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Vigiar e punir, eis a questão

Foto: Rafael Leme
Foto: Rafael Leme

A filosofia de Foucault, as pinturas de guerra, fantasmas de Goya e as visões infernais de Bosh foram essenciais para a montagem do espetáculo que tem uma única exibição dia 14 de outubro no Sesc Osasco.

Porém, o que todas essas informações têm em comum?
Talvez não exista uma única resposta. A obediência? O medo? O controle? Os pensamentos e as reflexões?

A complexidade dos textos, a história de vida de cada um mostram o sentindo de suas trajetórias e os tornam únicos. A ideia central do espetáculo é fazer uma reflexão crítica da maneira como vivemos hoje. De como a sociedade nos vigia e como nos colocamos nessa condição de vigiados. E então, eis a questão!

A montagem discute a evolução dos conceitos de punição e vigilância dentro da sociedade contemporânea, onde a família também é vista como a última instância, porém, uma “instituição” que também vigia e castiga. O cenário é construído por cenas abstratas, verdadeiros recortes do cotidiano em asilos, hospícios, escolas públicas e dentro da nossa própria casa. Bonecos tomam vida, tornam-se marionetes, são manipulados e interpretados pelos atores com linguagem de bufões, dando vida ao texto do filósofo francês Michel Foucault.

Os personagens bonecos são inspirados em quadros de guerrilha de Goya e nas visões infernais de Bosh. Ao ver a peça, tudo fica muito claro. O espanhol, Francisco de Goya foi pintor oficial do rei. Após uma grave doença suas produções artísticas não atendiam mais a aristocracia, perdendo o respeito por suas novas obras. Por outro lado, o artista pôde expressar sua fantasia, invenções, sua verdadeira identidade e franqueza. Ele pintou as guerras napoleônicas, os horrores sofridos, o sentimento humano, as injustiças, transformando sua arte em um ataque. Já o holandês Hieronymus Bosch, teve uma vida mais tranquila, religioso, de imaginário sofisticado, mesclava seres humanos e objetos e criava narrativas complexas. Porém, mesmo não existindo provas concretas, fez parte de algumas seitas, dedicou-se à ciências ocultas, onde adquiriu conhecimento sobre sonhos e alquimia, e foi perseguido e morto pela inquisição.

Dessa forma, o público pode recriar em seus pensamentos os significados e os sentidos daquilo que vê e sente a partir de cenas obscuras, abstratas e subjetivas. Os momentos são provocativos em torno do tema da loucura, da desobediência e da noção duvidosa de ‘normal’. A peça, de fato, incomoda o comportamento do público ao evidenciar como a sociedade de controle e vigilância de hoje manipula os desejos e impulsos naturais do indivíduo contemporâneo na busca de uma "normalização" silenciosa.


A Cia Caravan Maschera é uma companhia ítalo-brasileira minimalista de Teatro, criada por dois atores bonequeiros, Giorgia Goldoni e Leonardo Garcia Gonçalves. Em seus espetáculos, destacam-se o hibridismo de linguagens, a diversidade das técnicas teatrais utilizadas e a pertinência atual dos temas abordados. As pesquisas buscam as convergências e divergências nas performances populares no que se refere ao uso da máscara, do teatro de bonecos e das danças e ritmos populares brasileiros.
O reconhecimento da produção artística, do engajamento sócio-cultural e da qualidade de pesquisas teatrais da Cia Caravan Maschera pode-se medir pelos prêmios e incentivos culturais financeiros recebidos nos últimos cinco anos do Governo do Estado de São Paulo, da FUNARTE, do Ministério da Cultura e da Comunidade europeia.


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Bom para acompanhar você quando estiver correndo, com saudade do Angeli e do Laerte dos anos 80 e outras cositas más. Chega mais!

 

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