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A percepção de quem vive

Ensaio de PRETO<br>Foto: Nana Moraes
Ensaio de PRETO
Foto: Nana Moraes

A atriz e dramaturga Grace Passô faz um parâmetro do que é o Projeto PRETO, o novo trabalho da companhia brasileira de teatro, que estreou no Sesc Campo Limpo em novembro de 2017 e agora faz curta temporada no Sesc Avenida Paulista

Este trabalho é um mergulho em questões que fundamentam transformações definitivas do Brasil de nosso tempo. E estamos falando daqui, de um país que vive diariamente febril ao lidar com a ascensão de discursos direitistas, racistas, transfóbicos, homofóbicos.

Estamos falando daqui, de um país preto que se aquilomba cada vez mais e de formas distintas; daqui, de um lugar em que militâncias, negras e negros em movimento têm ensinado à nossa sociedade a alfabetizar-se; daqui, de onde nós, mulheres negras, estamos cada vez mais conscientes de nossa fertilidade (no sentido mais amplo da palavra) indomável.

E é daqui e no centro dessa espécie de revolução antiga, que tecemos, fio a fio, um trabalho que traça, de formas distintas e através da linguagem teatral, inúmeras tentativas de diálogos entre artistas de histórias identitárias diferentes.

A tentativa de diálogo, a escuta, a tentativa de afetar-se pelo outro não são soluções, mas sim formas de existir plenamente, com dignidade, justiça, liberdade, afeto e consciência de outridade.

Quando vejo cada um de nós, vejo (e isso me emociona) nossas comunidades e é preciso dizer que o teatro é historicamente o lugar de resistência e por isso, o lugar para pensar o impossível. Não o impossível como aquilo que desiste, mas o impossível como potência do imaginário, do que inventa outra forma de viver. E é daqui, do teatro, que falamos.

Grace Passô
São Paulo, Outubro de 2017

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Grace Passô

Diretora, dramaturga e atriz que trabalha em parceria com artistas e companhias teatrais brasileiras. Iniciou na dramaturgia desde jovem, escrevendo peças, tendo seus trabalhos traduzidos para seis idiomas. Apesar da origem mineira, Grace tem uma grande ligação com a capital paranaense.

Dentre seus trabalhos dirigiu Contrações (Grupo3 de Teatro, SP), Carne Moída (com formandos da EAD/USP), Os Bem Intencionados (Grupo LUME, SP); SARABANDA (a partir do último longa de Bergman). Atuou nas peças Rasante (da No Ar Companhia de Dança), KRUM (com a Companhia Brasileira de Teatro) e em espetáculos do repertório do Espanca!, grupo mineiro que fundou e no qual permaneceu por dez anos assinando a dramaturgia de espetáculos como Marcha para Zenturo, Amores Surdos, Por Elise e Congresso Internacional do Medo, sendo diretora dos dois últimos trabalhos. Está em cartaz atualmente com VAGA CARNE, monólogo de sua autoria, e como atriz e dramaturga de PRETO, da companhia brasileira de teatro. Dentre os prêmios e indicações recebidas estão: Prêmio Shell SP e APCA; Prêmio SESC SATED 2005 e 2006; Prêmio Usiminas Simparc (2004 e 2006), Medalha da Inconfidência do Governo do Estado de Minas Gerais, Prêmio Questão de Crítica (RJ), Prêmio APTR (RJ).

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