Eterno baiano

13/04/2020

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Onde o céu se enfeita de estrelas nasceu Antônio Carlos Moreira Pires no dia 8 de julho de 1947. No sertão baiano, mais especificamente no município de Ituaçu, Moraes Moreira já se alimentava de música. Até encontrar em Salvador, na adolescência, o violão e uma turma de amigos com quem formaria os Novos Baianos, marcando para sempre a história da música brasileira. Entre os anos de 1969 e 1975, compôs com Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Luiz Galvão e Paulinho Boca de Cantor canções que desafiaram a ditadura e contagiaram os jovens com a mesma alegria que Moraes dizia ser ingrediente essencial da banda. Na carreira solo, teve como grande êxito Pombo Correio, canção que não só “estourou nas paradas de sucesso”, como o próprio artista já disse, mas que também deu um recado aos brasileiros: Moraes se faz e se refaz pela música. Aos 72 anos, quatro dias antes de falecer, devido a um infarto agudo do miocárdio, o cantor, compositor e “cantador”, como preferia ser chamado, concedeu uma entrevista à Revista E. Nela, confiou ao editor e amigo Miguel de Almeida memórias, percalços, saudades e mesmo a dificuldade em lidar com o atual contexto de reclusão. “Tá chato demais esse negócio de quarentena… Insuportável”, confessou. Também movido por esse momento da história mundial, escreveu uma poesia em sua fanpage no Facebook, mais uma vez, apontando para o otimismo e alegria que o acompanharam ao longo da vida:

“Nem tudo aquilo que assombra
À escuridão nos reduz
Ouvi dizer que onde há sombra
É certo que haverá luz.”

Deu certo. Hoje, a festa é no céu, onde fagulhas, pontas de agulhas, brilham estrelas de Moraes Moreira. 

“Os Novos Baianos ainda são e, pelo jeito, ainda vão continuar sendo, um grupo que marcou não só os anos 1970 como vem marcando a vida dos brasileiros”


Ouça a entrevista:


Olhando agora, o que foram os Novos Baianos?

Os Novos Baianos ainda são, ainda serão e, pelo jeito, vão continuar sendo um grupo que marcou não só os anos 1970 como vem marcando a vida dos brasileiros, dos pais de brasileiros dos anos 1970, que fizeram a cabeça dos seus filhos com nossos discos, nossas poesias, nossas músicas. Depois dos pais veio a internet e começaram a ver nossa vida no sítio, nossa filosofia de vida e descobriram que éramos não só um grupo que tocava e cantava junto, mas que também vivia junto. E isso foi interessando muito o pessoal. Teve um show em Curitiba em que uma menina de 17 anos chegou para mim e disse: “Eu queria ter nascido no sítio para morar lá com vocês naquela época”. Foi realmente um movimento porque a gente se propôs a tocar junto, morar junto, criar junto, jogar bola junto, brigar junto, entendeu? Dividir a tristeza e a alegria. Tristeza quase não há porque a gente é muito alegre. O pessoal do Partido Comunista dizia que nós não servíamos para ser do partido porque éramos muito alegres. Então, os Novos Baianos continuam sendo, de qualquer maneira, e agora é no musical Novos Baianos [que esteve em cartaz no Sesc Vila Mariana em dezembro de 2019]. Então, é um grupo que marcou o Brasil e em todo momento em que o Brasil tem dificuldade, os Novos Baianos aparecem para levantar a autoestima do povo brasileiro.

O que achou do musical?

Tive uma discussão com Baby. Por causa do musical sobre os Novos Baianos. Ela não queria que aparecessem drogas etc. Ora, que chateação. Havia drogas, sim, como havia alegria e música o tempo inteiro. Não dá para depois de velho querer apagar coisas de nossa juventude. Não dá para esconder, isso é meio ruim. Não dá para mudar a história, né? Éramos daquele jeito que apareceu no musical, sim. Meninos de 21 anos nos representando superbem, tocando muito. O cara que faz Moraes Moreira… Parecia que era eu que tava no palco. Maravilhoso.

Como foi a construção daquela sonoridade? Pepeu mais roqueiro, você mais MPB. Quais eram os pontos de intersecção?

