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Clementina, cadê você?

Pertencente à nobreza de guardiãs de tradições como o samba, o jongo, o lundú, os lamentos, os cânticos de trabalho, enfim, das presenças negras nas conexões entre tempos de ontem, hoje e amanhã, Clementina de Jesus é um dos nomes mais importantes da história da música popular brasileira. Seu umbigo está enterrado no mesmo território em que essas tradições têm seus fundamentos, solo fértil de convivências cotidianas e trocas de experiências.

Rememorá-la com a pergunta/frase cantada pelo compositor Elton Medeiros: Clementina, cadê você? é um chamado que enfatiza sua presença permanente, pela força da obra e das histórias que deixou, e chama pela saudade da ausência física que completa 30 anos agora em julho de 2017. Nascida 13 anos após da abolição da escravatura, sua presença ainda impacta pela singularidade das sonoridades, visualidades, corporalidades africanas e afro-brasileiras, carregando vivências e memórias históricas. 

Chegou ao mundo artístico em plena ditadura militar nos anos 60, já com 63 anos de idade. Em tempos de bossa nova, essa chegada que fortaleceu diálogos de reaproximação com as origens negras do samba, extrapolou a música e marcou um terreno cultural de significados repletos de tradições e sentidos de pertencimento compartilhado, em torno de raízes culturais comuns.

Alçado por pensadores e políticos nos anos 30 como um dos mais fortes símbolos da identidade nacional, o samba foi incorporado a um processo de fortalecimento da ideia de democracia racial em um Brasil que, supostamente, aceita e valoriza sua negritude. A difusão da ideia de harmoniosa convivência com os negros do país prevalecia, sobretudo, no período restrito, permitido e controlado do carnaval quando, para colocar "ordem na desordem" constava no regulamento oficial das agremiações a obrigatoriedade de enredos com temas de "finalidade nacionalista".

A estratégia escamoteava as desigualdades sociais, as perseguições e violências sofridas por sambistas - além dos capoeiristas e terreiros de religiosidades de matriz africana - respaldadas pela Lei da vadiagem, sancionada em 1941, que considerava ociosidade como crime e permitia a abordagem e a prisão de pessoas que andassem nas ruas sem documentos, ou estivessem em situações de "baderna social".

Essa violência impactou as experiências vividas por diferentes africanos escravizados e seus descendentes, que tinham essas tradições como possibilidade de vida, liberdade, pertencimento, vínculo de dignidade e conexão com a história. Olhando as produções artísticas e culturais como territórios de resistência política, com atenção ao contexto, Clementina grava o samba: “Não vadeia, Clementina”, com a contundente resposta: “Fui feita para vadiar”.

A pergunta e a resposta podem ser lidas como uma brincadeira, mas, relacioná-las como referências sutis à violência contra o samba e a lei da vadiagem, fortalecem o sentido de crítica social que está na continuação da mesma música: “energia nuclear, o homem subiu à lua” que Clementina responde: “É o que ouço falar, mas a fome continua!”.

Pensar Clementina de Jesus permite reflexões sobre uma atualidade que, embora incorpore algumas mudanças, convive com muitas coisas que insistem em permanecer. Um exemplo é o próprio Rio de Janeiro - cidade em que Clementina cresceu, morou, trabalhou e começou a espalhar sua arte - com uma violência alardeada diariamente por números estatísticos que têm cor e classe social, com algumas situações noticiadas e outras silenciadas e nem mostradas, de tão cotidianas e naturalizadas. Ainda no próprio Rio de Janeiro, a nova onda de perseguição aos terreiros de candomblé e umbanda, proibições de rodas de samba de rua, entre tantas outras questões sociais de desigualdades de acesso e de direitos, que permanecem desde o fim da abolição da escravatura, prestes a fazer aniversário de 130 anos no Brasil.

Assim, chamar por Clementina de Jesus é também fortalecer a crença na arte e na cultura, como instrumentos de ampliação de conhecimentos e reflexões, que apontam caminhos de olhares críticos em busca de transformações sociais. A potência daquela voz marcante, diferente e  inconfundível, desperta uma memória ancestral que amplia histórias individuais e transborda para o sentido de uma coletividade de sensibilidades e experiências, em diálogo com uma trajetória de vida que é reconhecida como comum para muitas pessoas. Clementina simboliza que os passos das mulheres negras vêm de longe, e é um elo sensível de resistência poética e estética que transforma visões de submissão em orgulho e pertencimento, apontando belezas, reconhecimento, resistência e representatividade.

Axé, Clementina!

Kelly Adriano de Oliveira
Doutora em Ciências Sociais e gerente adjunta da Gerência de Ação Cultural do Sesc em São Paulo

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Em julho, Kelly participará de uma das atividades do Centro de Pesquisa e Formação que traz Clementina como temática. Para saber mais, clique aqui.

 

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