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Uma conversa sobre as artes do circo e os meios de comunicação

Toda e qualquer discussão sobre a arte, sempre foi motivo de disputas, pela multiplicidade de sentidos, teorias, ideias e achados em torno do tema. Em permanente produção, os conceitos sobre arte circulam por diferentes espaços, por diferentes canais, adquirindo por sua vez outros sentidos. Os meios de comunicação têm parte nessa história, um ir e vir de informações, de vozes que falam e outras que não estão por lá, de verdades anunciadas e histórias contadas. São construtores de narrativas sobre a arte e intermediadores na disputa sobre suas definições.

Diante da complexidade dos conceitos de arte, é importante se debruçar sobre uma delas, o circo. Desde que as artes do circo se constituíram, a partir do final do século XVIII e início do XIX, as produções circenses sempre disputaram os principais meios de comunicação existentes, na divulgação de seus espetáculos. Muitas das propagandas circenses se diferenciavam das outras por apresentarem desenhos dos artistas e até formatos de textos que facilitavam com que analfabetos também conseguissem identificar que o anúncio se tratava de circo.

No século XIX, no Brasil, mesmo onde não havia jornais, os circenses realizavam suas propagandas. Iam para rua divulgar, colavam cartazes que produziam, desfilavam com o palhaço montado sobre um burro, além de ser sua própria chegada às cidades um evento, uma propaganda. Naquele período, quando a principal mídia eram os jornais, os circenses a usavam plenamente. Na maior parte deles, as propagandas de eventos artísticos eram publicadas na última página e o circo disputava tamanhos e formatos distintos com todos os outros anúncios, de espetáculos ou não.

Não se pode estudar a história do teatro, da música, da indústria do disco, do cinema, das festas populares, e da televisão no Brasil, sem considerar o circo como um dos importantes veículos de produção, divulgação e difusão dos mais variados empreendimentos culturais. Os circenses sempre estiveram presentes como protagonistas e atuavam num campo ousado de originalidade e experimentação. Divulgavam e mesclavam os vários ritmos musicais e os textos teatrais, estabelecendo um trânsito cultural contínuo das capitais para o interior e vice-versa. É possível até mesmo afirmar que o espetáculo circense era a forma de expressão artística que maior público mobilizava durante todo o século XIX até meados do XX.

A partir dos anos 1960 e 1970, entretanto e por inúmeras razões, os circos itinerantes de lona foram diminuindo de quantidade. Se para dentro dos circos e grupos itinerantes de lona o processo de transmissão do saber havia passado por mudanças significativas de continuidade, a teatralidade circense se mostrou rizomática, foi construindo novos percursos, desenhando novos territórios e formas diferentes de divulgação e circulação.

O advento das escolas de circo no mundo, assim como no Brasil, é um fato realmente novo na história dessa arte: antes, os saberes do circo eram passados dentro da lona, nas escolas permanentes, que eram os circos itinerantes. Hoje, cada vez mais artistas se fixam em determinada cidade e ocupam, literalmente, todos os espaços do urbano, inclusive os meios de comunicação em todas as suas vertentes.

Contudo, há algumas narrativas que circulam sobre circo continuam e carregam visões complicadas e muitas vezes pejorativas. Nos anos 1980, circo foi simbolicamente associado  a coisas não sérias e vinculando a noção de que se algo não funciona a contento é porque virou um circo. A figura do palhaço como desqualificador de alguém. Os meios de comunicação contribuíram para a acentuação dessa visão.

Há um episódio emblemático, que distancia o circo do mundo das artes. Quando da estreia do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, em 2002. O crítico de cinema Inácio Araújo, que não gostou do filme, traçou no caderno Folha Ilustrada, do jornal Folha de São Paulo um paralelo rápido e superficial entre passatempo e arte, e no final reforçou sua tese ao escrever: “Pede-se que esse passatempo tenha ideias - ou ao menos finja tê-las -, pois ninguém deseja que o cinema se confunda com coisas (sic) como parque de diversões ou circo, por exemplo, o que diminuiria seu valor".

Nem mesmo alguns Institutos de Artes de Universidades consideram o fazer do circo como “arte”, apesar de um grande número de alunos de graduação e pós-graduação desenvolverem pesquisas sobre o tema.
Com o surgimento da internet, das plataformas digitais, das redes sociais, há uma mudança nos modos de como os artistas circenses podem divulgar seus trabalhos e espetáculos, ou mesmo disputar as narrativas sociais. Se por um lado este movimento parece representar uma maior proliferação de espaços de divulgação - e não podemos dizer que não existe uma mudança importante neste sentido -, parece-me que estes espaços estão de alguma maneira restritos a um mesmo grupo de interesse, os próprios artistas circenses. Isso demonstra certa fragilidade e dificuldade na circulação de informações sobre esses temas e dificulta a disputa de enunciados sobre o circo enquanto uma produção artística.

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