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Festival Batuque - os tons da música negra

A presença de escravos africanos na colonização violenta das Américas pelos europeus resultou não apenas na miscigenação de raças, mas de culturas. As canções entoadas por escravos nas lavouras e senzalas eram a maneira que tinham de recordar sua origem, manter vivos os hábitos de seus povos e reforçar a ligação com sua terra natal. Assim surgiram os cantos de trabalho nas fazendas do sul dos Estados Unidos e por todo o território brasileiro, em cafezais, canaviais e campos de mineração.

Nos Estados Unidos, esse tipo de música era conhecido como race music, ou música de raça. Após a libertação dos escravos no país, em 1863, os negros permaneceram à margem da sociedade. Mas em seus guetos, puderam livremente cultivar sua música e desenvolvê-la, até que, no início do século XX, ela não coube mais em si e se frutificou em estilos que ganharam o mundo. Gospel, jazz, blues, rock, soul, funk e rap são exemplos de frutos da black music, batizada assim pela revista Billborad, nos anos 1940.

No Brasil, a herança africana possibilitou experimentações sonoras, dando outras tonalidades à música negra, com a criação de vários gêneros, cujo mais representativo é o samba. Aqui, a cultura afro se misturou naturalmente a outras representações musicais, emprestando suas batidas e ritmos para enriquecer a música brasileira.

Na última década, diversos festivais surgiram com o propósito de apresentar ao público importantes vozes da black music. Entre eles, está o Festival Batuque, criado em 2010, no Sesc Santo André, no ABC paulista. Em seis edições, o evento anual já contou com apresentações de Femi Kuti – músico nigeriano, filho mais velho do pioneiro do afrobeat, Fela Kuti –, Erykah Badu, Anelis Assumpção, Criolo, Bixiga 70, Nação Zumbi, Céu, Tássia Reis e Elo da Corrente.

“É um festival do coração. Vim várias vezes do Rio só pra ver, pra curtir. É muito bom tocar aqui. São vários irmãos”, comenta BNegão. O artista se apresentou com sua banda BNegão & Os Seletores de Frequência na edição de 2015. Seu álbum mais recente, TransmutAção, transcende o rap e parte da música negra universal. “Essa coisa da percussão, eu queria fazer desde o início da banda. Sempre achei que nossos discos ficavam devendo nesse quesito”, explica o músico, que acrescenta “os tambores ajudam realmente a comunicar, porque colocam a energia no lugar antes de chegar a palavra”.

Em 2016, o Festival Batuque acontece neste sábado, dia 17/12, e no domingo, dia 18/12. A sétima edição apresenta 14 atrações, entre artistas nacionais e internacionais, ligados à black music e  suas variações. Entre os participantes está o trio de jazz-rap norte-americano Digable Planets, que toca nos dois dias o repertório dos álbuns Reachin' (A New Refutation of Time and Space), de 1993, e Blowout Comb, de 1994. O trio tem influenciado músicos de diversas gerações por mesclar instrumentação orgânica e sonoridades eletrônicas. Também sobem ao palco do festival, no dia 17, Hurtmold & Paulo Santos, Espião & Sala 70, Laylah, Pitzan (Beats no Sampler) e Caio Neri (microfone); e no dia 18, Criolo, Metá Metá, Tássia Reis, Jamés Ventura, Tiago Frugoli (Beats no Sampler) e Pathy Dejesus (microfone). Todos os shows acontecem no Espaço de Eventos do Sesc Santo André, a partir das 17h.

O SescTV exibe com exclusividade a edição 2015 do Festival, que teve como destaque, além de BNegão & Os Seletores de Frequência,  o grupo de hip hop paulistano RZO. Negra Li, assim como os outros integrantes da Rapaziada da Zona Oeste, tem carreira solo, mas dedica atenção especial ao RZO porque reconhece a importância dele em sua trajetória. “Quando eu tô no palco, eu nem sei como fico direito porque eu fecho os olhos, danço e começo a viver e reviver tudo o que passei: o começo quando ganhava vinte contos de cachê, quando ia a pé de Brasilândia para Pirituba pra ensaiar, quando não tinha Youtube, nem roupa pra vestir e usava as roupas dos meus irmãos”, conta a cantora.

As bandas Space Charanga, Mental Abstrato, Beatwise Recordings, o rapper brasileiro Rodrigo Ogi e o americano Joey Bada$$, um dos expoentes da nova geração da black music, também se apresentaram em 2015 no Festival, cujos shows inéditos são exibidos esse mês no SescTV.

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