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Linguagens em interação

Foto: Willem Popelier
Foto: Willem Popelier

Linguagens em interação

Diálogo e diferentes formas de utilizar os elementos cênicos conferem fôlego e nova dinâmica à produção artística 

O intervalo entre o século 20 e o 21 foi determinante para a consolidação da cenografia brasileira como linguagem autônoma, capaz de discutir o espaço cênico e contribuir para o desenvolvimento do teatro.
Inserida no panorama histórico das artes cênicas e graças ao trabalho de seus expoentes, entre eles Santa Rosa (1909-1956) – criador da definição de arquitetura cênica –, a cenografia começou a ser entendida como parte do espetáculo, tão rica e dinâmica quanto as outras artes do universo do teatro, direção e dramaturgia.

Impacto visual

Os elementos da cena teatral que se fundem para compor as montagens, desde a iluminação até o desenho que se estrutura durante os espetáculos, têm permitido uma interação potente entre artes plásticas, desdobrando-se num maior impacto visual.

Pesquisadora e diretora artística da Intrépida Trupe, companhia criada em 1986 que explora as linguagens da dança, do circo e do teatro, Valéria Martins considera que num processo artístico todas as linguagens estão a serviço da criação. “Elas nos escolhem, tornam-se imprescindíveis. Nomear e delimitar onde começa uma e acaba a outra não faz jus à arte dos tempos atuais”, afirma. “De minha parte, procuro que estejam diluídas e fluidas, provocando no público narrativas abertas e questionamentos que o façam perceber que o ponto focal sempre será maior do que a classificação e segmentação.”

Explorar o limite e a convergência desses elementos foi uma novidade. De seu desenvolvimento até o século 20, a cenografia brasileira foi pautada por uma ação pictórica, originada da pintura. Pequenos avanços tecnológicos objetivando novos modos de execução do trabalho cenográfico nos espetáculos. “A tecnologia é um recurso contundente e de empoderamento na criação artística deste século”, enfatiza Valéria.

Via de mão dupla

Se o caminho da interação entre áreas da linguagem é cada vez mais evidente e repleto de desdobramentos, a análise dessa relação também se faz mais contundente.

Curadora e doutora em artes cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Aby Cohen, que leciona cenografia na pós-graduação da Faculdade Belas Artes, em São Paulo, reforça tal noção. “A aproximação é notória na produção dos dois sentidos: tanto em proposições curatoriais e de realizadores que buscam em seus trabalhos a teatralidade, como dos cenógrafos, que têm sua origem no teatro e caminham para as artes performativas com trabalhos autorais”,, comenta. “Assim, instalação e cenografia se confundem e se mesclam cada vez mais.”
 

Sem fronteiras

Exposição reúne artistas brasileiros e internacionais que estreitam os limites entre artes visuais e cênicas

A exposição Desenhos de Cena #1 traz ao Sesc Pinheiros um recorte da produção contemporânea de artistas brasileiros e estrangeiros que direcionam seu processo criativo para além dos limites entre artes visuais e cênicas.

De acordo com a curadora da mostra, Aby Cohen, o recorte curatorial do projeto foi pautado na ideia de que o espaço utilizado é um lugar de compartilhamento, permeável, como um grande palco no qual se apresentam as diversas disciplinas que desenham a cena – luz, espaço, som, corpo, traje, objetos etc. “Estes elementos podem por si criar e conduzir narrativas não textuais”, contextualiza. “Por esse motivo era importante equilibrar obras que claramente focassem essas disciplinas, reconhecendo assim que estamos diante de uma instalação sonora que explora as possibilidades de perceber o som de maneira distinta da qual estamos acostumados, por exemplo, bem como reconhecer que estamos diante de um desenho que puramente se manifesta pela luz e cor, e assim por diante.” Aby explica que se refere à exposição como um espetáculo, “uma vez que os elementos estão em constante movimento e ativação”.

A mostra acena para a expansão do termo cenografia, “ao abordar outros desenhos de cena que se materializam espacial e visualmente, mas que têm como ponto de partida ou objetivo final criar desenhos pautados na luz, som, objetos e traje”, completa a curadora.

Os trabalhos de Antony Gormley (Reino Unido), Antti Mäkelä (Finlândia), Bia Lessa (Brasil), Cris Bierrenbach (Brasil), Dries Verhoeven (Holanda), Emma Ransley (Nova Zelândia), Gavin Krastin (África do Sul), Giulia Pecorari (Itália), Ian Evans (Reino Unido), Laura Vinci (Brasil), Liu Xinglin (China), Marina Reis (Brasil), Peter Mumford (Reino Unido), Richard Downing (Reino Unido), Theo Jansen (Holanda) e Valéria Martins (Brasil) podem ser vistos até 10 de julho (terça a sexta, 10h30 às 21h30; sábados, 10h30 às 21h; domingos e feriados, 10h30 às 18h30).

Confira mais informações no portal Sesc São Paulo.

Abaixo, as fotos da exposição no Sesc Pinheiros

Revista E Sesc São Paulo - Matéria Gráfica julho/2016

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