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Receita para uma cidade saudável

Médico patologista e pesquisador, Paulo Saldiva acredita em novas maneiras de se relacionar e interagir com o espaço urbano para a longevidade nas metrópoles. Nascido em 1954, na cidade de São Paulo, Saldiva ausculta o pulmão da capital, como se ela fosse um paciente, e prescreve mudanças de comportamento aos cidadãos, células desse organismo complexo. Especialista em poluição e doenças relacionadas ao tema, Saldiva dirige, atualmente, o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP) e já participou (como autor e coautor) de 580 artigos científicos nas áreas de patologia pulmonar, patologia ambiental e poluição atmosférica. A seguir, trechos do depoimento do pesquisador, no qual ele fala sobre mobilidade urbana, novos hábitos, importância das relações sociais e contato com as artes como aliados da qualidade de vida.



PAULO SALDIVA esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E no dia 11 de maio de 2017

 

Nasci em São Paulo em 1954. Naquele período, a cidade se imaginava e flertava com a ideia de ser uma cidade moderna e sofisticada. Uma esperança antes de ela crescer como uma pipoca e sucumbir à própria estrutura. Como asmático, percebia que alterações de clima e poluição faziam com que minha asma piorasse. Eu me dediquei ao tema da poluição e estudei doenças respiratórias. Para isso, escolhi a patologia.

Tenho o duvidoso privilégio de ver os paulistanos pela última vez. Fazemos 15 mil autópsias de morte natural por ano e em cada uma delas vejo as marcas que a cidade deixa nas pessoas e nas suas famílias, a exemplo das manchas de carbono no pulmão. Mas o fato é que a poluição é apenas um dos indicadores dos exames alterados de uma cidade doente.

CORPO URBANO

Comparo a cidade a um ser vivo: cada bairro é um órgão e nós somos as células que constituem esses órgãos. A cidade de São Paulo é uma senhora de 463 anos, obesa, que já não suporta sua estrutura. Quando chove, ela faz edema; quando não chove, desidrata. Ela tem deficiência renal porque não filtramos a água; diabetes, porque usamos a energia de forma perdulária; doenças autoimunes que fazem com que as próprias células de defesa agridam, por sua vez, células residentes sem motivo aparente. Tem calvície, ou seja, onde tem gente não tem verde, e onde tem verde não tem gente. Na cidade, as ruas são artérias que fazem a comunicação precária que vemos atualmente.

ARTE, EDUCAÇÃO E SOCIALIZAÇÃO

Já foi comprovado que viver perto de um equipamento de lazer diminui em 30% o risco de doença cardiovascular. Mas a gente não prescreve isso. Quando o indivíduo realiza alguma atividade artística ou se reúne com pessoas para fazer algo prazeroso, ele produz mais substâncias anti-inflamatórias. Não é à toa que os hospitais têm cada vez mais áreas verdes e promovem mais arte, porque os pacientes saram com maior rapidez. Então, existe uma resposta orgânica ao estético.

Temos receptores para a beleza, para o conhecimento, para as relações afetivas. Indivíduos que vivem isolados morrem mais rápido de câncer, suportam pior a quimioterapia, têm maior incidência de doenças cardiovasculares. Por isso, o desafio é incorporar esses novos conhecimentos a políticas de saúde.

CASOS AQUI E FORA

Há estudos que mostram a influência na saúde e na expectativa de vida com indicadores como parques, bibliotecas, atividades associativas. Em Medelín (Colômbia), por exemplo, o governo conseguiu resgatar uma geração que poderia se encaminhar para a criminalidade criando bibliotecas vivas, espaços de encontro. Dados de um estudo em Londres associam o metrô à expectativa de vida: no centro da cidade, a expectativa é de 90 anos, mas você perde um ano de vida a cada duas estações rumo à periferia. Em São Paulo esse número é de seis anos.

Acredito, sinceramente, que existe uma dimensão oculta de qualidade de vida e de saúde dentro de uma visão ecossistêmica do que é uma cidade. Se você não souber manter ou recriar relações afetivas sociais, por exemplo, você está perdido. Por isso, o melhor que você pode fazer depois dos 60 anos – comparando com parar de fumar e parar de beber – é manter relações afetivas sociais. Essa discussão incorpora temas que fogem da saúde convencional, ou seja, a saúde não cabe mais na saúde.

 

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