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A (não) representação negra no cinema

Há cerca de 100 anos, o cinema narrativo clássico começava a se estabelecer em Hollywood, nos Estados Unidos da América. Se o cinema, como curiosidade e espetáculo popular já existia há algumas poucas décadas, essa forma hoje convencional de se contar as histórias e encadear os blocos de imagens (por cortes, movimentos de câmera e fusões entre as cenas) estabelece-se apenas no início da década de 1910 e o seu marco histórico foi o filme O nascimento de uma nação (The Birth of a Nation, 1915) dirigido por D. W. Griffith.


O filme acompanha a saga de duas famílias brancas do sul dos EUA durante e depois da Guerra de Sucessão: guerra civil estadunidense entre estados do norte e do sul, ocorrida entre 1861-1865, resultando na vitória do norte e na abolição da escravidão por todo o país. Para além das suas inovações de linguagem que lhe renderam reconhecimento crítico e esse lugar cativo na história do cinema, O nascimento de uma nação é um marco também como propaganda de ideologia racista. Na trama, os personagens negros são representados por atores brancos usando maquiagem, técnica preconceituosa comum na origem do cinema que é conhecida como “blackface” (face negra). Tais personagens negros são mostrados como animalescos, pouco inteligentes e como predadores sexuais das mulheres brancas. A solução apresentada no roteiro para preservar a integridade familiar é a intervenção do Ku Klux Klan (conhecido como KKK, é um movimento extremista de supremacia branca) caçando, julgando e exterminando a “ameaça do homem negro”. Assim, para além dos danos subjetivos provocados por uma representação racista, o filme ficou diretamente relacionado com o ressurgimento do KKK em diversos estados dos EUA, por audiências influenciadas pela narrativa.


Falar atualmente de O nascimento de uma nação mais do que relembrar uma historinha ou um deslize pontual no surgimento do cinema como indústria é uma forma de perceber como o cinema não nasce ideologicamente neutro. As artes e as tecnologias são frutos do trabalho e das relações humanas que se dão em sociedade, influenciadas por fatores econômicos, históricos e estruturais que organizam essa sociedade. Assim, o primeiro filme narrativo clássico não é racista por um equívoco de seus produtores e diretor; ele é o é pois o pensamento destes estava de acordo com os parâmetros dos artistas, dos financiadores, dos distribuidores da arte e de grande parte do seu público naquela época. Se o movimento afro-americano boicotou e denunciou o filme no período, tais ações não foram suficientes para atingir o prestígio crítico e lucro comercial da obra.


E essa predominância histórica da ideologia racista desde o estabelecimento do cinema como forma artística e narrativa muito tem a dizer sobre a realidade da representação do negro na tela grande ainda atualmente. Se nas terras de Griffith, Hollywood não tolera mais discursos e tramas tão abertamente preconceituosos, a indústria de entretenimento continua sob pressão por representação e reconhecimentos dos atores, das atrizes, das diretoras e diretores negros – um dos casos mais recentes foi o boicote proposto à premiação do Oscar, em 2016, após o anúncio dos concorrentes que não figurava nenhum artista negro nas categorias principais. 


No Brasil, o cenário atual da representação negra no cinema comercial é ainda mais preocupante. A ausência de negros nos filmes nacionais pode ser facilmente percebida por qualquer espectador atento. Essa baixa representação é demonstrada por pesquisas como a “A cara do cinema nacional: perfil de gênero e cor dos atores, diretores e roteiristas dos filmes brasileiros (2002-2012)”, feita pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Para entender os números da pesquisa vamos ter em mente que metade da população do Brasil se declara preta ou parda (segundo dados oficiais do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e que chamamos de negro a junção dos dois grupos. Então, nos filmes nacionais de maiores bilheterias exibidos entre 2002 e 2012, no elenco principal: 14% eram homens negros e 4% mulheres negras. E se na frente das câmeras é ruim, atrás a situação é ainda pior. Os homens negros representam 4% dos roteiristas e 2% dos diretores desses filmes. Nenhuma mulher negra dirigiu ou escreveu nenhum dos filmes levantados pela pesquisa. Nenhuma. Não precisa entender muito de matemática para perceber a desigualdade entre o número de negros no país e o seu envolvimento e representação no cinema comercial.


E onde estão então as diretoras e os diretores negros? As roteiristas e os roteiristas negros? As atrizes e atores negros? A resposta é: em sua grande maioria fora do cinema comercial, nas trincheiras do cinema independente. Nessas trincheiras de resistência e criatividade vimos surgir nos últimos anos algumas iniciativas importantes, como o curta-afirmativo do Governo Federal (edital que desde 2012 financia filmes de curta duração dirigidos ou produzidos por jovens negros) e a criação do portal Afroflix, pela diretora negra Yasmin Thayná (plataforma que disponibiliza via internet filmes produzidos, dirigidos, escritos e/ou protagonizados por pessoas negras).


Esses projetos nos mostram que o aumento da representatividade negra no cinema nacional passa de forma fundamental por rearranjos na cadeia de financiamento e distribuição dos filmes. E nos lembram que em uma arte industrial e tecnológica como o cinema, a luta por representação é acima de tudo um embate político e econômico.  Até porque, sendo o cinema fruto do trabalho e das relações humanas em sociedade, com influências econômicas, históricas e estruturais, apenas o nascimento de novas bases irá alterar essas relações. Nesse ponto então, mais do que representação do negro no cinema, poderemos falar da experiência negra nos filmes – ou seja, dos negros na frente e atrás das câmeras não como fato raro, mas como algo comum. Ponto em que teremos o renascimento de uma forma artística.

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