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A farsa que abalou a ditadura

Vlado Herzog<br>Foto: Acervo Instituto Vladimir Herzog
Vlado Herzog
Foto: Acervo Instituto Vladimir Herzog

“Quando perdemos a capacidade de nos indignar com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerar seres humanos civilizados” – Vladimir Herzog


Vlado era um jornalista que queria ser cineasta mas acabou se tornando um símbolo da luta pela democracia quando teve sua vida abreviada nos porões da ditadura. Quando ocupava o cargo de diretor jornalístico da TV Cultura, foi levado para depor na sede do DOI- CODI na manhã do dia 25 de Outubro de 1975, acusado de exibir conteúdo subversivo na programação da emissora e de ser integrante do Partido Comunista Brasileiro. Não saiu com vida de lá.

Segundo a versão do exército, Vlado cometeu suicídio utilizando seu cinto e uma das grades da cela. Segundo testemunhas, ele não resistiu aos métodos de tortura que lhes foram aplicados e morreu durante o interrogatório.

O jornalista Audálio Dantas foi testemunha ocular dessa história. Ele era presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo na ocasião do assassinato de Vladimir Herzog. Em 2012 publicou o livro "As duas guerras de Vlado Herzog - Da perseguição nazista na Europa à morte sob tortura no Brasil", que traz a contestação da versão oficial do que aconteceu com Herzog.

Antes da palestra que o autor ministrou no Centro de Pesquisa e Formação, em outubro de 2015, a EOnline bateu um papo com ele.


EOnline: A volta dos militares ao poder foi requisitada por um grupo de pessoas em manifestações populares recentes. Como você relaciona esse fato com a importância de mantermos viva a memória de anos de ditadura militar, para evitarmos um retrocesso?

Audálio Dantas: Os que pediam, durante manifestações de rua, a volta dos militares ao poder, incluíam (e continuam) duas categorias de pessoas: as da direita fascista e as que, sem condições de avaliar o que de fato representou para o Brasil o período da ditadura militar, repetiam os gritos dos primeiros e lhes seguiam os passos. Faziam isso, portanto por ignorância. Foi a ignorância, aliás, que levou milhões às ruas em 2013, em manifestações “contra tudo que está aí”, contra os políticos em geral e, ao mesmo tempo, a proclamar que “somos milhões de Cunhas”. Todos “contra a corrupção”, é claro.
É fundamental que se traga para debate a discussão sobre os crimes cometidos pelos militares que tomaram o poder em 1964 e, em nome do combate aos “inimigos da democracia” suspenderam as liberdades democráticas durante 21 anos, prendendo ilegalmente os opositores do regime, torturando-os e assassinando.
Uma inciativa da maior importância foi a instituição da Comissão Nacional de Verdade, que levou a cabo importantes investigações sobre os crime da ditadura militar. Mais do que isso, proporcionou a multiplicação, em todo o país de comissões estaduais, municipais e em setores diversos da sociedade civil. Com isso se difundiu a importância de não apenas se discutir  sobre a violência da ditadura, mas da necessidade de preservação da memória e da verdade histórica. Essa é uma questão que diz respeito à preservação da democracia.

EOnline: Qual o papel do jornalismo nesse contexto?

Audálio Dantas: Primeiro é preciso lembrar que a grande mídia teve papel importante não apenas na pregação da derrubada do governo constitucional, em 1964, como no apoio que deu ao regime militar  dele resultante. É preciso reconhecer, contudo, que também teve papel importante quando percebeu que a sociedade civil passou a engrossar os movimentos de protesto contra a ditadura, principalmente quando milhões foram às ruas clamar pelas eleições diretas. Hoje, quando não há mais censura, os veículos de comunicação, em sua maioria, não usam a liberdade de imprensa para contribuir de maneira mais consistente para o esclarecimento dos cidadãos sobre os crimes cometidos pelos governos militares.

EOnline: Acredita que para o jovem de hoje, a realidade vivida na ditadura parece ter um excesso de dramatização?

Audálio Dantas: Na verdade, a grande maioria dos jovens ignora e parece não se interessar em conhecer a história do período. Muitos imaginam que os que se referem à violência ditatorial falam de um tempo antigo, que não lhes interessa.

EOnline: Além do seu livro, quais outros materiais (reportagens, livros, filmes etc) você indica para combatermos essa crise de esquecimento?

Audálio Dantas: Há um grande número de livros publicados sobre a ditadura. Os chamados livros-reportagem estão cada vez em número maior nos catálogos das editoras. Dentre muitos outros, cito a série escrita pelo jornalista Elio Gaspari sobre as várias fases do regime militar, “Dos filhos deste solo”, de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio, “Brasil: nunca mais – Um relato para a história”, edição da Arquidiocese de São Paulo, e “História indiscreta da ditadura e da abertura –Brasil: 1964-1985” de Ronaldo Costa Couto. A bibliografia é extensa, vale a pena pesquisar.

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