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Corpo e Gênero: da anatomia à invenção

Corpo e Gênero Como Construção - De 07 a 13 de Julho
Corpo e Gênero Como Construção - De 07 a 13 de Julho

Do corpo como objeto de regulações e campo em disputa, surgem questões a serem pensadas no cinema. Muitos filmes já constroem suas obras trazendo em seu bojo uma crítica à dualidade natureza/cultura, feminino/masculino, normal/patológico, sexo/gênero e o CineSesc traz, de 07 a 13 de julho, o especial Corpo e Gênero Como Construção, com exibição gratuita de filmes, oficina de bordado e bate-papos.

Corpo e Gênero: da anatomia à invenção
Por Bianca Coutinho Dias*

Diante das novas cartografias sexuais e possibilidades de se dizer e se engajar no mundo não podemos recuar. Nesse novo panorama das condições de subjetivação e sexuação na contemporaneidade, cabe interrogar: qual o sujeito possível na desmedida do impossível?

Podemos situar aí a tríade “corpo-gênero-invenção” como questão embrionária para pensar o feminino como topografia perpetuamente reinventada. Trata-se de invocar uma política do desejo que visa romper com um discurso encarcerador da sexualidade, onde aquilo que provoca ruído no social estaria destinado a ser abolido a qualquer custo pela medicalização das subjetividades e pelo aparato de normas ditas “naturais”.

A filósofa Beatriz Preciado, que escreveu “Manifesto Contrassexual”, encontrou em Michel Foucault abrigo para pensar as questões da definição biopolítica dos corpos e produção de gênero e da sexualidade como técnicas de domínio criadas na modernidade. A autora opera, a partir desse ponto, uma crítica à hegemonia do discurso da ciência em seu empuxo normalizador de corpos, comportamentos e discursos: caminho pronto que coloca os corpos a serviço de uma eficácia de produção e reprodução.

Do corpo como objeto de regulações e campo em disputa, surgem questões a serem pensadas no cinema. Muitos filmes já constroem suas obras trazendo em seu bojo uma crítica à dualidade natureza/cultura, feminino/masculino, normal/patológico, sexo/gênero e sustentam na linha cortante do desejo o encontro com o vazio. Precisamente dessa ruptura, desse corpo encenando um destino que não é mais anatômico - ainda que tenha sua inegável fundação nessa dimensão - podemos extrair consequências.

Essa experiência política é investigada em Corpo Manifesto, filme de Carol Araújo que traz um panorama sobre o feminismo, sua história e tradição, buscando identificá-lo no cenário atual da luta feminista das mulheres brasileiras, especialmente em uma das pautas históricas mais relevantes e cruciais: a autonomia da mulher sobre seu próprio corpo.


Foto: divulgação do filme Corpo Manifesto

Lógica que se apresenta em Bichas, de Marlon Parente, em que, a partir da positivação do que é infame, se inclui a beleza do maldito que invoca algo que é desviante e escapa do cárcere da moral e dos bons costumes. Política do desejo que resiste ao enquadramento da masculinidade e da feminilidade: o que aparece no filme são corpos que sobrevivem ao naufrágio do sentido, corpos agitados pelo real a escrever pelas margens a sua possibilidade de subjetivação por meio daquilo que a sociedade considera como ameaçador à sua visão idealizada sobre si própria.


Foto: divulgação do filme Bichas - O Documentário

Judith Butler, filósofa americana, escreveu que o impensável não está fora da cultura, mas dentro dela e de forma dominada: “É possível pensar de forma insurgente pelas bordas do social, na região que foi propositalmente foracluída dele e, muitas vezes, relegadas até mesmo ao reino do abjeto”.

Em Academia das Musas, José Luís Guerín mergulha no universo do saber acadêmico para nele encontrar seus desvãos a partir do feminino. Numa narrativa que ignora por completo as fronteiras entre o documental e o ficcional, o filme acompanha as aulas do filólogo italiano Rafaelle Pinto e suas teses sobre as musas. O que se invoca é o enigma do feminino, numa espécie de passagem da mulher - que espera de um homem uma voz ou um olhar, que a faça esquecer sua identificação ao nada - para a musa que resgata ativamente um saber-fazer com aquilo que é ferida e assombro. O espaço para o literário e para a invenção, dimensão que anda tão massacrada, aparece em sua fulgurância: a verdade fundamental de um homem e uma mulher só acontece na ficção, é preciso que diante do impossível da relação sexual se faça alguma coisa viva e incalculável.


Foto: divulgação do filme Academia das Musas

E as musas são essas forças todas que não se apaziguam e aparecem, ora num desabar transtornado, ora donas de si - num potente mosaico “singular-plural” que nos devolve uma relação encantada com o mundo, que o retira da ordem estéril das univocidades e dissemina sentidos novos para a mulher - essa que se inventa uma a uma sobre um abismo-parapeito.

O sexual na esteira da psicanálise se costura na ideia de um corpo erótico, marcado pelo movimento das intensidades pulsionais e do desejo, circulado e circunscrito pelo desejo do outro, pela fala e pela história, investido, configurado por zonas erógenas, pelos modos, meios e históricos das experiências de satisfação. Não se trata de um corpo-organismo, mas de um corpo pulsional, intensivo, que também se faz corpo conforme percebe, marca e cria memória.

O corpo sexual revelado por Freud é marcado pelo erotismo, pela pulsionalidade, pelo desejo e pela história. E a história de um sujeito é precisamente a história desses assujeitamentos e resistências que têm o corpo como palco. É um impasse frente ao qual a psicanálise não ficará imune, ao considerar o feminino também em relação a essa brecha. Foi com Jacques Lacan que essa aproximação à mulher e ao feminino, sempre fragilmente ordenados pela organização fálica, foi posta em questão. O psicanalista francês refere-se à mulher como o sujeito que traz a alteridade radical. Isso quer dizer que a mulher não pode ser reduzida nem encerrada em uma referência ao masculino, nem ao falo. Algo escapa, criando um outro continente desconhecido, do qual não podemos nos aproximar pelo referencial fálico.

Paulina, de Santiago Mitre, aponta para esse feminino indócil que precisa ser aniquilado, exatamente por carregar em sua origem alguma coisa que acossa e interroga. A violência contra uma mulher é sempre a vontade de extermínio da alteridade, a tentativa de subtração de um lugar no mundo que acontece para além daquilo que fica submetido à lógica fálica.


Foto: divulgação do filme Paulina

Pensar sobre o feminino é deslocar-se para um lugar que desliza constantemente. Junto disso, é urgente pensar também as novas identidades de gênero, novas formas de conjugalidade, uma imensa diversidade de práticas eróticas - campos de borda, lugares possíveis para a subjetivação. Invenções que resistem a todo discurso que visa subtrair a pulsação e o mistério do corpo. Criações insurgentes que fazem barreira à estratégia de disciplinamento do desejo, que nunca deixará de ser delirante, plural e nômade.


Além das exibições, está na programação uma Oficina de Bordado e o bate-papo Cinema da Vela.

Consulte toda a programação completa aqui.

*Bianca Coutinho Dias é psicanalista pesquisadora em estudos contemporâneos das artes na Universidade Federal Fluminense e coordena o Núcleo de investigação em arte e psicanálise do Instituto Figueiredo Ferraz - RJ.

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