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Graffiti em 4 Cantos

por Bia Lopes

Aceitando o convite do Sesc São Caetano, a Maria Sol Produções Culturais, produtora de São Caetano do Sul, documentou o projeto Graffiti em 4 Cantos que em 2016 aconteceu na Praça da Moça em Diadema; na Praça dos Imigrantes em São Caetano; na Praça XV de Novembro em Mauá e na Pista de Skate de Itaquaquecetuba – sempre no período da tarde.

O trabalho de documentação resultou em 4 webdocs de curta duração sobre a experiência vivida em cada uma das cidades. Na visão de Maria Carolina Marchi, a produtora emprestou o seu olhar “horizontal” que norteou a maneira como as imagens foram captadas e editadas. Apesar dos roteiros dos documentários se desenharem a partir das imagens e depoimentos sobre o graffiti, desde o início os integrantes da produtora fizeram questão de abrir a câmera e a escuta para as pessoas que estavam participando do projeto, de modo que elas se sentissem muito à vontade para se expressarem em suas falas como se batessem um papo com pessoas de seu meio.

Assim, a vivência do projeto foi muito além do graffiti e muito fundo no que há de mais humano em cada participante, pois Maria Carolina Marchi, diretora e roteirista; Paulo Silva, captador e editor; Nídia Linhares, captadora e editora de arte; Mayara Tutumi, assistente de produção puderam experimentar realidades e conversar com pessoas muito diferentes dos seus cotidianos.

Cada praça recebeu um grafiteiro ou uma grafiteira, na maioria dos casos, de uma cidade vizinha: a Praça da Moça recebeu a Kel, que é de Mauá; a Praça dos Imigrantes recebeu Edinho, de Diadema; a Praça XV de Novembro recebeu a Martista, de Itaquaquecetuba e a Pista do Skate recebeu Yuri Sapucaia de São Caetano. Assim que eles finalizavam o mural com base em celofane grafitando uma imagem que tinha como tema o que a cidade significava para cada um deles, o evento era aberto pela Kombi do Rap, que esteve nas quatro cidades, um projeto itinerante idealizado pelo MC Wil Mr, cuja proposta é que um MC convide outro para fazer o seu rap, declamar sua poesia,enfim, expressar sua arte pois o microfone permanecia aberto.

O PRIMEIRO CANTO: Praça da Moça, em Diadema – O dia do não saber o que ia ser, o que esperar, o que fazer, por isso, na visão de Nídia Linhares, a produtora esteve muito atenta o tempo todo à Kombi do Rap e à produção do graffiti – sem se relacionar tanto com o público que circulava em Diadema – numa tentativa de compreender a dinâmica particular do evento. Houve uma fala do MC Cauã Sanfer e outra fala do MC e professor de História Xandão, convidados do Wil, da Kombi do Rap, que recontaram muitas coisas relevantes sobre a história do rap e sobre a trajetória deles. Mas o que marcou mesmo, diz Maria Carolina Marchi, foi a conversa com a rapper Mayara Flow, uma menina jovem, mãe solteira, acumulando uma série de funções cuja fala sobre a representação da mulher no projeto também me marcou muito: essa questão de como ainda é delicado a representação da mulher em qualquer área e também no graffiti e também no rap.”Foi um dia intenso , inesperado, rico", contou Carol.

 

O SEGUNDO CANTO: Praça dos Imigrantes, em São Caetano do Sul – “Estava todo mundo em casa [...] A gente já tinha uma noção mais ou menos do que esperar do evento [...] São Caetano tinha um público muito particular que normalmente não tem contato com esse tipo de evento de graffiti, de hip-hop” – conta Nídia Linhares. Era uma tarde de sol linda, com muita família, gente passeando com o cachorro, andando de bicicleta, correndo, fazendo exercício. Gente que não estava ali para o evento, mas que parou para ver e escutar o que se passava. Mayara Tutumi recorda de dois momentos em especial: o aparecimento de alguns meninos que estavam muito contentes por se sentirem contemplados com o que se passava ali, pois já estavam cansados de eventos de food-trucks naquela praça e o de outros dois que fizeram uma rima lá na hora. Foi o ritmo mais tranquilo dos dias.

 

O TERCEIRO CANTO: Praça XV de Novembro, em Mauá – “Foi muito forte, foi duro, foi difícil, foi cinza, foi um tapa na cara. Foi intenso, foi lindo, mas foi um tapa na cara” é assim que Nídia Linhares define esse dia. Segundo Maria Carolina Marchi, esta praça lembra a Praça da Sé, de São Paulo, pois acontece de tudo naquele espaço: “o cara vendendo erva na barraquinha que cura tudo, o pastor fazendo a prece, aqueles caras que fazem performances e juntam gente num círculo, gente em situação de rua, tráfico, gente procurando emprego, gente circulando, gente simplesmente indo e voltando, gente do crack.”Foi uma tarde que fez um frio muito intenso. O que marcou a todos foi a presença, durante a apresentação da Kombi do Rap, de uma moça jovem, grávida, usuária de crack, que consumia cachaça com seu pai ali na praça, estava com pouca roupa para o dia frio que fazia e não aceitava a ajuda de quem lhe oferecia abrigo. Parece que a moça já tem outros filhos. Nesse estado alterado, ela dançava descalça com o rap que estava tocando como se estivesse totalmente entrosada com o que estava acontecendo, “ela fazia um eco e interpretava a música perfeitamente de acordo com o que estava sendo cantado”. Um dia de uma realidade difícil que fez todos saírem abalados, exaustos, comovidos da cidade.

 

O QUARTO CANTO: Pista de Skate, em Itaquaquecetuba – “Para fechar com chave de ouro. Foi um grande abraço. A sensação no final do dia foi de como se a gente tivesse sido acalentado. Foi impressionante” é a avaliação de Nídia Linhares. Um dia de sol superbonito, com crianças e jovens de skate, de patins, famílias passando o dia no local. Todas as pessoas muito abertas para o evento que foi muito acolhido pelos frequentadores do espaço que deviam ter entre 12 e 20 anos. Mayara Tutumi vê na pista de skate “um espaço de formação que às vezes não se encontra dentro de casa nem na escola e que se dá nesses espaços públicos em que as pessoas se juntam por um interesse em comum, tentam se ajudar da melhor forma possível e onde os mais velhos aconselham os mais novos”. Nesta tarde, conversou-se sobre tudo com esses jovens que buscavam sua expressão por meio da arte e da cultura: a realidade daquela pista, quem toma conta do espaço, vida, maconha, polícia, preconceitos, as meninas inseridas nesse cenário. “Foram muito bacanas, muito fortes, muito bonitas a fala do pessoal do skate, a fala do pessoal do rap, a do pessoal do break e a do hip-hop. A fala do Du que desenvolve um trabalho lindo com o break, com a dança. A fala do Tiago, professor de skate, que tem um trabalho transformador. Apareceu muito para mim o quanto o hip-hop, enquanto linguagem que abarca o rap, o break, a linguagem do MC e o graffiti, transformou a vida das pessoas que se envolveram com essa linguagem. Me pareceu que é uma linguagem que conversa com pessoas que estão vivendo em lugares periféricos, menos expostas a algumas possibilidades e expostas a outras coisas e que tiveram de dar a volta por cima porque estavam num certo contexto” comenta Maria Carolina Marchi.

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