótimos companheiros, o cordel e a xilogravura nem
sempre andaram de mãos dadas. Apenas na década de 30 as capas dos folhetos começaram a
ser ilustradas com desenhos cortados na madeira e carimbados no papel. A produção estava
se intensificando e era necessário ganhar agilidade: "Em vez de esperar os clichês
das capas chegarem da capital, os editores de Juazeiro do Norte começaram a encomendar as
ilustrações para os santeiros e artesãos da cidade", conta o pesquisador Gilmar de
Carvalho. Na sua opinião, o cordel ganhou assim um papel decisivo para o desenvolvimento
e a difusão da xilogravura popular, criando uma forte ligação entre as duas artes.
A partir das primeiras encomendas, os gravuristas foram se
aprimorando e ampliando a criação. Tanto assim que, ainda hoje, Juazeiro é considerada
o maior centro produtor de gravura popular do país. Para além das capas dos folhetos, os
artistas começaram a produzir gravuras em novos tamanhos, como também conjuntos
temáticos, reunidos em álbuns. Cada obra rende uma tiragem limitada, muitas vezes
impressa por partes em pequenas gráficas populares ou em ateliês artesanais próprios.
"Apesar das dificuldades, a xilogravura popular foi
conquistando novos espaços, inclusive o circuito cultural dos museus e das
universidades", diz Carvalho. Ele ressalta que não é uma arte nostálgica ou
estagnada. Ao contrário, está em constante renovação, incorporando novas temáticas e
o experimento de técnicas.