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Quantas histórias cabem em 15 anos?

As Peripécias sem Fim de Bibelô, Florisbina e Pirulin é o mais recente espetáculo da Patética.
As Peripécias sem Fim de Bibelô, Florisbina e Pirulin é o mais recente espetáculo da Patética.

“Um pedacinho de papel se desdobra. Um livro se abre. Palavras saltam nos ouvidos. Ideias surgem num olhar.”

A frase ilustra o livro Histórias em Todos os Sentidos, lançado em 2011 pela Cia. Patética de Teatro em comemoração aos 10 anos do grupo. Na época, a intensidade aflorava no ótimo momento da companhia, eles estavam consolidando sua arte de criar e contar histórias direto no papel, perpetuando assim o processo literário, musical e expressivo que vinham apresentando desde sua fundação, em 2001.

Mas até este lançamento, o grupo formado por Fábio Parpinelli, Liz Moura e Neto Medeiros já havia se firmado como uma das principais representantes do teatro de animação no Brasil. “Na época do surgimento da Cia. Patética em 2001 não existiam muitos grupos que trabalhavam com essa linguagem, além daqueles que são referência constante como o Grupo Sobrevento ou a Cia. Trucks.”, relembra Fábio, responsável também pelos sutis movimentos que dão vida aos personagens.

Em outubro, o Sesc Consolação recebe a companhia para uma mostra de repertório com 5 espetáculos. A EOnline aproveitou para conversar com a companhia sobre esta experiência de serem “patéticos” há 15 anos e a expectativa de pisar no mesmo palco depois de tanto tempo.

EO: Vocês há 15 anos se definem como "patéticos", que pela definição latina significa "comovente, tocante, próprio para excitar comoção". Dentro de uma realidade tão tomada pelas novas tecnologias, onde a cultura da imagem digital é tão preponderante, de que forma vocês acham que o teatro de animação ainda comove o público?

Acreditamos que o poder de encantamento que um boneco ou um objeto ao serem animados exercem sobre nós é imediato e inegável. Talvez pelo fato de retornarmos à infância quando brincávamos, de dar vida aos brinquedos ou talvez pela vida transmitida a algo inanimado, mas que parece realmente viver. O boneco, assim como a máscara, é um objeto ancestral companheiro da humanidade desde o seu início. E essa emoção surpreendente que vem de algo tão artesanal, tão antigo e que conecta tanto quem faz quanto quem assiste é um dos mistérios da arte, difícil de explicar, porém comovente e compreensível quando se vivencia.

EO: Esta estreia no Anchieta, há 15 anos em 2001, deve ter sido carregada de histórias. O que vocês se lembram da época? Que espetáculo vocês estrearam e como foi a recepção do público?

O Teatro de Bonecos em São Paulo se desenvolveu bastante e muito rapidamente, especialmente nos últimos dez anos. Na época do surgimento da Cia. Patética em 2001 não existiam muitos grupos que trabalhavam com essa linguagem além daqueles que são referência constante como o Grupo Sobrevento ou a Cia. Trucks. “Aimirim e a Terra sem Mal” pela proposta que trazia com os manipuladores dialogando com o personagem principal ao longo de toda a peça causou na plateia, e até hoje ainda causa, a sensação de que o boneco realmente estava vivo. O carisma que esse personagem teve com o público foi algo marcante para nós nesse período de estreia, o que ressalta a qualidade da técnica e do treinamento que nós, manipuladores da Patética, empenhamos em nosso trabalho. 

EO: Quando vocês completaram 10 anos lançaram um livro de histórias. Como foi o processo? Vocês já tinham tudo na cabeça?

Depois que estreamos os dois primeiros espetáculos (Aimirim e Rapunzel) iniciamos uma pesquisa profunda da obra de Cecília Meireles. Essa pesquisa trouxe ao grupo uma ligação especial com a literatura que foi, naturalmente, se refletindo nos nossos próximos trabalhos e nos inspirando para criações mais originais e autorais. Assim foram surgindo intervenções literárias e contações de histórias, além dos espetáculos, com textos e músicas compostos por nós mesmos. Todo esse material encenado sempre chegou ao público de maneira bastante poética, pois muitas pessoas após as nossas apresentações vinham entusiasmadas perguntando se tínhamos um CD com aquelas músicas apresentadas. Sem dúvida, esse contato e esses “pedidos” do público nos mostraram que, além do potencial cênico, havia também um potencial literário no que estávamos criando. Um artista tende a achar que aquilo que ele faz tem qualidade, pois a paixão é inerente à criação. Porém quando os espectadores reconhecem isso, estimulam e encorajam esse artista a voar mais e mais alto. 

EO: E daqui 15 anos, que histórias gostariam de contar?

Foram tantas transformações ao longo desses 15 anos de Cia. Patética que fica difícil prever que histórias ou que trabalhos estaremos realizando no futuro. Tudo sempre aconteceu a partir das nossas inspirações e necessidades de expressão. Tudo o que produzimos sempre esteve ligado aos nossos momentos de vida e, paradoxalmente, a nossa constante vontade de ir além dessas vidas, para permitir que o sonho e a imaginação se mostrem mais fortes e interessantes que a realidade. Não sei como seremos daqui a 15 anos, mas posso desejar que essa vontade de abrir portas para o encanto e para a beleza da arte continue nos guiando rumo à expansão das possibilidade de expressão que a nossa linguagem tem para oferecer (a nós e ao nosso querido público).

 

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