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Fascínio da palavra

Foto: Divulgação
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Fascínio da palavra

O poeta Manoel de Barros, que faria 100 anos em 2016, vai muito além do pitoresco na visão da natureza e constrói uma linguagem inovadora, cheia de neologismos


Se o critério de escolher um livro pelo título prevalecesse, o escritor Manoel de Barros ganharia os leitores no ato. Basta percorrer com os olhos achados como O Livro das Ignorãças (1993), Livro sobre Nada (1996), Retrato do Artista Quando Coisa (1998), Concerto a Céu Aberto para Solos de Ave (1991) e pronto. Assim começa a experiência literária de desvendar as trilhas do poeta que seguiu o ritmo da natureza e da memória e criou a própria gramática.

A origem de Manoel de Barros determinou seu fazer poético. O ponto de partida de sua literatura é a geografia de Cuiabá, onde nasceu em 19 de dezembro de 1916, e do Pantanal mato-grossense, para onde se mudou com a família ainda bebê. O primeiro contato com o mundo das palavras escritas se deu por volta dos 6 anos pela iniciativa da tia Rosa Pompeu de Campos, que lhe presenteou com livro e lápis.

De 1925 a 1928 estudou num internato em Campo Grande. A infância foi vivida em interação com a natureza, em meio a lagartixas, sapos e outros bichos que circulavam nas lagoas. A conclusão dos estudos secundários foi feita no Rio de Janeiro, entre 1928 e 1934. Anos depois, Manoel de Barros graduou-se em Direito e, em 1937, publicou seu primeiro livro, Poemas Concebidos sem Pecado.

Viagens e influências

Durante a formação acadêmica, o jovem Manoel se encantou e se desencantou com a política, em especial com o Partido Comunista, ao qual se filiou na década de 1930. A desilusão com o partido é importante em sua biografia – tomou a decisão de deixar o PC, na década seguinte, devido ao apoio dado por Luís Carlos Prestes ao então presidente Getúlio Vargas – e resultou em viagem ao exterior: da América do Sul (Peru e Bolívia) à América do Norte.

Em Nova York, nos anos 1940, dedicou-se aos estudos de artes e cinema. Sobre o período, chegou a declarar em entrevista publicada em Encontros – Manoel de Barros (organizador: Adalberto Müller, autor: Manoel de Barros, Azougue Editorial, 2010): “Mas o que eu gostaria de dizer é que o chão do Pantanal, o meu chão, fui encontrar também em Nova York, em Paris, na Itália etc. No ano que estive lá (em Nova York) saíra o livro de Lorca (Federico Garcia Lorca) Poeta en Nueva York. Comprei o livro e lá encontrei esse verso da gota de sangue de pato. Madrugada de boemia, o poeta, sob arranha-céus, vira, no asfalto, a gota. Era uma coisa ínfima, ordinária, mas que cresceu em sua emoção aquela madrugada. Seria a coisa mais infinita para o poeta naquela hora”.

Em 1946 publicou o livro Face Imóvel e, em 1947, casou-se com Stella dos Santos Cruz, com quem teve três filhos.

Ressignificação da palavra

O interesse e o trabalho de se debruçar sobre as várias faces da palavra reverberam em cada poema, para além da temática ligada ao ambiente pantaneiro. Para o professor do Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor dos livros Poesia e Crise (Ed. Unicamp, 2010) e Manual de Flutuação para Amadores (7Letras, 2015), Marcos Siscar, o envolvimento de Manoel com a linguagem é notável. “Isso é evidente e pode ser usado como resposta ao enquadramento de sua poesia ao pitoresco e ao regional. Esse me parece ser um problema datado, característico de um momento em que a obra apareceu ao grande público (final dos anos 1980, começo dos 1990)”, explica. “Depois disso, ela superou essa problemática e passou a ser publicada por grandes editoras (tornou-se fenômeno de mercado) e a ser comentada e estudada (tornou-se objeto de estudos acadêmicos e de divulgação jornalística).” Segundo o professor, não há como restringir a obra de Manoel de Barros à condição de poesia do Pantanal: “A não ser para aqueles que têm interesse em angariar o prestígio nacional do poeta para seus propósitos”.

O gosto pela palavra é identificado pelo encontro com a obra de Guimarães Rosa. Manoel deixou-se levar por Sagarana (1946) e encantou-se. Nos anos 1960, encontrou pessoalmente o autor de Grande Sertão e lhe deu o Compêndio para Uso dos Pássaros (1961), livro que muitos anos depois, em 2009, recebeu o Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen, oferecido pela Câmara Municipal de São João da Madeira e pela Associação Portuguesa de Escritores (APE).

