Negras Narrativas: perspectivas afrocentradas escrevividas no Sesc Bauru

22/03/2022

Compartilhe:

Por Bianca Santana

Dois mil e vinte e um. Ano dois da pandemia por COVID-19. Toda última quinta-feira do mês, entre março e novembro, um encontro virtual transmitido pelo canal do YouTube do Sesc Bauru para tratar de diferentes temas de modo afrocentrado.

“Até que os leões tenham suas próprias narrativas, as histórias de caça seguirão glorificando o caçador”, ensina o provérbio africano citado em um dos encontros. Até que pessoas negras disseminem suas próprias narrativas, sociedades racistas, forjadas pelo colonialismo, seguirão produzindo indesejáveis – os chamados “outros”- a quem se oferece estigma e morte. Mais que reafirmar as importantes denúncias de que vivemos em um país racista, a programação do Sesc Bauru, na figura da monitora de esportes, Denise Rosa, nos convidou a contar “a história que a história não conta” sobre mulheres, saúde, esporte, imprensa, América Latina, África, ciências  e tecnologia, corpo, corporeidade, educação e arte. “Brasil, chegou a vez/ De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês.”

A tradição iorubá abria os caminhos a cada encontro. Na abertura, a performance em vídeo de Gael Gramaccio evocava, nas matas, a flecha certeira de Oxóssi, carregada da sede de justiça de Xangô. Não teve dificuldade técnica que impedisse a conversa. Davison Alvares, algumas vezes acompanhado por Reginaldo Alves, cuidava de luz, som, enquadramento e conexão. As intérpretes Sarah Lis e Joyce Souza tornavam as conversas mais acessíveis pelas Libras. Eu, Bianca Santana, em vez de mediar os debates, tentava fazer a gira girar, incentivando quem nos acompanhava a fazer perguntas e buscando abrir possibilidades para que convidadas e convidados aprofundassem o que havia sido apresentado inicialmente. Denise Rosa, a anfitriã, dava tom no início da conversa e oferecia sínteses preciosas nos fechamentos. A auto audiodescrição, que demorei a aprender a falar, ajudou a tornar a conversa mais acessível a pessoas cegas ou com baixa visão quando trazia informações sobre a imagem de cada participante: tom de pele, tipo de cabelo, cor da roupa, ambiente.

Como já linquei acima, cada conversa está disponível em vídeo, na íntegra, no canal do Sesc Bauru. Basta reservar tempo e se conectar à internet para aprender com a experiência. O objetivo deste texto, portanto, não é reproduzir os detalhes de cada conversa. Mas propor um convite — com as limitações do meu olhar — para quem (como eu) se instiga pela linguagem textual. Oxalá mais pessoas escrevam sobre os encontros.

Peço licença para trazer logo a escrevivência, noção proposta por Conceição Evaristo, para cá. Já no primeiro e-mail que me enviou, Denise Rosa explicitou a força dessa ideia como eixo de cada bate-papo: “Considerando a pertinência das narrativas em primeira pessoa de protagonistas negros e negras e se aproximando do conceito de escrevivências de Conceição Evaristo, busca-se trazer ao público o ponto de vista dessas pessoas sobre suas áreas de atuação, interesse e militância, compartilhamento de seus saberes, contando suas próprias histórias de forma a visibilizar seus pensamentos, epistemes e inspirar outras pessoas”. Oxalá cada palavra-flecha, evocada em primeira pessoa, projete vozes negras de Bauru para cada canto.

A cada mês, um tema-gerador proposto, para que cada convidado e convidada contasse a própria história a partir dele.

A primeira pessoa a falar, no primeiro encontro, foi a bauruense Titta Santos, mãe, empreendedora e idealizadora do projeto “Cabelo crespo é cabelo bom”. Titta usava os cabelos relaxados, ou seja, passava produtos químicos em seus cabelos crespos para “relaxar” as ondas em um cacheado com menos volume e formato definido, mais próximo do padrão eurocêntrico. Assumir seu crespo, cuidar de si e de outras mulheres é visto por Titta como ação política importante, como resistência. Ensinar outras pessoas sobre o poder da babosa, do óleo vegetal, em vez de produtos industrializados têm mostrado a ela como o “eu” é sobre “nós” e também sobre a natureza.

De cara, a professora Aza Njeri, doutora em Literaturas Africanas, com pós-doutorado em Filosofia Africana, se identificou com a escrevivência de Titta e contou que trançava os cabelos entre os 13 aos 29 anos de idade. Mãe aos 16, e novamente aos 29, falar sobre ser mulher, para Aza, passa também por falar sobre a maternidade em uma violentada sociedade que não é ocidental “mas se quer ocidentalizada”. Para as mulheres negras encontrarem lugar em uma escala única de humanidade, tantas vezes precisam negociar a própria identidade e sofrer assimilação, como no exemplo do alisamento dos cabelos. Aza nos mostra a necessidade de não negociar nossa humanidade em uma escala universal; mas de vivenciar nossa humanidade solar que é pluri, não uni.

