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A figura hiperbólica do palhaço


Foto: Evelson de Freitas

Hugo Possolo não sabe se escolheu o circo ou se foi escolhido por ele. Seu fascínio pelo picadeiro vem desde cedo. Quando criança, seu pai sempre o levava ao circo. Na adolescência, começou a fazer teatro porque queria escrever. Teve de atuar para conseguir que suas peças fossem montadas. Logo de cara, se aventurou no humor e começou a ouvir aquilo que o marcaria por toda vida: Você é um palhaço. Chegou a animar festas infantis e se deu conta que a arte era o seu caminho. Procurou uma escola de circo. Deu azar. Não conseguiu se matricular na Academia Piolim, fechada em 1982. Esperou. Foi parar no Circo Escola Picadeiro. Ali se formou como palhaço e seguiu carreira nos palcos e nas ruas. Fundou o grupo de teatro Parlapatões, escolheu a Praça Roosevelt, em São Paulo, para instalar seu espaço, recebeu diversos prêmios e coordenou a área de Circo na Funarte, articulando a Política Nacional das Artes. Hoje, Hugo é referência em circo no Brasil.

 

O que é o circo?
O circo é uma reunião de demonstração de habilidades, de tudo aquilo que o homem é capaz de realizar sobre a natureza, um desafio corporal muito intenso e muito pessoal, uma arte apaixonante que envolve risco. Ele tem um aspecto performativo, no qual existe, além da expressão em si, uma fissura de tempo ficcional, que mostra ao público o que é real e possível. Isso é muito popular e universal no circo. Você sabe que o trapezista está lá desenhando um balé aéreo encantador, ele te toca como o balé no solo te tocaria. Mas o risco acrescenta a sensação do tempo presente que é compartilhada com o espectador, ele cria um envolvimento muito intenso da plateia com o artista.

Que relação o circo mantém com as outras linguagens artísticas?
Uma das coisas que mais me atrai no circo é sua diversidade – o que muitas artes buscam hoje seja em relação aos temas, ao público, às várias questões sociais etc. O circo abriga isso há muito tempo. Ele já tem uma arquitetura de casa de espetáculo. Por isso, não é uma única linguagem. São diversas modalidades e possibilidades de linguagens em uma coisa só. Ele é muito amplo. Não existe uma arte circense, mas várias. Além de reunir suas modalidades próprias, ele tem o espírito presente da música, das artes cênicas, da dança. O circo é uma arte que traz uma grande convergência de expressões.

Qual o limite entre o circo tradicional e o contemporâneo?
Para mim, não há uma divisão visível. Talvez o limite entre um e outro esteja no modo de produção. O modo de produção de um espetáculo com a casa de espetáculos que é a lona tem uma formulação de pensamento, de estrutura e de organização. Diferentemente de um espetáculo que pode ser feito na rua, em pequenos espaços ou em teatros, cuja estruturação é outra. Eles se diferem até nas disputas de espaço, de nichos de mercados, de espaços de visibilidade para sua forma expressiva que são muito diferentes entre si.

As escolas de circo têm papel nessa mudança de modo de produção?
Com a Revolução Comunista de 1916, quando se formou a URSS, surgiu essa formulação de ensinar circo a quem não vinha da tradição. Embora já fosse comum no circo, agregar pessoas que não fizessem parte de famílias circenses. O Brasil tem vários exemplos disso. Um deles é o Benjamim de Oliveira, ex-escravo que é alforriado, se torna palhaço e dono de sua própria companhia num período de transição para a abolição da escravatura – apesar de não ser da tradição europeia, ele é o primeiro símbolo nacional do circo brasileiro. As escolas não propuseram nenhuma ruptura ou mudança de linguagem, elas possibilitaram uma difusão maior do saber circense a pessoas que não tinham acesso a isso. A tradição, de certa forma, conservava esse saber por necessidade de sobrevivência.

Existe narrativa na arte circense?
A meu ver, o que existe é a possibilidade de uma dramaturgia circense sendo construída. Me incomoda muito a ideia de fazer um espetáculo com muita diversidade e querer inserir nisso uma história. Eu sempre brinco que isso é mais ou menos como um filme pornô com historinha. O que interessa não é a história... É possível outro tipo de construção em que a demonstração de possibilidades que o circo tem esteja de uma maneira ou outra a serviço de algum tipo de narrativa, e vice-versa. A junção desses dois elementos não é algo fácil, mas é algo instigante para um artista.