Tudo em um lugar. Eu, no interior da Bahia; Pepeu em Salvador, nos conjuntos de iê-iê-iê, tocando Beatles; Paulinho Boca de Cantor, crooner de orquestra; Galvão, nessa época era engenheiro, mas já era poeta desde menino, porque aprendeu com João Gilberto em Juazeiro da Bahia a ser poeta e sonhar em ser poeta. Foi ele quem trouxe o João Gilberto para os Novos Baianos. No começo, nós éramos roqueiros, toda aquela geração dos anos 1960 para 1970 influenciou bastante a gente – Jimi Hendrix, Janis Joplin… Éramos fãs. Quando João Gilberto chegou e pediu para eu cantar eu cantei: “Não se assuste pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa”. Muito rock. João olhou aquilo tudo quando foi na nossa casa e disse: “Tá legal. Mas vocês precisam olhar para dentro de vocês mesmos.” Foi aí que ele mudou a nossa vida. Principalmente quando ele cantou: “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”.

Qual foi de fato a influência de João Gilberto nos Novos Baianos?

Nossa brasilidade quem trouxe, quem despertou foi João Gilberto. Uma brasilidade que se misturou com o nosso rock, com nossa forma de tocar. Nós ouvimos a forma de João tocar e misturamos com a nossa forma de tocar, entendeu? E deu nesse rock brasileiro, nessa mistura de guitarra elétrica com violão, de acústico com elétrico, sem preconceito nenhum. E isso resultou no samba dos Novos Baianos.

Na década de 1970, como a política dos militares pesava na sua produção musical?

Parece que na ditadura foi a época em que mais se tocou música brasileira. Eu estourei no rádio com o Forró do Abc, Alceu Valença estourou com Manga Rosa, outros estouraram. As gravadoras estavam fortes e a gente também estava nessa época. Então tinha o lado pesado da censura que a gente driblava com nossas letras, que eles não entendiam. Por isso, a censura não pegou muito a gente. Primeiro porque eles achavam que nós não éramos comunistas, achavam que éramos muito loucos para ser comunistas. Então, pegavam a gente para dar baculejo [busca pessoal, revista] e soltavam de novo.


Sesc Pinheiros 2009 | Foto: Isabel DElia  

Os Novos Baianos são vistos como uma ponta de prazer dentro daquele universo de música engajada, politizada. Vocês eram cobrados para serem mais politizados?

Os Novos baianos nunca fizeram música engajada. Você nunca ouviu os Novos Baianos dizerem: “Abaixo à Ditadura”. Novos Baianos diziam: “Vou mostrando como eu sou e vou sendo como posso”. Entendeu? Novos Baianos diziam outra coisa, era outra linguagem, não era panfletária. A música dos Novos Baianos é muito diferente de tudo. Me desculpe os outros grupos que cantaram perto. Depois da gente vieram os Secos e Molhados, músicos de Minas Gerais… De todo canto vinha um grupo musical. Mas confesso que os Novos Baianos têm uma marca muito forte de música, de poesia. A gente, realmente, era o grupo brasileiro com força rock’n’roll que, talvez, mais representasse o Brasil naquele momento. E a gente fez e correu atrás. A gente fez Acabou Chorare, a gente fez Os Novos Baianos Futebol Clube, fizemos muitos discos bonitos, gravações bonitas. Aprendemos com João Gilberto o rumo das coisas.


“A meninada que não queria mais saber de cavaquinho e bandolim
começou a se interessar pelo que era “coisa de velho”.
Então, os Novos Baianos prestaram mais esse serviço à música brasileira”
 

Em 1970, havia a pressão para buscar uma brasilidade em oposição ao que se dizia da música estrangeira. Como isso refletia na sua produção?

Fizemos essa alquimia de guitarra, violão, cavaquinho, bandolim. A meninada que não queria mais saber de cavaquinho e bandolim começou a se interessar pelo que era “coisa de velho”. Então, os Novos Baianos prestaram mais esse serviço à música brasileira: a juventude brasileira começou a conhecer Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, essa turma toda do instrumental brasileiro. Waldir Azevedo foi o primeiro lugar em paradas de sucesso com Delicado, e Brasileirinho ficou em segundo lugar. Entendeu? Em rádio mesmo, na parada, ganhando dos cantores. Eles tinham muito ciúme do Waldir, tanto que no Rio não se toca muito Waldir Azevedo. No mais, é toda aquela influência da música dos anos 1930: a gravação de Samba da Minha Terra, de Dorival Caymmi, é marcante, como é marcante a gravação de Brasil Pandeiro, de Assis Valente, que nós fizemos e que parece música nossa.

Vocês foram presos por causa de drogas, “vagabundagem”. Eram perseguidos por serem cabeludos?

