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As trajetórias de Ana Mae Barbosa

 

Sim, arte se ensina e se aprende. Essa asserção expressa a compreensão de que, embora a arte seja a experiência de conhecimento na qual a subjetividade seja tão evidente, quando comparada a outras, como a apreensão da linguagem verbal e escrita, por exemplo, ela anuncia o entendimento de que a fruição é resultado não apenas da ativação das esferas fenomenológicas – o sentir, o olhar, o ouvir, o tocar, entre outras percepções e sentidos – como também, das capacidades que possibilitam a leitura das gramáticas que compõem as linguagens artísticas.

Poderíamos dizer inclusive que, sem nunca excluir as particularidades das experiências individuais e as nuances pessoais que emergem delas, as percepções e os sentidos são constituídos, por aprendizados, que nos levam a saber olhar, a saber ouvir, a saber tocar etc, o que cada contexto tem de específico. Nessa direção o poeta Eduardo Galeano nos fala:
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Pai, me ensina a olhar! (O Livro dos Abraços).

As diferentes linguagens artísticas são constituídas de características e meios próprios, que se articulam numa rede dinâmica de práticas culturais e históricas em diferentes contextos. Dentre as perspectivas da Educação, está a que acredita que tais práticas são aprendidas e formadas por meios tácitos – no convívio cotidiano e livre entre os indivíduos -, e, por formas dirigidas – princípios e proposições pedagógicas. O ensino da arte compreende essas duas vias, e pode propiciar que das vivências individuais e coletivas, surja a inventividade do novo e o desenvolvimento perceptivo, intelectual, afetivo e emocional.

No Brasil, Ana Mae Barbosa se dedicou a pensar sobre a arte-educação, e construiu um trabalho minucioso de sistematização sobre as epistemologias – teorias de conhecimento -, e metodologias – os modos de ação educativa com arte -, desenvolvidas durante o século vinte. Esse trabalho criterioso reverbera fortemente na atualidade, seja pela potencia dos conhecimentos que produziu, como a abordagem triangular (conhecer o contexto cultural e histórico, fazer arte e saber apreciar), e, sobretudo, pela magnitude como ela tem se dedicado em prol da formação dos educadores da arte. Além da erudição de sua arquitetura teórica, talvez seja seu engajamento na formação de professores, o traço mais marcante de seu caminho.

O Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo homenageia essa estudiosa e ativista da arte-educação, abrindo espaço para pesquisadores, educadores, artistas que foram influenciados por ela. Durante os dias 16 e 17 de outubro será possível conhecer sobre as escolinhas de arte que foram fundamentais no período inicial de vida da pensadora; a importância das concepções de mediação nas propostas de arte-educação; as iniciativas na formação de professores de arte; e como os pressupostos de suas ideias se refletiram em outras áreas de conhecimento.

Extrapolando o presencial, o Seminário “As Trajetórias de Ana Mae Barbosa”, tem transmissão simultânea online aqui nesta página, ampliando para um público ainda maior, a oportunidade de conhecer as contribuições de Ana Mae Barbosa.

Ieda Maria de Resende
Mestra pela Faculdade de Educação da USP e Assistente técnica do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo.

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