 

“Quem é palhaço sabe que consegue tirar o riso de
muitas coisas, mas são nas mais simples, nas mais ingênuas
que você cala mais fundo a alma do seu espectador.”

 

Como são as políticas públicas para o circo?
As políticas públicas estão a dever muito. Fui articulador na Política Nacional das Artes e defendo que há uma dívida histórica com o circo enquanto linguagem, porque ele é marginalizado, tratado como mero entretenimento. O circo é estruturalmente mais caro que o teatro e sempre recebeu verbas menores. Sua produção é tão ou mais complicada que a do cinema. Contudo, ele atinge um público maior – inclusive com mais cadeiras disponíveis –, e não recebe nem 1/12 do que recebe o cinema nacional. Há um entendimento de política pública que está muito ligada ao prestígio. O cinema, por ter intelectuais e pessoas de peso na cena cultural, consegue influir e fazer com que haja políticas específicas para si com mais facilidade. Já o circo, que não tem um prestígio forte e uma boa relação dos artistas com o poder público, não consegue vicejar as suas necessidades. Por isso ele é muito prejudicado.

Qual a relação do circo com a cidade?
Por ser itinerante, muitas vezes, o circo não consegue criar uma relação entre os artistas, produtores e técnicos com a ideia de cidadania, muito cara às sociedades industriais. Um grupo de teatro como o meu mantém uma relação de interação social na academia, na mídia, na imprensa, no poder público. O Espaço Parlapatões interage com a Praça Roosevelt e seu entorno. Eu tenho uma vida cidadã. Tenho uma interferência na minha cidade. Diferente de um circo itinerante que acaba se marginalizando, muitas vezes pela sua estrutura e pelas dificuldades atuais de encontrar espaço físico para montar sua lona nas grandes cidades. Isso acontece porque muitos não o consideram arte, apenas um evento de entretenimento puro que chega a uma cidade, rouba dela suas riquezas e vai embora. Essa péssima leitura sobre o circo prejudica demais.

Há espaço para o circo no cinema e na TV?
Qualquer coisa que se faça sobre circo na TV ou no cinema tem uma audiência espetacular. Mas é preciso ter propriedade, senão fica lírico, nostálgico e longe de sua essência. Quando essa essência vem à tona, o impacto é grande. Boa parte da estrutura da televisão brasileira e mexicana é oriunda do circo. A narrativa melodramática do nosso circo e do mexicano influenciou as novelas de rádio, que influenciaram as telenovelas. Por isso, Brasil e México se tornaram os maiores representantes do melodrama. A estrutura de humor, muito forte nos dois países, também veio do circo, em especial os programas de humor da linhagem do PRK-30, Balança Mas Não Cai e até Chico Anysio, Jô Soares, e os mais recentes Zorra Total e Tá no Ar. Todos têm a mesma estrutura circense, mas com temáticas contemporâneas. É muito importante pôr o circo neste contexto, porque ele é protagonista de uma história, e não é reconhecido como tal.

Qual o papel do palhaço?
O palhaço é o contraponto do homem no circo. É aquele que cai, que tomba, que tropeça, que cede à lei da gravidade e mostra que o homem não é só aquele que se supera. Por isso, o palhaço representa a humanidade. Ele representa a incapacidade humana de acertar sempre. Ele se coloca como especialista de todo e qualquer assunto, sabendo que não dá conta de nenhum deles e mostra isso. Mostra que nós, felizmente, erramos. Ele é uma figura hiperbólica, como o palhaço no trapézio que demonstra um medo exagerado – tudo o que o trapezista não mostraria –, algo com o qual nos identificamos, inclusive o artista, que também tem medo de trapézio.

Qual a função do riso?
Levar as pessoas ao riso é levá-las ao prazer. E depois do estado de prazer, há uma pausa para entender aquilo intelectualmente e gerar uma reflexão. Eu sempre defendo que o essencial do palhaço é buscar esse riso. Isso não significa buscar o riso a qualquer preço, a qualquer custo. Quem é palhaço sabe que consegue tirar o riso de muitas coisas, mas são nas mais simples, nas mais ingênuas que você cala mais fundo a alma do seu espectador.

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