A gente foi preso por causa de tudo, muitas vezes, e perseguidos por sermos cabeludos, mas eles diziam: comunistas eles não são, porque são muito loucos. Então, eles acabavam liberando a gente. Não foram poucas as vezes que nós fomos parados para averiguação e tal. De vez em quando, um carroção parava no nosso sítio em Jacarepaguá (RJ) porque eles gostavam de conversar com a gente, mas a gente morria de medo. Era um momento que a gente levava de uma maneira incrível. Parecia que a gente estava driblando tudo, entendeu? Driblando tudo e passando por aquilo tudo e vivendo com alegria, trazendo alegria. Era impressionante a nossa posição diante daquela dureza toda de AI-5 e de tantas coisas que vieram.

Como foi a vida no sítio, vivendo em comunidade?

Fui bastante feliz. Minha primeira filha, Ciça, nasceu quando a gente se mudava do apartamento de Botafogo para o sítio. Da maternidade, ela foi para o sítio, e logo depois veio o Davi. A vida era caótica. Em termos de organização, não tinha aquela comida certa, não tinha nada. Então, para as crianças começava a ficar muito pesada aquela vida que a gente levava. Era correr para buscar leite para as crianças, e de noite o pessoal fazia mingau com o leite. Uma loucura. Era uma vida que não tinha regularidade que favorecesse uma criança a se desenvolver sã e crescer saudável. Então, quis muito naquele momento, e Marília me questionava muito isso: quis muito continuar no grupo e morar em outro lugar. Batalhei por essa alternativa, mas não foi aceita. Naqueles tempos, acho que começava a abertura no Brasil e pensei que os Novos Baianos, aquele grupo bem fechado, tivessem começado também um pouco a sua abertura. Mas foi um engano muito grande. Eles não aceitaram que eu saísse para morar em outro lugar e tive que sair sozinho.

Que dificuldades surgiram com a saída do grupo?

Deixei tudo lá. Tive que começar tudo de novo. Minha saída dos Novos Baianos foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. Sair dos Novos Baianos era loucura, uma barra pesada. Tinha que ter muita coragem eu tive que ter muita coragem para sair e saí num dia assim: todo mundo triste e tal, mas eu saí. Saí, fui morar com Marília e meus filhos, e foi aí que a gente continuou a vida, os meninos crescendo… Aí eu e Marília tivemos uma nova separação, eu comecei a fazer sucesso, gravar Pombo Correio, gravar outras músicas, mas Pombo Correio, principalmente, que me levou ao sucesso, que foi para as paradas de sucesso. A abertura de Pombo Correio é minha. Lincoln Olivetti fez o arranjo a partir de uma abertura que sugeri a ele, que já havia nascido com a canção. Todos elogiavam a abertura pensando que fosse dele. Eu sempre disse: “Reivindico essa introdução! Ela é minha!” De todos os produtores com os quais trabalhei, Lincoln era um dos mais criativos. Era de fato um arranjador, mais do que um produtor. Comecei minha carreira solo já reconhecido como Moraes Moreira e não simplesmente um ex-Novos Baianos. Eu parti para fazer sucesso não só comigo, mas também com outros cantores. Entrou o segundo disco, Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, Forró do Abc, Meninas do Brasil. Minha carreira solo gravada por Simone, Maria Bethânia, por Gal Costa, com a música Festa do Interior e que estourou no Brasil todo. Por aí foi minha vida: fui levando e compondo.

Que outros grandes parceiros você destaca ao longo da carreira?

Compus com vários parceiros. Compus com Galvão, meu parceiro do começo, talvez o meu maior parceiro em número de músicas e de vivência. Depois que saí dos Novos Baianos, o Fausto Nilo foi o parceiro com quem eu fiz muitas canções: Meninas do Brasil, Eu Também Quero Beijar, Chão da Praça, Bloco do Prazer… Várias canções de sucesso fiz com Fausto Nilo. Depois, também fiz canções de sucesso com Abel Silva. E com Antonio Risério principalmente aquelas canções com marcada matriz africana. Tanta gente com quem compus, tantos parceiros. Jorge Mautner, grande parceiro… Paulo Leminski, que virou “curitibaiano”, a gente tem mais de 20 músicas inéditas, eu e Paulo Leminski.

Durante um período você foi identificado como um compositor de músicas de Carnaval. Como é fazer canções para serem cantadas pelas multidões?

O meu estouro no Carnaval se deu com a parceria com o trio elétrico de Dodô e Osmar, os criadores e inventores do trio. Eu me aproximei deles pelo Armandinho, que eu queria que tocasse comigo. Fui conhecendo aquele repertório maravilhoso do trio, porque eles faziam tudo: faziam o caminhão, faziam as músicas, faziam os instrumentos que eles mesmos tocavam. Maravilhoso o trio elétrico. Então, entrei no Carnaval da Bahia com muito sucesso. Botei letra em Pombo Correio em 1976, sendo que a música foi feita em 1952. O Carnaval virou uma coisa a mais na minha vida. Tenho muitas músicas, Chão da Praça e Chame Gente, que depois tomou conta e se tornou hino no Carnaval da Bahia. Dodô e Osmar me proclamaram “primeiro cantor do Carnaval da Bahia”, porque não tinha cantor antes, era só instrumental. E eu continuo até hoje, ainda balançando o chão da praça.