Erica Malunguinho, artista plástica, arte-educadora, e a primeira deputada estadual trans eleita no Brasil, evocou o discurso “E eu não sou uma mulher?”, da norte-americana Sojourner Truth para perguntar se ela, mulher negra trans travesti, também não é uma mulher. Nos contou de Xica Manicongo, primeira mulher negra travesti de que se tem notícia na história do Brasil, vinda escravizada do Congo no final do século XVI, condenada pela inquisição. Aos 19 anos Érica saiu do Recife, onde debatia política debaixo do pé de tamarindo, para ser educadora em São Paulo. Do bairro mais preto, a inspiração dos quilombos e revoltas, a resistência das Ligas Campesinas, da avó e da mãe vieram a força para parir o quilombo urbano Aparelha Luzia. Da Aparelha, ocupa a institucionalidade política, dedicada a um projeto de emancipação coletiva que parte das mulheres negras e indígenas.

Egnalda Côrtes​, Naiara Santos​, Carla De Melo fizeram perguntas pelo chat que permitiram a cada convidada espiralar ainda mais as concepções de ser mulher, de uma perspectiva afrocentrada, a partir da própria vivência. Uma primeira pessoa do singular que é também primeira pessoa do plural.

Saúde da população negra foi o mote para ouvirmos o estudante de medicina Theo Brandon, homem trans negro e nordestino, e a bióloga e mestra em Patologia Humana, ativista do movimento negro, Maria José Menezes. Apesar das inúmeras violações sofridas no sistema de saúde. Theo Brandon espera ser um vetor de mudanças, tanto nos atendimentos que pretende fazer quando for médico, quanto na presença de corpos trans nas universidades. Maria José Menezes, conhecida no movimento de mulheres negras como Zezé, nos contou de uma de suas paixões, para a qual dedicou 31 dos seus 58 anos de idade: o SUS.

Tão falado durante a pandemia, o SUS é uma conquista importantíssima da população brasileira, fruto de uma luta protagonizada por mulheres negras. Se temos vacina, Anvisa, SAMU, qualidade da água, internação, posto de saúde é necessário agradecer às mulheres negras da periferia de todo o país e essa história não pode mais ser invisibilizada. Zezé chamou a atenção para as consequências perversas que o congelamento de investimento públicos no SUS tiveram na queda da imunização da população. E naquele momento, quando a campanha de vacinação começava, apenas para pessoas idosas, o chat convocava “Vacinas para todas e todos!”. Depois de quase 700 mil mortes em todo o país, podemos comemorar a vacinação da maior parte da população adulta do Brasil. E enquanto escrevo este texto, em janeiro de 2022, crianças começam a ser vacinadas. A pandemia não acabou, mas a vacina – e o SUS – têm salvado inúmeras vidas. Saúde integral da população negra, gestação e parto de homens trans foram tópicos importantíssimos do encontro, que, felizmente, podem ser assistidos pelo Youtube.

Esporte e gestão feminina, para quem é de um mundo distante, como eu, parecia ter menos aderência ao ciclo Negras Narrativas. Que engano! Francine Oliveira, especialista em marketing esportivo e relações externas da equipe Bauru Basket, sintetizou a relação depois de contar sua trajetória: “A luta da mulher dentro das carreiras esportivas se assemelha com a luta da mulher e muito com a luta da mulher negra. Onde estamos tendo que romper muitas barreiras e passar por muitas provações para atingir nossos objetivos.“ Além de Francine, Aline Pellegrino, coordenadora de competições femininas da Confederação Brasileira de Futebol, contou sua experiência de 16 anos como jogadora, inclusive da Seleção Brasileira Feminina, depois técnica, educadora física, antes de assumir cargos de gestoras em clubes até chegar à CBF e sentir que seu trabalho impacta em toda a cadeia do futebol feminino. Aline comemora poder ocupar espaços hoje: “Eu acredito que essa experiência de atleta e a resiliência de mulher preta, com a responsabilidade de ocupar esse espaço, vamos deixar portas abertas e ser a representatividade que a gente não teve”. A partir deste terceiro encontro, com a fome crescendo no Brasil, os encontros passaram a divulgar a campanha Mesa Brasil, que desde 1994 recebe alimentos nas unidades do Sesc para distribuir a quem tem fome.

Para falar sobre imprensa negra, foram convidados Ana Flávia Magalhães, professora do Departamento de História da UnB e integrante da Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros, e Pedro Borges, co-fundador e editor chefe da agência Alma Preta Jornalismo. “Em um país de maioria negra, a imprensa negra deveria se confundir com a imprensa do país”, iniciou Ana Flávia antes de nos apresentar pinceladas de pelo menos 180 anos de imprensa negra no Brasil, com mais de 130 periódicos diferentes. Pedro Borges contou que criou o Alma Preta em 2015, mesmo ano em que a UNESP Bauru, onde estudou, adotou política de cotas raciais. Para ele, jornalistas negros e negras estão empenhados em construir um jornalismo que aponte possibilidades para toda a sociedade brasileira.

