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Uma mulher de opinião

Estudada em profundidade ou citada apaixonadamente, obra de Simone De Beauvoir ganha novas interpretações 30 anos após sua morte


Simone de Beauvoir em Saint-Germain-de-Pre´s, Paris, 1946 - Domínio Público
 

Ela esteve no Brasil com o companheiro, Jean-Paul Sartre, em novembro de 1960, a convite do escritor Jorge Amado. Simone de Beauvoir passou por São Paulo, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Ouro Preto, Araraquara, entre outras cidades, além de ir até a Amazônia. A visita foi um dos mais agitados acontecimentos culturais da época no Brasil e serviu para disseminar a mítica em torno do casal e o respeito pela obra de cada um.

A trajetória intelectual da filósofa já estava consolidada nesse período, mas o início não foi fácil. Membro de uma família tradicional, quando menina Simone – que nasceu em 1908 – era mimada pelos familiares, herdando do pai advogado o gosto pelos livros. O interesse pelo universo do conhecimento, no entanto, a distanciou do ambiente social em que estava inserida e ampliou seu olhar sobre o mundo ao qual desejava pertencer.

Negando-se a dar continuidade aos traçados familiares (casar, ter filhos e dedicar-se a atividades domésticas), relatou sua experiência em Mémoires d’une Jeune Fille Rangée, de 1958 (Memórias de uma Moça Bem-Comportada, Nova Fronteira, 2017), autobiografia originalmente publicada quando a autora alcançava a casa dos 50 anos. Antes dessa obra, seu caminho na filosofia já como Pour une Morale de l’Ambiguïté, de 1947 (Por uma Moral da Ambiguidade, Nova Fronteira, 2015), Le Deuxième Sexe, de 1948 (O Segundo Sexo, Nova Fronteira, 2016, dois volumes), e o romance Les Mandarins, de 1954 (Os Mandarins, Nova Fronteira, 2006), pelo qual ganhou o Prêmio Goncourt.

FRASES SOLTAS

A doutoranda em Filosofia na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH-Unifesp) Juliana Oliva pesquisa a obra de Beauvoir e explica que a filósofa atuou firmemente no questionamento e na recusa dos papéis e atribuições relacionados aos gêneros. Essa abordagem foi desenvolvida em diversos textos e vem sendo reiterada por inúmeras citações da autora feitas livremente e de diferentes formas. Por exemplo, em 2015, uma das questões do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tratou de feminismo e citou uma célebre frase de Beauvoir sobre o tema: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. A inclusão na prova em uma questão sobre as lutas feministas da metade do século 20 provocou comentários diversos nas redes sociais, flanando entre apoiadores e contrários ao conteúdo abordado na prova direcionada aos estudantes.

A pesquisadora considera relevante o entendimento do contexto filosófico no qual os conceitos foram desenvolvidos por Beauvoir. “Sua base teórica para refletir acerca da opressão das mulheres, no que diz respeito à essência ou à sexualidade, por exemplo, pode diferir da base de alguns estudos feministas e de gênero atuais”, explica Juliana, que durante o mês de junho ministrou a oficina Deve-se Queimar Beauvoir?, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc (CPF). “Mas, mesmo que trilhem caminhos diferentes, tais estudos e a proposta de Beauvoir convergem para o respeito a todo ser humano, como liberdade, como subjetividade autônoma, e para a igualdade de oportunidades concretas para todos, independentemente de sua anatomia, aparência e desejo.”

NÃO É FÁCIL SER SIMONE

Após graduar-se em Filosofia, Simone foi aprovada pela École Normalet Supérieure de Paris numa espécie de pós-graduação na área de humanas e ciências francesa. Aos 21 anos conseguiu esse título, e foi na École que conheceu Jean-Paul Sartre. Unidos pela dedicação à filosofia, comprometeram-se com uma relação sem privações ou amarras. Encontraram um no outro a cumplicidade de romper com os paradigmas sociais e de costumes, tendo a filosofia como ponte e meio de expressão.

Como era de esperar, a decisão não foi abraçada pela sociedade parisiense sem choques nem estranhamento. Alinhando vida e pensamento filosófico, a escritora, que morreu em 1986, ocupou um lugar “difícil e ambíguo” na filosofia, segundo a professora do Departamento de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) Magda Guadalupe dos Santos.

Para a pesquisadora, a filósofa tinha consciência dessa posição, mas “numa perspectiva distinta da nossa, já que estamos há cerca de 30 anos de sua morte e vemos hoje o mundo diferentemente do que se via no final do século 20”, observa. A professora salienta que a ambiguidade também é um tema relevante aos olhos da intelectual francesa, citando o exemplo de Por uma Moral da Ambiguidade, livro que traz em seu cerne o debate sobre como a história da filosofia se recusava a ver o mundo por uma “simultânea e múltipla perspectiva”. Ser compreendida pelo viés de definição conceitual e moral complexa não era algo negativo, afirma Magda, pois ela “sabia como novas teorias e posturas de conhecimento e de vida perturbavam a ordem vigente, mesmo no século 20. E, de certa forma, parecia-lhe sempre necessário seguir adiante e manter-se fiel a si mesma”, resume.