Você é bastante confundido com Alceu Valença e Alceu é bastante confundido com você. Por acaso, vocês dois são compositores com canções de muito sucesso popular. Existe algo parecido entre vocês dois, além do cabelo comprido?

Essa confusão que fazem de Moraes Moreira com Alceu Valença ou de Alceu Valença com Moraes Moreira não sei de onde é. Onde encontram essa similaridade. Porque tenho bigode, ele não tem, e a gente é bem diferente, nosso rosto é diferente. Nossa fisionomia é diferente. Agora, a gente é cabeludo, é da mesma geração. Então, deve ser por aí, como falei na música Pernambuco é Brasil. Deve ser porque eu escrevo e gosto muito de frevo, de maracatu. Sempre fui muito ligado ao frevo pernambucano. Mas essa é uma brincadeira muito legal. A gente curte muito, eu e Alceu.


Sesc Pinheiros 2019 | Foto: Pedro Abude


“Tudo assim inacreditavelmente fácil: Preta, preta, pretinha.
Um refrão desse, pô, isso vale tudo.
Então, foi assim, foi no vento, na inspiração e na piração” 


Como foi fazer Preta Pretinha?

Foi como uma melodia que o vento soprou. Eu nem acreditei e falei: “É plágio essa melodia, não é possível que ela não exista ainda”. Mas depois, vi que não existia. Ela veio muito natural: a letra, a música. Tudo assim inacreditavelmente fácil: “Preta, preta, pretinha”. Um refrão desse, pô, isso vale tudo. Então, foi assim, foi no vento, na inspiração e na piração.

No disco Acabou Chorare, qual sua canção preferida? Qual seria o grande achado na sua opinião? Ainda mais porque o disco foi escolhido como um dos mais importantes da história da MPB.

Eu gosto de todas as canções. É um disco que amo, que adoro. É uma bíblia para mim. Sempre que tenho qualquer dúvida, eu volto pra Acabou Chorare. É uma fonte, uma fonte que nunca seca e está sempre inspirando coisas. Aquela fórmula, aquele lugarzinho ali que a gente acertou e cantou. Aquilo ali é tudo. Mas das músicas que mais gosto, Preta Pretinha é uma delas. E das músicas que mais me intrigam pela sua complexidade, Mistério do Planeta. Tanto pela letra quanto pela música. Se você me perguntar que ritmo é Mistério do Planeta, eu não vou saber lhe dizer. E se alguém souber que me diga. É por isso que eu digo que a música dos Novos Baianos é diferente mesmo. Até agora não vi um grupo que eu possa dizer que pareça muito com os Novos Baianos. Não quero dizer que a gente é melhor do que ninguém, mas isso que falo é verdade. Para mim é verdade.

Daqui para a frente, o que serão Os Novos Baianos?

As pessoas querem saber meus dias do passado. Isso é que era vida. Isso que os meninos querem saber, como que era, era risada o tempo todo, era criatividade o tempo todo, era vida o tempo todo. Quando alguém perguntava: Que horas vocês ensaiavam? A gente falava: “Não… Nossa vida era um ensaio”. Era fazer música e jogar bola. Jogava bola, mas parei há algum tempo. Mas jogava de bossa, nunca pensei em ser profissional. Era isso, entendeu, era isso o tempo todo que a gente buscava. Apesar de tudo, apesar das dificuldades, apesar da fome, apesar da repressão que não era aquela de mandar a gente embora daqui, mas era aquela de dar dura na gente toda hora. E tudo isso, tudo isso foi muito presente na nossa vida, dos Novos Baianos, mas a gente conseguiu atravessar a tudo isso e espero que a gente consiga atravessar a muito mais ainda.


“Sou um violeiro na estrada,
reparando as coisas da vida.
Um cantador é isso o que sou”
 

O que mudou em termos de produção musical?

Eu agora sou artista popular, sou cordelista, sou um cantador, estou fazendo minha passagem de cantor para cantador, entendeu. Sou um violeiro na estrada, reparando as coisas da vida. Um cantador é isso o que sou agora. Depois de velho baixou o poeta. Estou fazendo música e escrevendo sem parar. Estou adorando escrever, viver essa coisa de ser poeta. Música e poesia aparecem na minha cabeça o tempo inteiro.

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