A obra Arranjos para Assobio, de 1982, também recebeu um prêmio, concedido pela APCA, a Associação Paulista de Críticos de Arte. A obra sela uma parceria com Millôr Fernandes, que assina a capa. A dupla se reuniu novamente em 1998, quando Millôr criou a capa e as ilustrações de Retrato do Artista Quando Coisa.

Escritor consagrado, Carlos Drummond de Andrade identificou a importância da obra de Manoel de Barros, afirmando, em 1986, que se tratava do maior poeta brasileiro vivo. O filólogo Antônio Houaiss também expressou sua admiração pela produção de Barros, salientando a racionalidade com a qual os versos eram concebidos. No universo onírico, sobrava esmero e dedicação à língua portuguesa.

Rodeado por livros

Adalberto Müller, professor nas áreas de Teoria da Literatura e Literatura e Cinema/Literatura e Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma que o universo poético de Barros provinha de uma atitude consciente e racional. “Uma das afirmações mais recorrentes de Manoel de Barros, contra aqueles que querem rotular sua poesia, é a de que ele não é o ‘poeta do Pantanal’, como a mídia costuma divulgar”, diz. “De fato, muitos de seus leitores se desapontam ao descobrir que ele não era um velhinho sábio que escrevia sentado à beira das lagoas do Pantanal, olhando passarinhos e besouros. Pelo contrário, escrevia trancado em seu escritório, rodeado por dicionários e livros (lembro-me de certa vez ter visto obras de Adorno e Benjamin em sua escrivaninha, e não posso deixar de mencionar o precioso dicionário de frei Domingos de Oliveira, em cinco grossos tomos, seu tesouro).”

O estudioso lembra ainda que nas entrevistas concedidas pelo poeta, transparece o homem cosmopolita, que viveu mais de 40 anos indo frequentemente ao Rio de Janeiro, que viajou pela Europa e passou algum tempo em Nova York, onde estudou cinema e artes visuais. “Manoel de Barros não nega, porém, a origem pantaneira. Numa entrevista a uma revista de ecologia, ele deixa claro que sua poesia não se interessa pela tematização pitoresca que há no Pantanal, mas sim pela comunhão desse Pantanal que está dentro dele com a sua linguagem”, acrescenta Müller.

Além do legado que deixou à literatura brasileira, Manoel de Barros seduziu leitores de várias outras línguas (por meio de traduções) e lugares, como Portugal, Espanha, França e Estados Unidos. Seu último poema publicado no Brasil foi A Turma, em 2013, um ano antes de morrer, com quase 98 anos.


Dono do verso

Conheça um pouco do poeta que dominava a arte da palavra

“Sob o canto do bate-num-quara
nasceu Cabeludinho
bem diferente de Iracema
desandando pouquíssima poesia
o que desculpa a insuficiência do canto
mas explica a sua vida
que juro ser o essencial
— Vai desremelar esse olho, menino!
— Vai cortar esse cabelão, menino!
Eram os gritos de Nhanhá.”

Trecho de Poemas Concebidos sem Pecado, 1937

 

“A maior riqueza do homem é sua incompletude.
Nesse ponto, sou abastado.”

Trecho de Retrato do Artista Quando Coisa, 1998

 

“Não sou alheio a nada. Não é preciso falar de amor para se transmitir amor.
Nem é preciso falar de dor para transmitir o seu grito.
O que escrevo resulta de meus armazenamentos ancestrais e de meus envolvimentos com a vida.”

Entrevista publicada no livro Encontros – Manoel de Barros, 2010


Poesia encenada

Espetáculo teatral dá nova forma à obra de Manoel de Barros

Encantada pelo poder transgressor da escrita de Manoel de Barros, a atriz Bianca Ramoneda instigou-se e procurou conexões entre seus poemas. Essa busca teve o aval de Barros, que leu e elogiou o resultado da peça, encenada pela primeira vez em 2002, no Rio de Janeiro.

A montagem ganhou fôlego e teve nova temporada no Sesc Pinheiros, entre os meses de setembro e outubro.

O ator Gabriel Braga Nunes divide o palco com Bianca, numa interação harmoniosa entre corpo e palavra. A direção do espetáculo é de Moacir Chaves, já a direção musical é de Pedro Luis. Chico Oliveira é o músico convidado que dá ritmo à encenação tocando bateria e percussão, acompanhado por Braga Nunes, que também canta e toca guitarra.