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A filosofia como musa inspiradora

Klaus Hofer e Tânia Turcato<br>Foto: Divulgação
Klaus Hofer e Tânia Turcato
Foto: Divulgação

Entre alguns cafés filosóficos, Klaus Hofer e Tânia Turcato formaram uma parceria única.
Ela é Artista de São Caetano do Sul, formada em artes plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo e FAINC, em Santo André. Estudou desenho, escultura e cerâmica, além de pintura tradicional chinesa. Teve obras expostas em Portugal e na Suíça, na exposição Les peintresbrésiliens na galeria Art&Cadre, na honrosa companhia de Adélio Sarro e Dennis Esteves.
Ele, filósofo, pesquisa autores na área da filosofia com conceitos diferentes acerca dos valores morais, tendo como principal referência a moral perspectivista de Friedrich Nietzsche e suas reverberações no pensamento ocidental. O exercício crítico volta-se para o papel da arte frente aos desafios de nosso tempo.

Ambos têm a filosofia como sua musa inspiradora.

A palestra Semiótica dos Afetos (termo retirado dos escritos de Nietzsche), que acontece no Sesc São Caetano, propõe apresentar alguns conceitos da história da filosofia que nos ajudam a entender e interpretar algo que se vê e sente. A relação entre a vida e obra da artista é abordada de maneira a chamar atenção para o que Michel Foucault chamou de "práticas-de-si" (ou "cuidado-de-si") e sobre como essas práticas podem interferir positivamente no processo contínuo de formação da pessoa e no modo como ela se relaciona com o mundo a sua volta.

“O público que não está habituado a visitar exposições de arte pode acabar não entendendo nada e até se afastando. Mas para compreender realmente um artista é preciso frequentá-lo. É preciso se apropriar do repertório dele, conhecer seu ponto de vista, seu universo criativo. Esse exercício de interpretação que o observador faz para compreender uma obra de arte é o mesmo exercício que fazemos para entender a posição de outra pessoa, para entender seus valores morais. De que lugar essa pessoa fala? Qual o repertório dela? Existe um esforço para compreender a outra pessoa e para podermos nos relacionar melhor com ela.”

Klaus ressalta que nos textos de filósofos como Nietzsche e Espinosa, aprendemos que nossos valores morais nada mais são do que a interpretação que fazemos do jogo dos afetos entre nós e o mundo. Assim como existem coisas que nos afetam positivamente, aumentando nossa potência vital e nossa capacidade de agir, outras nos afetam negativamente, nos deixando menores. As primeiras, chamamos de coisas boas, as últimas, de ruins. O grande problema é que esse jogo muda o tempo todo. O que é bom pra mim hoje pode não ser mais amanhã. E assim é pra todos nós.

Tânia também vai contar um pouco de suas experiências pessoais, falar sobre o painel Arte Ocupa e como conseguiu encontrar o seu caminho em relação aos conflitos que teve: “Fazia paisagens, pinturas abstratas, retratos, um pouco de tudo, de tudo um pouco e tinha dúvidas sobre o meu estilo. Até que um dia desisti de pensar e ficar nesse conflito. Um dia, num final de tarde, olhei para minha coleção de cactos iluminados pelos raios de sol e tive a certeza de que eu era como os cactos. Eles persistem em viver e eu persisto em viver da arte. Subi para o atelier e passei a madrugada inteira pintando cactos e em uma única noite terminei um quadro.”

Essa busca por um estilo próprio é uma busca de identidade. Quando nos deparamos com algo que de fato nos representa, tudo se encaixa e conseguimos encontrar nossos caminhos.

Assim como um artista constrói a sua obra, nós temos que transformar a nossa própria vida numa obra de arte. Isso implica assumir um compromisso com você mesmo, uma responsabilidade. Implica em ser capaz de fazer um diagnóstico do seu tempo, da sua posição e de como atuar. Fazer esse exercício de cuidar de si mesmo.

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