IMPACTO CONSTANTE

A obra de Simone de Beauvoir segue despertando curiosidade e interrogações a uma vasta gama de leitores e ganhando identificação ainda maior com as mulheres que, assim como ela, ambicionam a falência de modelos estabelecidos e cobranças sociais. Para tatear o fluxo de ideias deixados por Beauvoir, vale considerar sua perspectiva filosófica e pensar sobre alguns termos considerados fundamentais pela pesquisadora Juliana Oliva para a leitura dos textos, entre eles “existência”, “essência”, “liberdade”, “situação” e “desvelamento”. “É importante para a leitora ou o leitor saber como a autora compreendia o mundo e as relações humanas para acompanhar suas reflexões”, acrescenta.

 


O filósofo francês Jean Paul Sartre e a escritora Simone de Beauvoir chegaram a Israel e recebidos por Avraham Shlonsky e Leah Goldberg no aeroporto de Lod (1967) - Foto Moshe Milner

 

REVERBERANDO INFLUÊNCIAS
Veja ideias e conceito elaborados por Simone De Beauvoir e pensadores que influenciaram sua filosofia

 

LEITURA DO FILÓSOFO ALEMÃO GEORG WILHELM FRIEDRICH HEGEL (1770-1831) em 1941, conforme ela relata em 9 de janeiro daquele ano em seu diário. Beauvoir reflete a partir de A fenomenologia do espírito (1807) de Hegel acerca das relações intersubjetivas e da importância do reconhecimento de uma consciência e de sua liberdade pela outra. Tema que ela utilizará como pano de fundo na sua primeira obra de ficção que lhe rende maior visibilidade A convidada (1943) e posteriormente em algumas passagens de O Segundo Sexo (1949) problematizando a relação entre homem e mulher.

LEITURA DE FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO (1945) de Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) – filósofo e colega de Beauvoir. Para a filósofa elaborar sua crítica a um ideal de Mulher em O Segundo Sexo, assinalando que este ideal é construído a partir de uma interpretação negativa do corpo feminino e recai como opressão sentida por cada mulher, inclusive também em seus corpos, foi de grande importância a sua compreensão e readequação da noção de “corpo vivido” de Merleau-Ponty, que descrevera o corpo não como um invólucro da consciência, mas como meio pelo qual a subjetividade acessa o mundo. Para ambos, corpo e subjetividade não seriam substâncias separadas; o sujeito é o seu corpo.

EXISTENCIALISMO Mesmo que Beauvoir atribua a seu companheiro Jean-Paul Sartre (1905-1980) – especificamente à obra de Sartre O Ser e o Nada (1943) – a sua perspectiva existencialista, a noção que tem do ser e da existência, conforme lemos em Por uma Moral da Ambiguidade (1947), sua compreensão do que ambos chamam situação do sujeito é mais abrangente do que a de Sartre. Beauvoir compreende os indivíduos para além de suas escolhas e ações; a situação de cada um, de cada uma, para ela, diz respeito também ao contexto socioeconômico e cultural em que vive o que lhe propicia a distinguir o que se compreende por sexo das categorias de Homem e Mulher – ou gênero masculino e feminino – em O Segundo Sexo.

Fonte: Juliana Oliva, doutoranda em Filosofia na
Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade Federal de São Paulo (EFLCH-Unifesp)

 

NO RADAR
A obra de Simone de Beauvoir foi analisada sob diferentes perspectivas em atividades do Centro de Pesquisa e Formação

 

Em junho, o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc trouxe a obra de Simone de Beauvoir em diferentes perspectivas. A pesquisadora Juliana Oliva orientou uma oficina e ofereceu um panorama sobre a vida e a obra de Beauvoir, com o foco nos conceitos filosóficos da autora necessários para compreender a análise sobre a mulher em sua obra. Já Carla Cristina Garcia, doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e professora da mesma instituição, ministrou uma atividade focada no livro O Segundo Sexo, parte da programação Contextos: O Livro da Vez.

No mês de julho, a temática feminina continua na palestra As Mulheres e a Revolução Russa (13/7, quinta, das 19h30 às 21h30), abordando o protagonismo feminino em um dos maiores acontecimentos político e social do século 20: as revoluções na Rússia, que levaram à queda do czarismo e à ascensão do socialismo na União Soviética. A atividade será ministrada por Graziela Schneider Urso, tradutora, mestre e doutora em Literatura e Cultura Russa pela Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

 

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