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À frente da multidão

A compositora e cantora Marina Lima construiu uma obra pop com acento brasileiro
 


Foto: Paulo-Mancini

O primeiro contato de Marina Lima com o fazer musical se deu aos 5 anos de idade. Com a mudança da família para Washington, o pai a presenteou com um violão, numa espécie de conexão com o Brasil. Nos Estados Unidos, onde morou até os 12 anos, Marina fez aulas do instrumento e conheceu a diversidade do pop pelas frequências do rádio.
De volta ao Brasil, na dúvida entre ser psicanalista ou se dedicar à música, ficou com a segunda opção, e se tornou uma das vozes mais representativas do pop brasileiro. De passagem pelo Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, Marina Lima explicou sua relação com o pop: “Eu não estava preocupada em expor um estilo brasileiro, mas queria ser parte do universo pop e queria que a música brasileira também estivesse representada nesse contexto”. A seguir, os melhores trechos.


No rádio e na TV

Para mim, Dalto [Dalto Roberto Medeiros, cantor carioca dos anos 1970] foi o primeiro cantor pop do Brasil, depois viemos eu e o Lulu Santos e introduzimos no rádio um tipo de música mais pop. Antes de nós havia o tropicalismo, um envolvimento maior com a brasilidade. Já a música pop representava uma cultura e uma geração do mundo inteiro. Era uma música que se propunha a traduzir um espírito novo. Eu não estava preocupada em expor um estilo brasileiro, mas queria ser parte do universo pop e queria que a música brasileira estivesse representada neste contexto. Para mim era muito interessante ouvir uma música minha na trilha da novela, porque era o tipo de som não habitual a maneira como eu cantava as canções era um pouco diferente do que havia no cenário e eu me sentia superfeliz por isso.

André Midani articulava para emplacar os artistas nas trilhas de novela, porque desse modo conseguíamos visibilidade nacional. No especial Mulher 80 (exibido pela TV Globo em 1979), houve uma reunião de várias gerações de cantoras: eu, Joana, Fafá de Belém, Fátima Guedes, Maria Bethânia, Rita Lee, Simone, representantes de diferentes regiões e gerações do país. Estar na trilha desse especial me deu visibilidade. A televisão é um lugar incrível porque divulga a imagem e seu trabalho no Brasil todo, sem barreiras geográficas.

E houve uma coisa mais forte: cantei com o Caetano [Veloso]. No meu segundo disco, há uma música feita por ele, chamada Nosso Estranho Amor. É uma letra pessoal do Caetano, mas eu era muito próxima a ele e gravei – ele não só me deu a letra como gravou comigo. A música foi bem-aceita, circulou na rádio FM. Uma sequência de bons acontecimentos me ajudou a ser conhecida rapidamente no país inteiro.
 

Uma boa briga

Sou uma pessoa de enfrentamento, porque sempre fui muito livre. Meus pais eram intelectuais liberais, não tinha problemas em casa para dizer o que eu pensava ou para começar a estudar música, por exemplo. Acho que o machismo existe em qualquer profissão. Na época em que comecei, então, existia muito. Não havia muitas intérpretes e ainda mais instrumentistas – acho até que havia mais compositoras do que instrumentistas.

Sempre fui independente e quando comecei o trabalho com o meu irmão [o poeta Antônio Cícero] eu já tinha um estilo próprio. Essa fase foi um pouco complicada, mas depois do segundo disco melhorou. Claro que houve um pouquinho de problema, até com o André Midani mesmo, porque eu queria fazer o que acreditava e não aceitava ninguém me dando ordem. Comprei muita briga, mas tive muito apoio. A partir do meu terceiro disco [Certos Acordes] o meu trabalho ganhou autonomia. Ficava incomodada quando faziam arranjos para minhas composições. Queria os meus músicos trabalhando comigo, porque eu compunha aquelas canções, já tinha uma harmonia, sentia necessidade de criar esses arranjos com os músicos e não ter algo pronto.

Tudo foi muito rápido. Eu não tinha pensado em ser cantora, estar no palco. Pensava em ser musicista, acabei assinando contrato, gravei um disco, subi no palco e isso era difícil. Eu tinha ideais, queria mudar um padrão musical no Brasil. Cresci ouvindo rádio dos Estados Unidos, e o que tocava? De tudo: música latina, Tom Jobim, blues, João Gilberto, Beatles, Rolling Stones. Acabei virando um liquidificador musical. Ouvia, triturava aquilo tudo, e o que saía era uma mistura daquelas influências com o meu toque, a minha música.

Quando voltei para o Brasil nos anos 1970, havia preconceito sobre o que era ou não brasileiro, e nasci aqui, adorava o país, mas meu som não era tipicamente brasileirinho, e isso me incomodava, pois não queria voltar para o exterior, e o Cícero, devido à vivência em outros países, se sentia meio sem par. Então existia em nosso trabalho uma ambição musical que também era ideológica. Queríamos um espaço numa tribo no Brasil e nos juntamos para isso, formamos uma tribo enorme, mas a ambição era mudar o padrão musical e a mentalidade. Tárik de Souza [jornalista e crítico musical] me disse: “Sabe a impressão que eu tenho de você? É que você está sempre à frente”. E eu me sinto um pouco assim.

Houve um momento no qual senti que não estava sendo compreendida musicalmente. Meu trabalho ficou distante do que acontecia no Brasil (anos 2000), que era uma espécie de popularização – acho importante esse fenômeno e entendi perfeitamente. Minha música ficou muito distante, pois no começo da carreira eu era mainstream, tocava no rádio, e a partir desse momento de popularização eu não sabia onde me encaixar. Da música pop eu fui cada vez me sofisticando, porque a repetição não me agrada. Sou ambiciosa no meu trabalho e houve essa hora em que eu não cabia mais na rádio popular, então isso me desanimou um pouco e percebi que não adiantava só ficar depurando, depurando (musicalmente) e não ter quase ninguém para compartilhar, entender o que você está fazendo.

Pensei: Para tudo! E fui para o violão, por isso fiz o disco No Osso (2015). Não adiantava mais fazer um disco eletrônico, as pessoas não entendiam a linguagem que eu estava usando, então parei tudo e fui para a origem, sem gordura alguma, só voz e violão, tornando-se um novo encontro com o público. Toquei no violão alguns sucessos, mostrei como as músicas foram compostas, um show grandioso, voz e violão, metidíssimo o show, quase um “na sala com a Marina”. Assim houve uma relação intensa com a plateia. Retomar as canções sem nenhum tipo de adorno criou um link muito grande, porque me despi e me lembrei de onde veio tudo para mim, foi bom entrar em contato com a minha produção sem nenhuma ferramenta.

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