Vensam Ialá, guineense, professor licenciado em letras, idealizador do projeto Visto África e coprodutor do projeto Ujamaa, iniciativa de inclusão de imigrantes e refugiados em São Paulo,  foi convidado para o tema “América Latina e África: aproximações”, com Dagoberto Fonseca, livre-docente e coordenador do Centro de Estudos de Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra na Unesp Araraquara. Ambos trataram das diferenças de um continente diverso como África – não, África não é um país – com outro também diverso como a América Latina. Mas ambos buscaram aproximações. Vensam falou do povo preto, que é um mesmo povo seja em África, no Brasil e em outros países da diáspora. Dagoberto nos lembrou que o Brasil é considerado a sexta região da África, independentemente das diversas cores de pele de quem vive e convive no Brasil. Somos, portanto, africanas e africanos e esta identidade nos constitui.

Também sobre limites e aproximações foi o quinto encontro do Negras Narrativas: entre os saberes tradicionais e acadêmicos, com Gyasi Kweisi Carlos Machado, mestre em História Social, autor do livro “Gênios da Humanidade – Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente”. Marineide Elvira, agricultora familiar[1] , guardiã de ensinamentos ancestrais da relação com a terra, cuja participação estava prevista no encontro, não conseguiu participar por problemas de conexão[2] [3] , algo comum, infelizmente, nestes tempos de virtualidade imposta pela pandemia. De forma muito didática e generosa, Gyasi Kweisi Carlos Machado nos apresentou 14 invenções africanas que mudaram o mundo: a começar pela própria universidade, que nasceu em Kemet, hoje chamado de Egito. A densidade do conhecimento acumulado pelo professor, com uma pesquisa constante em diferentes línguas, aliada a seu grande poder de comunicação, é dos pontos altos do Negras Narrativas, exatamente por descortinar erros e apropriações que o chamado saber acadêmico fez de saberes chamados tradicionais.

Corpo e corporeidade foi o tema da conversa entre Ana Sou, certificada em Kemetic Yoga por meio do Método Yoga Skills pela Kasa de Ma’at, e Tobias Terceiro, coreógrafo e professor de danças no Centro Cultural “Tobias Terceiro”, graduado em História e membro do Conselho da Cultura Negra de Bauru. Ambos mostraram, com profundidade, que a separação dos sentidos, do corpo e o espírito não fazem sentido. E cada um deles, a partir da própria experiência, nos abriu possibilidade de compreender a conexão. “Nosso corpo [físico] é a morada do corpo imaterial, que é o espírito”, afirmou Ana Sou. Tobias contou como muitas pessoas procuram suas aulas de dança “no automático”, como lazer e entretenimento, e apenas no processo se conectam à espontaneidade ancestral.

No mês de outubro, perto do dia das professoras e professores, a conversa foi sobre educação. Participaram Nilma Lino Gomes, professora emérita da Faculdade de Educação da UFMG, Bárbara Carine, professora, escritora e fundadora da Escolinha Maria Felipa, e Andressa Ugaya, docente do Departamento de Educação Física da Unesp Bauru. A importância de uma educação laica, democrática e emancipatória que coloque o antirracismo como prioridade foi defendida por todas as participantes. Bárbara Carine, contou a trajetória da Escolinha Maria Felipa, de Salvador, na Bahia, que nasceu de forma despretensiosa com a intenção de construir uma escola atenta às subjetividades, à diversidade, à não colonialidade, à ruptura com violências infelizmente tão presente em escolas. Da teoria à prática, o encontro deixou uma esperança de que a educação, aliada à garantia de todos os direitos, têm contribuído para que crianças negras possam experimentar o mundo como as gerações anteriores ainda não puderam vivenciar.

O encontro de encerramento do Negras Narrativas, contou com as escritoras Lia Vieira, Cidinha da Silva e o professor e ilustrador Marcelo de Salete. Além de apresentar a própria trajetória e referências artísticas, esteve muito presente na conversa a possibilidade de a arte libertar pessoas negras dos estereótipos, sejam eles destrutivos ou romantizados, para que vivenciem a complexidade de sua humanidade. A música apareceu como componente estético fundamental na formação de cada um deles. E a concretude do cotidiano, matéria prima para suas produções.

“As artes nos permitem conectar temporalidades”, registrei em meu caderno na última quinta-feira de novembro. Por desatenção, não especifiquei se algum dos convidados fez a afirmação, ou se foi um insight em meio à conversa. Mas, no encerramento de um ciclo de debates cujo objetivo é narrar do ponto de vista afrocentrado; recontar a partir da vivência negra; rever, é promissor compreender a conexão do hoje com o amanhã e o ontem, em louvor a Tempo, como possibilidade de vida para todas e todos. Como ensinou Emicida, seja pela urgência, seja para honrar quem veio antes de nós, “é tudo pra ontem”. Que oralidade, africanidade e ancestralidade, valores afrocentrados tão presentes em todo o ciclo, inspire narrativas negras e formas de existir.

Axé. Muito obrigada, Sesc Bauru.


Utilizamos cookies essenciais, de acordo com a nossa Política de Privacidade, para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.